Intensidade

Quando você faz determinada escolha, você não sabe as consequências dela. Você sabe, às vezes, que algo foi deixado de lado, para trás, para um “agora não dá”. Mas as consequências, elas nunca são previsíveis e essa é a coisa mais deliciosa do universo: o desconhecido, as borboletas em constante movimento no estômago.
Em uma semana em que milcoisas  acontecem, que a concentração e o foco estão perdidos e difuso em meio à vida, as intensidades são percebidas. Não tomo essa palavra como um conceito de algum reconhecido autor. Basta o Houaiss e a explicação para o verbete de que intensidade é uma característica do que é intenso. Ok. Intenso, é aquilo que transborda. Os momentos da vida são feitos de excessos que não cabem mais em si. É aquilo que prende na garganta. É aquilo que te da vontade de sair correndo e gritar para aliviar, deitar e chorar para se sustentar.
Relações são excessos. Novas vontades também. Querer sair do ninho, não tem como discutir. Talvez eu esteja muito cansada e imersa de corpo e alma nessa contemporaneidade que exige mais e mais e mais. Respirações para se organizar são momentos de exceção a serem buscados, cada vez mais.  Mas mesmo assim, esse jogo do prazer e desprazer me encanta. Faz com que os olhos brilhem. Faz com que eu tenha a absoluta certeza de que algumas escolhas foram as melhores que eu fiz na vida.
Quando o fim da semana chega há aquela respiração profunda que suga todo o ar do qual você é capaz. Depois de segundos no qual você pensa “acabou”, mais milcoisas intensas estão ali, te seduzindo. O medo, a ansiedade, a precaução, o novo, inusitado e intenso estão aí, olhando e te chamando, a todo momento. Como caminho, escolha, como aquilo que continua sendo e você está ali, imerso nele. Eu prefiro todos essas coisas juntas. Tenho sede de vida. Há coisa melhor para matar a sede de vida, do que uma batida recheada das coisas que a vida tem? Acredito, fielmente, que não.
Por favor, garçom?! Aqui, eu! Então, me vê um copo que transborde intensidade para matar a minha sede de vida? Obrigada.
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Considerações sobre as relações

É possível imaginar todo um simbolismo em torno do rompimento do cordão umbilical com a placenta materna. Há um quê dê: a partir de agora, para que haja alimentação talvez seja preciso alguns berros. Aos poucos é preciso dar-se conta de que os membros inferiores servem para te sustentar e é o seu “levanta-te e ande”.  É o descolamento, é o você por você mesmo, com todas as exceções que pode ocorrer.

Acredito que situação parecida possa ocorrer todos ou quase todos os dias quando se acorda. A cama é, a meu ver, o lugar de alimento inicial e ao sair dela é dar-me conta de que a cada dia tenho que me sustentar, levantar, andar, me relacionar com outras pessoas desde a minha cadela até… bom, não sei até quem. Não há o controle sobre as coisas que podem ocorrer ou sobre as pessoas que posso encontrar e isso me deixa aflita.

Certo dia esse rompimento ocorreu algumas horas antes que o normal, um saco, mas foi preciso. Havia a viagem com o grupo de pesquisa e sabe aquelas coisas que você não pode dispensar? Seja por ser um compromisso formal assumido ao estar em um grupo de pesquisa, seja pelas vivências que somente viagens podem proporcionar? Então, essa viagem foi “essas coisas” indispensáveis que a vida te serve.

Onze pessoas. Ouviram? Eram onze pessoas. Com 21 anos ainda acho que posso controlar mais do que o hotel no qual ficar, o translado, a compra de passagens ou a solicitação de diárias. Por saber que não posso controlar mais do que isso, fico aflita, apreensiva, grosseira, ansiosa e, obviamente, em qualquer momento que o corpo pode estar relaxado há a perna inquieta que deixa claro que não há relaxamento algum.

Na luta incessante de compreender que é possível o controle, dentro de certos limites e que eu não sou esse limite, foi possível perceber outra coisa com a qual luto e ainda não sei lidar: o cuidado com si, mas principalmente com os outros.

 Nietzsche, escreve em seu Ecce Homo que é preciso ter ouvido para as vivências, é preciso se despir de algumas coisas e ter mãos para os seus e alguns outros escritos. Para as relações, intensamente aflitivas, é preciso de ouvido, mãos, pés e principalmente um filtro potente entre o pensamento e a boca que emite ruídos, palavras, frases completas. Não tem como controlar o que o ouvido do outro ouve, então cuidado. Não é possível controlar a leitura do outro sobre o seu comportamento, então cuidado. Então, tolir muitas vezes, o seu corpo. Como não sei lidar com esse cuidado todo, ainda, acho um saco. E por mais impossível e insuportável que pareça ser, eu sobrevivo.

Em meio a todo esse cuidado, há a sutileza. Sutileza essa que vem do encantamento com o que é novo e que muitas vezes nos passa despercebido. Foi surpresa perceber olhos brilhando para aquilo que eu achava já ser tão comum. Todo o cuidado e tensão das relações intensamente afetivas que existem em eventos e no próprio mundo acadêmico ainda permite o encantamento, depende de como isso te afeta.

Desses dias fica a percepção de quão sutil são as relações, seja elas em qual nível for. Elas são boas e ruins, elas são de amor e ódio. Não há controle, há cuidado. Não há centro, há o inusitado. Enfim, é preciso compreender que as intensidades da vida, quer a todo o momento mais vida e que nós, simplesmente, estamos em meio a ela.


As viagens acadêmicas pedem, às vezes, alguns relatórios. Esse foi o solicitado pelo coordenador do grupo de pesquisa que participo após a nossa viagem para o IV Seminário Integrador Escrileituras, realizado na cidade de Toledo/PR entre os dias 5 a 9 de maio de 2014. A proposta era escolhermos um aspecto da viagem e escrever sobre ela. Em grandes grupos as relações merecem, sempre, serem consideradas.

A bateria acabou!

A bateria do celular acabou.

Quarenta minutos em pé. Cabeça olhando, repetidas vezes, para o teto, isso melhora a respiração.

Durante todos esses minutos é permitido ficar ansiosa, querendo chegar em casa para recarregar a bateria do celular e ver as últimas notificações. Mas antes, é preciso olhar para o lado. E perceber o real: as pessoas que não olham mais para o lado. Ou simplesmente não olham, veem, percebem.

Distrações: músicas ecoadas em seus próprios ouvidos e que, de tão alto, todos os outros ouvem. Jogos banais que fazem (ou não) o tempo passar mais rápido até chegar o destino. Ruídos que parecem conversas e um susto: algumas pessoas ainda conversam. Um olhar vago, de uma mãe e seus três filhos, sendo dois de colo e um dormindo ao seu lado.

Naquele cenário ainda é permitido passar em ruas lotadas de carros; por bares que só tocam músicas sertanejas universitárias recheadas de universitários que sentem prazer em cabular aula. Alguns metros depois, o famoso posto próximo a Universidade, e adivinha? O happy hour de sexta se passa ali mesmo.

Quando a bateria acabou, me desesperei. Mas, as vezes é preciso desligar da sua própria caverna, parar de ver as sombras e perceber quem está ao redor. Seja a mãe, o universitário, o trabalhador que dorme no ônibus, o ar que não circula, o calor que emana, as vozes que se misturam, o estresse no ápice a ponto do estouro. Tudo é interessante de se perceber. Quando a bateria acaba dois desesperos vem: a incomunicação com algumas pessoas e quão incomunicável estou com todo o resto do mundo e dos sentidos.