Carta aos estudantes de Psicologia

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Caras e caros colegas, amigos/as, professores/as e público aqui presente,

O objetivo dessa mesa é que a gente responda perguntas cujo eixo temático é: “formei, e agora?”. Além disso, a comissão organizadora pontua que o objetivo da mesa também é compartilhar “as barreiras e anseios de um recém formado em psicologia na UFMT”. Parece amável, mas é quase uma cilada tal objetivo, pois para estar aqui hoje eu tive que me colocar a pensar sobre, no mínimo, esses nove meses pós a conclusão da minha graduação. E, acreditem, nos haver com nossa própria história exige de algum modo, mas acaba por ser gratificante.

Vamos lá! Vocês estão diante de cinco pessoas que passaram pela graduação aqui na UFMT, em momentos distintos e singulares do curso. Parece que estamos vivos e bem, dentro daquilo que nos foi possível depois que nos graduamos. Acredito, então, que vocês também estarão vivos e minimamente bem quando o fim e o depois chegar, resguardando a singularidade de cada processo.

A meu ver, as barreiras e anseios de um recém formado, ou ao menos as minhas barreiras e anseios, foram atravessadas pelo simples fato de ter que lidar com o fim. Eu fui convocada a encerrar um ciclo que eu sabia que tinha seus cinco anos para acontecerem, mas que eu os vivi sem preparo para esse momento. Mas, me digam, quando é que a gente vai estar completamente preparado? Hoje, pensando que a minha colação de grau se deu no dia 1º de novembro de 2016 e que no dia seguinte foi dia de finados, achei bem simbólico. Afinal, tinha sim um luto para lidar diante daquilo que se acabou.

Foi barreira lidar com o fato de descobrir outro local ao qual pertencer, afinal, não era mais estudante de psicologia da UFMT. Foi barreira lidar com os adeus aos amigos e amigas que retornaram a sua cidade natal, que foram para outro estado viver sonhos, ou melhor, realidades. Foi barreira e anseio pensar: como é que mantenho os laços? Como é que desfaço os nós? Bom, e vocês? Quais são as relações e laços que estão constituindo ao longo do seu percurso acadêmico? Como elas são dadas? Há abertura, disposição e disponibilidade? Há, prestem atenção, escuta? Escuta de si, do outro, dos desejos de vocês, da conjuntura política, histórica, social e cultural que estamos inseridos? Porque esses elementos me parecem fazer parte do “ser psicóloga”. Muita coisa? Ao menos para mim, no meu fim, foi.

Acredito que a graduação e a formação de maneira geral é constante e insuficiente. Então, no meu fim, tive que lidar com a angústia de pensar algo simples e intenso: o que eu quero? O que eu dou conta de fazer? O que aprendi durante 5 anos que me ajuda a dar os próximos passos? Durante a graduação eu nunca passei pelo hospital Júlio Müller em nenhum dos estágios. Quando fui fazer minha matrícula, me perdi. No entanto, nos últimos dias de fevereiro quando efetivar minha matrícula, saí de lá com a certeza de que aquele era o local que me sentiria desconfortavelmente a vontade em estar. Dessas coisas que a gente não sabe dizer e só sentir.

Eu não sei muito bem como eu escolhi fazer residência. Minha trajetória acadêmica sempre me levou a vida acadêmica, a ser uma mestranda, doutoranda e quem sabe professora. A pesquisa me apetece, não a toa grupos de pesquisa e extensão estão presentes no meu currículo Lattes. Mas, o Lattes não mostra a singularidade do que foi vivido em cada trabalho, em cada grupo. Não mostra como eu fui feliz, mesmo em meio a conflitos, em cada coisa registrada na plataforma. Meus olhos brilhavam a cada coisa que fazia. Frente a minha trajetória acadêmica, posso dizer que o Hospital seria – e é – o local que me dá certa estabilidade financeira e, principalmente, me desafia. E, mesmo assim, me faz feliz.

Espero que vocês conheçam Frida Khalo, pois é dela a frase que diz algo como “onde não houver amor, não te demores”. Bom, ainda almejo voltar de fato para a carreira acadêmica. Mas, é fundamental para esse momento da minha vida profissional lidar com várias áreas do conhecimento da Saúde e ter que afirmar todo o dia qual é o meu lugar enquanto profissional de psicologia. Pois, é frente a esses questionamentos que a minha identidade profissional é constituída e, principalmente, transmitida. Eu queria, lá no meu fim, aguaçar a minha escuta. E, minhas caras e meus caros, o Hospital é campo fértil para isso. Quando me perguntam: como está a residência? Além de responder que está incrível, eu respondo que aprendo a ser humilde frente as escutas que realizo. Porque muitas vezes ser psicóloga é só escutar e, pasmem, isso é suficiente.

Então, retomando a Frida, eu preciso frente ao meu modo de ser e também de sofrer estar em meio a coisas que me arrepiem o corpo, que me fazem brilhar os olhos, que fazem meu coração pulsar, assim eu consigo demorar, ao menos até 2019, quando a residência chegará ao fim. Veja só, daqui um tempo terei que me haver com meus desejos de novo. Por hora, consigo demorar e entender que ser residente de psicologia é me posicionar, é responder por mim mesma e andar com as minhas próprias pernas. É a cada dia crescer e acreditar, junto com as demais psicólogas residentes, que sei a minha função profissional vinculada a ética que nos resguarda. Psicólogas/os geralmente escutam, mas não se esqueçam: é fundamental que a nossa boca se abra para falar daquilo que somos, ao menos, profissionalmente.

Isso é um pouco das minhas barreiras e anseios. Mas, e vocês, quais são as barreiras e anseios? Mas, e vocês, onde querem demorar? Mas, e vocês, o que querem e do que dão conta? Mas, então, o que querem os estudantes de psicologia da UFMT? Mas e vocês, conseguem se colocar a escutar a si, primeiramente, e assim os outros?

Enfim, bom percurso a vocês, dentro daquilo que lhe é possível.
Grata pela escuta e convite.
Com carinho e disponível a conversar em outros momentos com vocês,
Vanessa, psicóloga residente do HUJM, mas não só.


Esta carta foi apresentada durante a VI Semana da Psicologia da UFMT (campus Cuiabá), cujo tema foi “Psicologias em debate: interfaces e atuação”. Participaram da mesa “Egressos da UFMT” junto comigo as psicólogas Luana Peralta, Ruzia Chaouchar e Taysa Castrillon e o psicólogo Victor Hugo de Souza.

Escrito sobre amizade e não só

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Há dois anos atrás eu me sentava na frente do computador, não sei bem qual horário. Não sei também por qual razão, mas naquele dia eu resolvi escrever sobre amizade. Cá está o escrito: Ei, é para você mesmo.

Hoje, eu me sento na frente do computador, após o dia todo pensando nesse texto. Afinal, o Facebook me lembrou que eu o havia publicado. Hesitei em ler, por medo de olhar para o que já pensei, mas o encarei. Ah! Se não tivesse experimentado tanto sobre amizade no ano anterior, talvez hoje eu não estivesse aqui.

Eu ainda continuo amando os encontros inesperados com aqueles que de alguma forma já cruzaram o meu caminho. Aqueles que eu vejo, dou e recebo abraço cheio de afeto e que me fazem pensar “eu amo essa pessoa”. No entanto, marcar encontro, ser encontro e estar presente com amigos, independente da intensidade da amizade, tem sido mais interessante. Porque amizade é estar junto.

Eu continuo grata pelas pessoas que passaram pela minha vida, pelas pessoas que permanecem nela. E se isso é clichê, tudo bem, sabe? Clichê, a meu ver, se trata do singelo. Daquilo que se repete e muitas vezes se banaliza. A repetição entra como possibilidade de criar, em algum momento, novas significações. E, é com o outro, que isso se torna possível. Porque amizade é criar junto.

Não, não vamos mais falar sobre friendzone. Hoje, dois anos depois, isso me soa tão ridículo. Soa silenciamento: não falar sobre os sentimentos – muitas vezes confusos – porque, afinal, uma amizade pode ser perdida. Porque confusão sentimental entre amigos não pode acontecer. É ficar quieto e viver a angústia do não saber. Por que mesmo?Amizade é poder falar sobre as coisas. É poder sentir. É poder se permitir viver algo e, junto com, ter a possibilidade de significar isso. Porque amizade, meus caros, é poder conversar  independente do teor, do humor, do amor.

Se amizade é conversar, então sim, vamos falar sobre a famigerada “discussão de relacionamento”. Não sei no mundo onde você vive, mas no meu, as conversas sempre foram um tanto escassas. Mas, chegava determinado momento de qualquer relação que eu pegava o pingo e gostaria de colocar no “i”. As cartas eu gostaria de colocar na mesa. Falar e escutar. Isso foi morrendo e entrei na lógica de “ai, que chato isso, mas necessário”. Amizade é relacionamento. Construído dia após dia. É falar o que está muito bom, mas também aquilo que incomoda. O problema de falar é se escutar? Talvez. Mas, ninguém tem bola de cristal, nós não somos o centro do mundo de ninguém. Seria interessante, mas ninguém tem o seu manual de instrução, nem nós o temos. Então, sim, percam o medo da DR, tenha uma conversa franca com o outro que você quer por perto. Pode não ser fácil, mas sempre é possível desde que se queira.

Por algumas razões, em meio a essas relações de amizades – e outras nem tantas -, e também pela forma com a qual eu fui me virando na vida, algumas armaduras foram sendo acopladas a mim. E eu, por muito tempo – e ainda hoje, em determinados momentos e situação – escolho ficar com elas. Você também? Vestir armaduras para não deixar ninguém entrar? Há o momento que você percebe que ninguém entra, nem você.  Então, é preciso se deparar com as suas limitações e tudo bem ser grossa e estar com a cara fechada, mas isso é porque você é assim ou é para afastar as pessoas? Qual é o problema de se mostrar frágil e vulnerável para o outro? Não somos isso, seres vulneráveis? Cansada de estar só, me permiti despir.

Ao despir, novas vestimentas chegaram. E ela é recheada de fragilidade. Ela é recheada de sentimentos e, sim, uma certa confusão. Tem de diversas formas, intensidades, gênero e humor. E mesmo que o medo da solidão ronde e que pensamentos de “não ter ninguém no mundo” apavore, é possível viver, pois quem chega dá força; quem chega, segura. O que aqui chegou foi, de fato, a amizade. Com intensidade, profundidade, presença e também uma certa ausência implicada.

Assim, amizade é ouvir “obrigada, você disse o que eu precisava ouvir”; é dizer “eu não sei o que estou sentindo, está confuso”; é afirmar “eu estou aqui porque eu quero, então, vamos juntos!”; é pedir “me dá colo?” e receber; é “coça aqui para mim? faz massagem? passa protetor solar?”; é ouvir e dizer “eu aprendo muito com você”; é se certificar sobre o quão inesperada é aquela relação através de um “sabe quando eu imaginei que a gente estaria aqui? nunca”.

Amizade é intimidade. Amizade é mão estendida independente se é tempestade ou calmaria. Amizade é relação. Amizade é teor, humor e amor. Amizade é, nesse momento da minha vida, abertura para poder sentir, viver e com o tempo significar. Amizade é, enfim, ir.

Sobre a nova idade

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foto: @victorzandonadi

Com 24 anos eu imaginava estar em outro lugar. Essas coisas que são introjetadas em nós ao longo dos anos por diversas fontes fazia parte desses ideais: casar e ter filhos; ter uma vida financeira estável; comprar a casa própria e o primeiro carro; viajar no meio do ano e no final, por favor. Desses ideais o que resta é a morte deles, cada vez mais.

E bom, eu preciso escrever sobre o morrer de algumas tantas coisas. Em nossa sociedade a morte é algo que não sabemos lidar (me conta como vocês conseguiram lidar com ela?). Ela está relacionada sempre a morte de alguém, e não de algo. Se não se fala muito da morte de pessoas e a nossa forma de lidar com elas, quiçá com a morte de momentos, de ciclos, de formas de sermos e sofrermos, não é mesmo?

Então, a minha nova idade chegou cheia de morte. Cheia de luto. Cheia de fim. Pois, meus caros, eu acredito que a morte é sinônimo de fim e nos deparamos com fins a todo momento. Antes da chegada dos meus 24 anos eu terminei uma graduação. A cada dia eu tenho que dar “tchau” para pessoas que estiveram bem pertinho de mim nos últimos cinco anos, ou no último ano e isso me lembra mais uma vez do fim. Não da amizade, mas de um ciclo. Finalizo em meio a festas e percebo o quão maravilhoso é dizer “tchau” para um momento com celebração. E isso envolve sim momentos de drama, choro. Isso envolve sentir o que se vive.

A minha nova idade chega cheia de fim, para me mostrar o vazio. E isso, em certa medida, chega a ser enlouquecedor. Eu não sou nada daquilo que eu imaginava ser. Eu estou muito velha para qualquer coisa. Eu não dou conta. Eu não consigo. Eu não vou. Eram essas as coisas que rondavam e, vez ou outra, me assombram. Foi necessário mais uma vez pensar sobre tudo isso.

Os meus ideais para mim não são mais esses. O meu ideal, hoje, é sentir as coisas e não racionalizá-las como sempre fiz. O meu ideal é perceber o que o meu corpo, pensamento e ações estão sentindo, sendo e como eu estou em meio a isso. Vejam, foi preciso morrer algumas coisas, para outras tantas chegarem.

Assim, em meio ao luto eu tive que parar e sobrevoar pelos momentos desse último ano. Eu fui embora e voltei. Eu tive que começar de novo em um lugar que sempre me foi familiar. Eu percebi que eu tive que, por necessidade e desejo, deixar algumas coisas para trás e respirar. Aceitar que tudo bem eu não ser o ideal do outro e assim me colocar a pensar: qual o meu ideal? o que de fato eu quero ser? precisa ser tudo agora? as coisas são sempre urgentes? As coisas são breves, ímpares e se eu ficar me preocupando em ter a resposta eu não vivo as perguntas.

Os outros podem ser cruéis. Nesse último ano o nível de intolerância e silenciamento no meu país tem aumentado. E, em meio a isso eu escolhi ter um espaço semanal para eu me escutar. Já experimentou isso? Também é um pouco enlouquecedor. Os meus textos sempre diziam de ser eu contra eu mesma, no final de qualquer conta. E isso era muito racional. Agora eu vivo isso. Ora contra, ora com, mas comigo. Estar comigo me permite estar com os outros que são pessoas próximas ou distantes. Que eu tive vários momentos ou instantes. Pessoas que me ajudam a ser quem eu sou, mesmo isso sendo uma questão para mim. Poder experimentar o sabor da amizade é algo que eu desejo para as pessoas e isso, exige abertura. Descobrir que se abrir é possível é mais uma dessas coisas que aprendi durante esse último ano. Aprendi, que mesmo em meio a situação caóticas eu tenho alguns outros e sou o outro de alguém, e isso é muito delicioso. Sem mais silenciamentos, pois todas essas coisas eu não preciso viver sozinha.

Para receber a nova idade, aos poucos fui me abrindo. Tirando teias, jogando coisas foras e outras ainda estão aqui: e tudo bem. Para a chegada do novo ano tive que soltar: o sorriso, o cabelo, aquilo que não fazia mais sentido. Tive e ainda tenho que me deparar com o vazio, com o nada. Hoje eu não sustento mais a imagem de que sou forte e aguento tudo. Hoje eu me permito expor a fragilidade que habita aqui. E tudo bem, somos fracos muitas vezes.

Para a chegada da nova idade eu tive que aprender com as pequenas mortes cotidianas. Afinal, nem sempre a morte chega do nada. Eu continuo entre mortes, lutos e tanto outros começos. Espero que quem lê possa conseguir experimentar isso também.

Deriva

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Lembrei, dia desses de uma cena de infância: ao tomar banho de chuva – mesmo com o aviso da minha mãe de que eu poderia cair e me machucar – acabei escorregando no meu quarto e batendo a minha cabeça na cabeceira da cama. Ganhei a minha segunda cicatriz no rosto. Durante as semanas seguintes, o corte nem tão fundo e nem tão superficial foi cuidado, ora pela minha mãe, ora pelo meu pai. Certo dia pedi para o meu pai que me mostrasse o curativo que ele tirou depois de uma manhã, para substituir por outro, antes de eu ir para a escola. Ele o fez e quase desmaiei. Naquela época acho que eu não sabia lidar com sangue – mesmo que o meu – e nem com uma ferida em cicatrização.

Quem dera não saber lidar com o meu sangue, com as minhas feridas abertas ou em cicatrização tivessem ficado lá, naquela época em que alguém cuidava delas por mim. Essa cena parece que está sendo revivida com certa frequência. A vida acontece e eu, em meio a ela, tenho os curativos tirados, mostrados e esfregados na minha cara. Outras vezes, eu passo a mão descuidada sob a ferida e eu me lembro dela, porque dói. Há também aqueles dias que novos cortes são dados e se aconchega em outros tantos que nem me recordo que existe.

Era mais fácil quando eu só reclamava da zona de conforto. Agora, ela está sendo tensionada, provocada. Há mal estar. Eu gostaria muito de ter alguém para culpar, alguém para resolver. Mas, se eu ousasse ou tivesse coragem de olhar-me no espelho encontraria facilmente a resposta de quem pode tentar fazer alguma coisa.

O não ver, o manter-se nesse conforto que traz algum prazer. As portas fechadas, as frestas de luz das janelas abertas e prontas para serem fechadas rapidamente. Tentativas em vão de alguma entrega. É, tentativas. Mais uma repetição do sangue que corre nessas veias e vez ou outra escorrem e eu não consigo lidar: há abertura para de fato encarar as coisas? Há, de alguma forma, desejo e investimento para que isso aconteça mesmo que gradativamente?

Pensando bem, acredito que era mais fácil quando se reduzia a palavras essa história de ser “você contra você mesmo”. Em meio ao amadurecimento e as coisas que tenho aprendido – especialmente aquelas sobre mim e que me desorganizam completamente – talvez eu fique com algumas coisas que a música Dança diferente – Maglore, me coloca a pensar: de alguma forma eu vou ter que seguir em frente (ou eu posso ficar algumas vezes só na minha cama, não tem problema nenhum) e, enfim “a gente ri de si para não chorar/ como uma dança diferente / enlouquecendo para se curar”.

Seja lá qual for a cura, se houver cura, o desafio vai ser baixar a guarda. Abrir os braços e receber abraços, dar abraços. Entender, que é um momento em que decisões, sentimentos e o viver em si é bem singular, mas não precisa ser desacompanhado. Com corpo, com fala, com pensamentos, com lágrimas me desafio a dançar diferente, ou ao menos me permitir reposicionamentos e novos olhares, escutas, silêncios, sorrisos, vida e feridas. Mesmo que para isso tenha que aceitar, de fato, que viver talvez seja estar à deriva.

No title.

E foi possível olhar de fato. Contemplar céu, ar, água. Depois da intensidade vem a calmaria? Amedronta. Os dias passando e toda a energia – aparentemente – investida em escolhas que só trouxeram a tona mais vazio. Vazio que libera espaço para coisas outras?
Vazio? Ou véu que tapava outras coisas foi retirado?
É o óculos ajudando a míope?
É a ansiedade de resposta para tudo que tudo consumiu?
Com sorrisos em meios a gritos silenciados repito e ouço: calma, menina. Você tem outros dias, outra chance, outras brigas, e sim… Outros vazios.

Miopia

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Eu sou míope. Se me perguntarem quando eu comecei a usar óculos não vou saber ao certo. Houve um dia em que a minha professora de alguma série inicial chamou a minha avó para conversar quando ela foi me buscar na aula. Disse: “preste atenção nos olhos da Vanessa, quando ela copia do quadro ela força a vista, acho que ela tem que ir ao médico”.

Acho que já vivi mais tempo com óculos do que sem. Diversas vezes tive que responder o motivo pelo qual uso óculos e para mim sempre foi bem óbvio: para enxergar melhor. Será? O que ao longo de todos esses anos eu tenho enxergado mesmo? O que eu tenho me permitido ver, olhar, enxergar? Eu me vejo?

Tem dias que eu penso: será que em algum momento eu vou parar de fazer tantas questões? É, minhas questões eram tolas – talvez ainda sejam – porque eram sobre qualquer coisa, menos eu. Agora, as minhas questões me afogam, mesmo eu sabendo que elas não precisam ser protagonistas das minhas cenas e cenários.

Na pele sinto o que brando aos ventos “no final é só você contra você mesmo”. Não, não está tendo fim. Está acontecendo, e me parece enfrentamento. De novo: o que vejo? Quero ver?

É inegável o conforto da cegueira, da ignorância. Não consigo ser e estar a maré. Tenho que dar mergulhos profundos. Tenho?

Há desejo de ver coisas outras. Há desejo de fatalmente me olhar em frente ao espelho. Enxergar sorrisos e feridas. Sentir (mais ainda). Muitas vezes penso: chega de tantas desculpas. Não consigo. Aos poucos vou colocando os óculos e enxergando algo ali, outro acolá e isso incomoda e tento, talvez e ingenuamente, lidar. Será?

Vejo de longe e não chego perto. Fantasio, imagino e é fértil. Mas assim, de longe. Sem olhos nos olhos. Não, por favor não. Ainda não há coragem para isso. Haverá?

Repouse, caro óculos. Outra hora volto a lhe usar – ou você colará em mim, sem pestanejar? Afinal, ainda forço as minhas vistas para ver coisas, sejam letras, seja eu. Sem ter rota de fuga planejada, se você vier eu te deixo repousar [eu acho]. Continuará havendo embate, mas talvez seja essa a nossa relação. Uso óculos por quais razões mesmo? Em me ver, há desejo. Sustento?

Encerrar ciclos?

Há 7 meses atrás eu me sentava e começava a escrever esse texto. Bom, obviamente ele não saiu. Achei que era algo desses tempos mais recentes entender a minha dificuldade em encerrar ciclos. Tem sempre, de alguma forma, algo/alguém que eu não deixo ir. Deveria ser cômico. Infelizmente, tem sido trágico.

Trágico no sentido chulo, associado a horror, somente. Associado a dor. Ao menos por hora. Veja bem: pensando nas palavras tortas que trago aqui elas sempre dizem da minha dificuldade de sair da minha zona de conforto. Dizem que mesmo eu querendo ficar lá, o novo aparece e eu me lanço, meio que sem medo. E, bom, acabo me tornando uma acumuladora de decisões e zonas de conforto e tudo isso fica guardado aqui. Mas, o que eu realmente deixo ir? Como desapegar de situações espetaculares, das quais você quer ali, para sempre? E, outras tantas, que de fato não fazem bem?

Acabo por acreditar que humanos são teimosos, insistem em viver. Olha quantos conflitos e sofrimentos alguém pode ter pelo simples fato de dizer “sim” e não saber dizer “não”! É! Eu sei! Há gozo em meio a dor e o amor. Entre o “engolir o mundo” e não digeri-lo. E, bom, é preciso acreditar que dá para seguir, ao menos eu escolho essa alternativa.

Andei falando muito e escutando também. Tem doído. Mas, a ansiedade com tudo a minha volta não precisa ser levada ao pé da letra. “O mundo anda sem que você precise carregá-lo nas costas, ande com ele” – disse a voz mestra. E cá estou, tentando andar sem muito peso.

Mas, Vanessa, não se esqueça: “é preciso boiar, às vezes, para não afogar” – disse a voz que tem me espetado e me acurralado. Fazendo com que a minha melhor justificativa para vida se faça valer “no final, é só você contra você mesmo”.

Há esperança de que os próximos passos possam ser mais leves. Há esperança de saber respirar, sentir, aliviar, abrir os olhos depois de um momento de silêncio e ir. Há esperança de que os dias não sejam sempre vividos em meio a arames farpados, mas também sejam vividos como maré: em movimento, mesmo que lentos.

Há 7 meses atrás eu não sabia como encerrar ciclos. Hoje? É, talvez tenha resolvido de fato deixar ir.

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Sobre o novo, de novo.

Esse ano teve tantos inícios e fins. Tantos idas ao meio, ao fundo do oceano. Teve calmaria e ressaca. Teve retorno à margem  (mesmo ela não sendo a mesma coisa, pois havia mudanças ali, lá, aqui).

Aconteceu tanta coisa que eu tive – mais uma vez – a doce ilusão de que estava acostumada com o sabor agridoce da mudança. Com o sabor que faz fechar os olhos de tão azedo, mesmo sendo esse sabor ingrato morada de prazer. Que pararia, de uma vez por todas, de escrever palavras tolas sobre sair da zona de conforto e ir para o confronto.

Não é assim. Não é previsível. Será que algum dia eu vou aprender?

Daí o tempo passa, e tudo mudou de novo. E a fragilidade berra. É inevitável querer voltar a posição fetal. Ser feto. Não lidar. Será que fugir sempre será a primeira alternativa?

E vem tombos. A insegurança está do seu lado. O medo instaurado. E novas marcas sendo feitas nesse corpo cansado, de ombros pesados, de pulmão que suporta respiros profundos.

Tem dias, desses novos dias, que se tudo fosse jogado no chão, destruído. Se um furacão passasse no meu quarto-mundo e trouxesse a bagunça interna para um cenário onde pudesse ser visto tudo, seria mais fácil de organizar. Seria mais fácil juntar os cacos. Seria mais fácil criar outros laços. Seria? Queria!

Há dias, desses novos dias, que parece que estou no mar calmo. O único movimento é aquele do próprio mar. Fico ali por horas, e quando resolvo sair sinto meu corpo com dois movimentos: o de ir para frente e o de se mover da esquerda para a direita ou o contrário, tanto faz. Eu só estou indo.

Mas tem dia, desses novos dias, que sinto tudo, tanto. Sinto coisas inomináveis. Encontro com fantasmas. O sono não me encontra, não nos encontramos. Há cortes, literais. Há sangue que jorra e parece que não vai estancar. Há lágrimas engolidas, mas tem dias que elas beijam bochechas, boca e pescoço, até o seu fim. Há dias que o berro é silêncio. Em outros dias, não tem berro, não tem silêncio, tem eu em frente ao espelho. Daí tem fuga, tem palavras bestas, tem um alívio mínimo.

Esses novos dias tem sido ímpar, tem sido vida, de outra forma vivida. Espera um pouco, não finda ainda, tá querida?

Our time is ever on the road

The ride is in what we make

I walked a year to hear a howl in this give and take

But hear it this way- hear it this way

Alright!

Das linhas que não escrevi…

…. e que me sufocam.

…. e que torturam.

…. e que ficam movimentando pensamentos tortos e tolos.

…. e que tornam trágico cada vivido, que os tornam dramáticos, intensos, densos e imensos.

…. e que me fazem querer fugir e escrever.

…. e que me fazem encarar a página dos diários virtuais, reais e querer fugir.

…. e que me fazem, ao encarar a folha em branco, não encarar absolutamente nada.

…. e que fazem lágrimas caírem e algo aqui dentro ser torcido e elaborado de alguma forma, mesmo torta.

…. e que me fazem, enfim, escrever algumas linhas sobre aquilo que senti (ainda sinto). Sobre aquilo que vivi (e ainda vivo).

Linhas escritas, enfim. Fim (?)

Vulnerabilidade, diga-me do que se alimenta?

O meu último texto aqui, nesse espaço público que se relaciona diretamente com o meu mundo privado, eu contei sobre o livro “A arte de pedir” da Amanda Palmer. Eu gostaria de escrito várias coisas sobre o livro, e acredito que escrevi algumas coisas interessantes sim. No entanto, o que mais me assustou foi como eu coloquei a questão da vulnerabilidade. Desde então, só consigo pensar e questionar sobre o que é vulnerabilidade. E, provavelmente, esse vai ser mais um monólogo, porém, compartilhado.

vulnerável
vul.ne.rá.vel
adj m+f (lat vulnerabile) 1 Que se pode vulnerar. 2 Diz-se do lado fraco de um assunto ou questão, e do ponto por onde alguém pode ser atacado ou ofendido. 3 Que dá presa à censura, à crítica. | Fonte: Dicionário Michaelis Online

Aprendi em uma das aulas de Psicologia que, muitas vezes, há pacientes/clientes que chegam aos consultórios sem nomear o que sentem, pois não sabe que nome tem aquilo que sentem. Percebi, com o post anterior, que eu não sabia de fato o que é vulnerável ou o que é vulnerabilidade e, se o que eu sentia diante de algumas situações é de fato isso. Enfim, o nome e o sentimento são compatíveis.

Vulnerável vem do latim vulnerabile-, com idêntico sentido de «que, ou por onde, pode ser ferido». Quanto a vulnerabilidade, é a qualidade de vulnerável e provém do mesmo étimo, com o sufixo -idade. Os seus contextos, como é evidente, têm de se relacionar com os significados destes dois termos, por exemplo: «Fulano é muito vulnerável», isto é, pode facilmente ser ferido, tanto física como moralmente. | Fonte: Ciberdúvidas

De fato eu acho que posso ser facilmente ferida. Tenho medo ser o lado “fraco”, de ser ofendida e receber críticas pesadas. Tenho medos que me paralisam. Tenho medo da vulnerabilidade e é esse medo que me torna vulnerável. Talvez seja engraçado, mas isso faz com que eu erga mil e uma barreiras. Isso faz com que eu não tome nenhuma atitude e assim ame a minha zona de conforto (para depois reclamar da monotonia). Acredito que as coisas não são piores, por em alguma medida eu enfrentar os meus medos e, assim, não aparentar ser fraca demais.

Esses medos existem, e vou caminhando com eles. Talvez, hoje eu pense mais sobre a vulnerabilidade, mas ela está comigo – não se assusta não, mas com você também – desde que nascemos. Em grau mais ou menos intenso. Quando nascemos, estamos vulneráveis ao mundo e as construções que já existem nele. Não sabemos qual será o nosso lugar na cadeia alimentar e de medo em medo, de erro em erro, de felicidade em felicidade, vamos nos constituindo.

Acredito (hoje, amanhã não se sabe) que ser/estar vulnerável tem ligação com o reconhecimento de tal sentimento (conceito, palavra, qualidade ou qual o nome que você queira dar a isso). Ao reconhecer os pontos vulneráveis que temos é como um desabar, quase sem fim. Quando há esse reconhecimento, é um sinônimo de reconhecer também a sua pequenez e que por mais que haja construções suas para se proteger disso, chega um momento que não dá. Até aqui, tudo bem! Mas, parece que cada vez mais vivemos em uma sociedade que ser triste, fraco e, até mesmo vulnerável, não pode não! Temos que ser felizes vinte e quatro horas por dia e, caso não consiga, há vários recursos fornecidos pela indústria capitalista para a sua felicidade artificial.

Já escrevi isso algumas vezes: acredito que os conflitos pessoais muitas vezes se resumem em uma luta de você contra você mesmo. E, quando há um casamento seu, com você [1] , as coisas podem ser melhores, embora isso não signifique sem dor. Até aqui, falei sobre a vulnerabilidade no plano individual. Óbvio, esse é um blog pessoal e eu sou um tanto narcísica. Sorry, I can’t be perfect! 

No entanto, também durante as minhas aulas na Psicologia ouvi muito falar sobre “grupos vulneráveis”. E, quando eu fui pesquisar sobre o significado da palavra vulnerável, me encontrei com essa definição abaixo e ouvi uma voz falando: queridinha, seje menas e preste atenção que tal questão está além do seu próprio umbigo.

A vulnerabilidade é a qualidade de vulnerável (que é susceptível de ser exposto a danos físicos ou morais devido à sua fragilidade). O conceito pode ser aplicado a uma pessoa ou a um grupo social conforme a sua capacidade de prevenir, de resistir e de contornar potenciais impactos. | Fonte: Conceito.de

Então, eu, você, e diversos grupos sociais vivemos situações de vulnerabilidade. Eu não tenho fôlego ainda para escrever sobre a vulnerabilidade social, ou como eu lido com todas essas coisas incomodas no mundo. No entanto, a cada instante acontecem coisas para as quais não nos sentimos preparados, algo que nos atravessa, que nos mostra nosso melhor e pior. E sim, temos que encontrar nossas formas de lidar com isso. E não é sem questionamentos que isso vai ocorrer, sem nos olharmos no espelho e percebermos nossas imperfeições e feições belas.

Mas, será que queremos nos olhar no espelho? Temos força para isso? Você, aí do outro lado que me lê, tem coragem de aceitar que, às vezes, não tem problema nenhum se jogar em algo que pode te ferir? (será que eu sei?) Você sabia que é só se jogando que vai saber o que pode ferir ou não? Olha só, tem remedinhos para a ferida, seja um band-aid, uma conversa ou simplesmente o tempo.

O problema, acredito eu, não é ser vulnerável, mas sim fugir e não querer encarar as suas próprias fraquezas. E, no final das contas, não é a vulnerabilidade que deve responder como se alimenta, e sim nós, respondermos como alimentamos nossa vulnerabilidade.

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[1] Obrigada, Victor, por compartilhar aquilo que você ouviu. Fez sentido para você, e para mim também 🙂
* Tay, isso aqui tem muito de mim, mas acredito que tenha um pouco de nós, das nossas conversas. Obrigada.