Quando a vida dá um sacode

 Poderia ser um feriado monótono. Onde mais uma vez as expectativas não foram concretizadas. Da cama para o computador, do computador para o sofá, do sofá para a cozinha, da cozinha para a cama. Uma ida ou outra ao banheiro. Pronto, passaram-se 4 dias de feriado. Mas não. Quando a vida quer, meus caros, ela te pega e sacode. Os olhos arregalam-se! A bagunça? Fica e é você quem tem que arrumar.

Você não pede, mas um milhão de informações lhe é dada em um curto espaço de tempo. Você não pede, mas tarefas lhe são atribuídas. Você não percebe, mas está rodeada de pessoas que perto ou longe querem seu bem e cuidam de você, independente de como. E você, na ilusão de ser detentor de todo o controle se vê perdido e sem um centro. Entenda: quando a vida dá um sacode, não há ponto de apoio.

A poeira abaixa. Você consegue elaborar todas as coisas que ficaram fora do lugar ou pelo menos organiza, deixa guardado em algum canto. Alerta: a monotonia não é eterna, uma hora ou outra o sacode vem e não vem sozinho. Talvez a vida seja constituída de sacudidas e aprender a lidar com elas seja um dos segredos disso que se chama vida (cheia de sacudidas).

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Sobre um romance de não-ficção e os escritos acadêmicos.

Há três anos comecei o Curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso. Há dois anos e meio participo de um grupo de pesquisa, coordenado pelo Prof. Dr. Silas Borges Monteiro na mesma Instituição. De maneira bem geral as discussões são voltadas para a área da Educação e Filosofia da Diferença.

Nesse período já aprendi várias coisas sobre os mundos que uma universidade pública pode fornecer. Boa parte da culpa por essa aprendizagem vem do grupo de pesquisa. Uma delas e que considero uma das mais preciosas é estabelecer diálogos entre a pesquisa em si, que é dura devido as regras que a regem, com a sensibilidade, linguagem entre outras coisas que os meios culturais podem fornecer.

Dando um salto gigante na discussão que poderia ser iniciada acima, o coordenador do grupo sugeriu a todos a leitura do  romance de não-ficção “A Sangue Frio” de Truman Capote. Não sabia nada do autor e nem do gênero e isso só aguçou a curiosidade pela leitura. Aqui é necessário entender que o senhor coordenador é uma pessoa muito empolgada com algumas coisas, como foi o caso desse livro e sim, isso instiga ainda mais a curiosidade.

Ok, Vanessa! Entendemos que a leitura se deu por uma sugestão, mas por qual motivo? Simples (ou não tão simples assim): uma pesquisa, seja ela sobre plânctons ou sobre o amor geram dados. Esses dados, com todo o cuidado necessário exigido pelas base de dados, pelos códigos de ética, entre outros, são manipulados. Porém, há maneiras de manipular esses dados, uma maneira mais criativa onde uma história possa ser contada a partir desses dados. É isso que Capote fez: contou uma história a partir de um fato: o assassinato de quatro membros da família Clutter, da cidade de Holcomb, no estado de Kansas – EUA.

O autor demorou seis anos para escrever o livro já que ele acompanhou a história até o desfecho dela: o julgamento e execução da sentença dos acusados Dick e Perry. Além disso, ele investiu tempo e muito para a constituição do livro, entrevistou todas as pessoas que tinham algum vínculo com a família: familiares, amigos, vizinhos, policiais, advogados, juízes, assassinos, enfim, todas as pessoas que pudessem contribuir de alguma maneira com a sua pesquisa e com a história.

No início da leitura, confesso, achei bem chato, com o enredo lento até demais. Porém, o desenrolar da história cativa, prende a atenção e você quer saber o que vai acontecer logo, mesmo que seja um pouco previsível. Eu poderia falar sobre o livro em si, porém, vamos voltar ao foco: o estilo de escrita.

Como dito anteriormente, Capote pegou um fato e contou uma história com ele. No posfácio, escrito por Matinas Suzuki Jr,  há algumas das características adotadas pelo autor durante a pesquisa e escrita do livro:

  1. Não anotar ou gravar as entrevistas. “[…] Capote dizia ter treinado com um amigo uma técnica de prestar atenção absoluta ao que ouvia […]”. Com esse treinamento conseguia reproduzir 95% do que ouvia, com precisão. Sendo assim poderia prestar mais atenção nos entrevistados e não os inibiria com o gravador e/ou caderno de anotações, sem perder a qualidade do conteúdo.
  2. O estilo do autor já estava definido: um romance de não-ficção. Nesse estilo o autor é suprimido, não aparecendo opinião, preferência, interpretação, comentários. O autor não aparecer na obra, para Capote, é a garantia para que esse estilo literário seja bem-sucedido.
  3. O tempo investido para a realização da pesquisa, manipulação dos dados e entrevista.

Nas pesquisas acadêmicas há a coleta de dado, das mais variadas formas. Há interferência ou não do autor na escrita. E claro, o tempo investido na realização da pesquisa e a manipulação dos dados. Porém, há uma coisa que falta na concretização desse resultado. É exigido dos acadêmicos que seus escritos estejam presos à margens estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). É difícil encontrar dissertações, teses e até mesmo TCC que fujam à regra, à tradição.  Porém, da leitura do livro e das discussões em grupo há, cada vez mais, o investimento para que a escrita fora dos padrões, que dê abertura para novas formas, novas sensibilidades, cresçam e apareçam.

Por fim, é interessante notar que esse movimento não teve início hoje, ou nessa década. Algumas universidades já aceitam “dissertações e teses fora do formato convencional” há algum tempo. De tudo isso fica a vontade de continuar no meio acadêmico, alimentada a cada dia mais. Fica a certeza do exercício constante de leitura e escrita. E, principalmente, o investimento para uma escrita “fora do convencional” que não agrada muito os “senhores regradores de tudo e todos”.