Considerações sobre as relações

É possível imaginar todo um simbolismo em torno do rompimento do cordão umbilical com a placenta materna. Há um quê dê: a partir de agora, para que haja alimentação talvez seja preciso alguns berros. Aos poucos é preciso dar-se conta de que os membros inferiores servem para te sustentar e é o seu “levanta-te e ande”.  É o descolamento, é o você por você mesmo, com todas as exceções que pode ocorrer.

Acredito que situação parecida possa ocorrer todos ou quase todos os dias quando se acorda. A cama é, a meu ver, o lugar de alimento inicial e ao sair dela é dar-me conta de que a cada dia tenho que me sustentar, levantar, andar, me relacionar com outras pessoas desde a minha cadela até… bom, não sei até quem. Não há o controle sobre as coisas que podem ocorrer ou sobre as pessoas que posso encontrar e isso me deixa aflita.

Certo dia esse rompimento ocorreu algumas horas antes que o normal, um saco, mas foi preciso. Havia a viagem com o grupo de pesquisa e sabe aquelas coisas que você não pode dispensar? Seja por ser um compromisso formal assumido ao estar em um grupo de pesquisa, seja pelas vivências que somente viagens podem proporcionar? Então, essa viagem foi “essas coisas” indispensáveis que a vida te serve.

Onze pessoas. Ouviram? Eram onze pessoas. Com 21 anos ainda acho que posso controlar mais do que o hotel no qual ficar, o translado, a compra de passagens ou a solicitação de diárias. Por saber que não posso controlar mais do que isso, fico aflita, apreensiva, grosseira, ansiosa e, obviamente, em qualquer momento que o corpo pode estar relaxado há a perna inquieta que deixa claro que não há relaxamento algum.

Na luta incessante de compreender que é possível o controle, dentro de certos limites e que eu não sou esse limite, foi possível perceber outra coisa com a qual luto e ainda não sei lidar: o cuidado com si, mas principalmente com os outros.

 Nietzsche, escreve em seu Ecce Homo que é preciso ter ouvido para as vivências, é preciso se despir de algumas coisas e ter mãos para os seus e alguns outros escritos. Para as relações, intensamente aflitivas, é preciso de ouvido, mãos, pés e principalmente um filtro potente entre o pensamento e a boca que emite ruídos, palavras, frases completas. Não tem como controlar o que o ouvido do outro ouve, então cuidado. Não é possível controlar a leitura do outro sobre o seu comportamento, então cuidado. Então, tolir muitas vezes, o seu corpo. Como não sei lidar com esse cuidado todo, ainda, acho um saco. E por mais impossível e insuportável que pareça ser, eu sobrevivo.

Em meio a todo esse cuidado, há a sutileza. Sutileza essa que vem do encantamento com o que é novo e que muitas vezes nos passa despercebido. Foi surpresa perceber olhos brilhando para aquilo que eu achava já ser tão comum. Todo o cuidado e tensão das relações intensamente afetivas que existem em eventos e no próprio mundo acadêmico ainda permite o encantamento, depende de como isso te afeta.

Desses dias fica a percepção de quão sutil são as relações, seja elas em qual nível for. Elas são boas e ruins, elas são de amor e ódio. Não há controle, há cuidado. Não há centro, há o inusitado. Enfim, é preciso compreender que as intensidades da vida, quer a todo o momento mais vida e que nós, simplesmente, estamos em meio a ela.


As viagens acadêmicas pedem, às vezes, alguns relatórios. Esse foi o solicitado pelo coordenador do grupo de pesquisa que participo após a nossa viagem para o IV Seminário Integrador Escrileituras, realizado na cidade de Toledo/PR entre os dias 5 a 9 de maio de 2014. A proposta era escolhermos um aspecto da viagem e escrever sobre ela. Em grandes grupos as relações merecem, sempre, serem consideradas.

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