Esfolie-se

Como em “Brilho eterno de uma mente sem lembrança“, gostaria de algo que arrancasse pessoas e situações da minha vida. Aquelas coisas que ficam guardadas em caixas e que se não existissem mais, seria ótimo. Em poucas palavras: gostaria de ter o controle de tudo e de todos. Sim, sou tola a esse ponto.

Na sétima arte, Joel e Clementine notam que, por alguma razão, suas memórias não podem, simplesmente, serem apagadas. Aliás, até podem. Mas em uma hora ou outra elas vem à toda. Eles deixam gravado o porquê da exclusão, um da vida do outro. Não, acredito que não seja apenas uma exclusão. Acho que a intenção é que seja um assassinato.

Sabe, por mais que eu queira que isso aconteça, é impossível. Eu não posso ser uma assassina das minhas memórias, das pessoas que não quero mais na minha vida. Por mais que por alguns instantes eu ache que seja algo viável, tenho que dizer não. Minhas memórias, sendo elas boas e ruins, me constituem.

Para as pessoas mais próximas, sempre digo para consumirem a vida com tudo que ela fornece, pois é isso que as constituem. Critico as pessoas que são contraditórias, mas eu sou a própria contradição. Gosto muito de apontar o dedo e acho que apagando as minhas memórias as coisas se resolvem, mas não. Eu rumino, tudo. Mas a digestão às vezes é impossível.

Por mais que as memórias sejam recalcadas, elas vem sempre, por alguma razão, em algum momento, de alguma forma. Por não digeri-las corretamente, quando voltam elas batem na minha cara, de mãos abertas.  O rosto fica vermelho e latejante, de maneira que me lembre, o tempo todo, que é de dores e alívio que a vida se constitui. É como se me desse mais uma chance para digerir. E olha que absurdo: nem me pergunta se eu quero, essa vida bandida!

Ok! Já entendi que algumas coisas precisamos ruminar e, principalmente, fazer com que o processo de digestão seja completo. Aquilo de absorver os nutrientes e expelir pela via anal o que não serve ao organismo. Essa via eu não acho muito fácil. Dói. Ruminar é, para mim, um processo de pensamento do qual precisamos de algum apoio, tipo uma análise. Ajuda a elaborar melhor as coisas, aliás, uma boa parte delas.

Porém, acho que sempre é possível passarmos pelo processo de esfoliar a vida, nossas memórias. Aquilo que tá morto em nós serve apenas para dar mais peso às nossas costas que podem ser frágeis ou sedentas por cargas novas e intensas. Não sejam tolos de pensar que esfoliar só ajuda no processo de tirar aquilo que é ruim, meus caros. Sonhos são bons, estar vivo, para mim pelo menos, é bom. Porém, alguns sonhos e alguns momentos da vida estão mortos, pois eu não as regenero, pois as camadas mortas impedem que as novas de surgirem.

Preciso esfoliar o meu rosto, a minha vida, os meus sonhos. Preciso de pele nova para ser hidratada, cuidada… pele essa que também morrerá, mas antes será vivida, tornará memória e irá me constituir mais um pouco. Esfoliar me tira da zona do conforto e eu tenho que falar foda-se para o meu medo e sair mesmo e deixar a minha cara livre para tapas e carícias. E que seja não só hoje, ou só amanhã, mas sempre!

Ah, sim. Se você está lendo isso: Esfolie-se também!

Mas, se tiver mais coragem do que eu: faça uma boa digestão, pode valer mais a pena.

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