Sem medo de falar: Relato de uma vítima de pedofilia

gNa cidade onde eu moro não tem livrarias bacanas, sabe? Então, na primeira oportunidade que eu tenho gosto de ir em livrarias com mais coisas do que a que tenho a minha disposição. Apesar de ter sido uma passada rápida, no retorno de uma viagem, a Saraiva localizada no Aeroporto de Guarulhos foi a escolhida. Andei, andei e os livros da listinha não tinham lá.  O encanto ficou todo depositado na agenda da Mafalda, que é a melhor adesão do ano. Nos 45 do segundo tempo, já que iria ter algumas horas de voo, resolvi levar esse livro aí, que parecia ser água com sal, mas como gostei da capa (exceto por esse logo amarelo), acabei levando.

Quem nessa humilde vida não gosta de uma surpresa? Pois é! Fui surpreendida, aos poucos, com a história. Nesse relato auto biográfico Marcelo Ribeiro mostra quão profundos, intensos e vivos podem ser os rastros de um trauma.

Quando o seu relacionamento entra em crise ele percebe que chega a hora de perder o medo de falar.

DSC03830Quando decide perder o medo de falar, muita coisa aconteceu na vida desse empresário: participou desde a infância até certa idade do coral da Igreja de sua cidade, foi braço direito do seu maestro, saiu do coral, se apaixonou, teve problemas de relacionamento com amigos e namorada, família e qualquer outra pessoa. Seu jeito frio e muitas vezes preconceituoso causava incomodo, bem como sua falta de intensidade nas relações.

Sem medo de falar traz para cena a voz de alguém que foi abusado durante a infância. Apresenta também como funcionava,  social e pessoalmente, trazer a tona questões em torno da pedofilia. No livro é colocado em xeque, obviamente, a Igreja Católica e os casos de   abuso infantil que começaram a fervilhar a moral dessa instituição religiosa  nos últimos três, quatro anos.
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Não só o relato compõe o livro, mas também toda a sua estrutura. No final de cada capítulo Marcelo Ribeiro opta por colocar uma notícia sobre algum caso de abuso infantil relacionada a Igreja Católica e sua repercussão.

É interessante notar as demais referências trazidas como, por exemplo, o filme As vantagens de ser invisível com roteiro e direção de Sthephen Chbosky, entre outros, que giram em torno do tema do livro. Acredito que leituras devem te deixar com sede, e eu estou, de saber mais sobre o tema e de beber das referências indicadas pelo autor.

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Como estudante de Psicologia eu preciso de referências, inspirações que não sejam só Leminski e John Green. Livros devem nos causar um certo impacto, nos torturar, nos retirar da zona de conforto. Sendo assim, esse livro cumpriu sua função. Pensar nos prós e contras da posição que a Igreja Católica vem tomando em relação aos abusadores em meio a sua instituição, bem como a sociedade civil enxerga casos assim já é um começo. Além disso, é preciso acessar de algum modo esse tipo de vivência, e o livro ajuda, e muito, nisso.

O autor indica a leitura para “todos os pais e os que amam as crianças”. Sendo assim, todos devem aproximar das questões de abusos infantis, seja pela via da leitura de um livro, da legislação, da profissão sob a qual atua. O medo de falar deve ser perdido por todos. Há instituições que não são tão sólidas assim e precisam ser estremecidas e demolidas mais efetivamente, ao menos naquilo que é a sua falha, ou seja, muito.

De tudo no livro, gosta da ênfase que o autor dá para o abusado, principalmente nos momentos finais: para se perder o medo de falar é preciso de alguma forma ter segurança, apoio e ouvidos. Falar não é fácil. E ouvidos para isso, quem tem?


Livro | Sem medo de falar: relato de uma vítima de pedofilia.
Autor | Marcelo Ribeiro
Editora | Paralela
Nota | 4 (considerando de 0 a 5)
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