Diário de Estágio – Dia 1 | 30.6.2014

Segunda-feira atípica em Cuiabá. Amanheceu frio. Mas logo o sol deu seu jeito de ficar radiando, mesmo com intensidade menor do que normalmente. Último dia desse mês que perdeu todo o glamour dos dias dos namorados e das festas juninas para trazer à cena a Copa do Mundo.  No último dia, foi o meu primeiro em um novo campo de estágio: CIAPS Adauto Botelho – Unidade I.

Eu não sabia que ônibus pegar. Não sabia onde parar. Só me lembrava de que na infância tinha ido naqueles arredores. Parece-me que pelas redondezas tinha um local onde se criavam cobras para fazer antídotos com os venenos delas. Quando foi chegando próximo, o motorista muito gentil me informou onde era a instituição e me deixou na porta.

Cheguei a um portão estreito e tinha um senhor lá na porta, querendo entrar. Porém, a guarda que se encontrava ali, naquele momento, disse:

– Não liga para ele não, venha aqui, o que você quer?

– Sou estudante de Psicologia e minha professora disse que eu viria.

Enfim, ela me ensinou como chegar até lá. Logo para mim, a pessoa mais sem senso de direção da história, mesmo que o caminho seja óbvio. E sim, errei. Passei pelo pátio grande, porém sem cobertura, e entrei em um corredor. De uma janela com grade tinha uma mulher a me olhar. Seu nome eu não sei, ainda, porém não consegui encarar e me direcionei a uma moça de jaleco. Questionei onde seria a reunião de equipe, para a qual eu tinha ido, e ela disse que me levaria até lá. Depois descobri que ela era uma das mais novas na equipe e é enfermeira.

Corredores escuros. Portões. Grades. Olhos arregalados. Imprecisão no que viria a próxima curva. O cheiro é indescritível. Algo como nada e coisa nenhuma. Algo como vazio e descaso.

Cheguei à sala, avistei minha orientadora. E me sentei. Sem saber o que fazer, fiquei quieta, mas acho que não tinha nada o que ser feito mesmo. O clima era mais tranquilo. Algumas risadas. Conversas cotidianas sobre como baixar uma música. Aos poucos a equipe foi chegando e a reunião se iniciou. O ambiente me lembra ao posto de saúde do bairro onde eu morava quando era mais nova. Minha vó e minha mãe me levavam lá, às vezes, para tomar uma vacina ou conhecer o Zé Gotinha.  Além disso, algumas mesas distribuídas. Um ventilador e um quadro. Cadeiras de plásticos azuis. Galões de água. Geladeira. Armário. Coisas comuns de salas de instituições de saúde (ou não).

A reunião começa pelos assuntos administrativos. Lembram que eu disse da Copa do Mundo no começo? Então, isso é bom, de verdade. Mas é um véu sobre tantas outras coisas gritantes, é tão política de pão e circo que às vezes me dá embrulho no estômago. Educação e saúde são coisas precárias no país onde vivo. Não seria diferente no município que eu não resido, mas passo a maior parte dos meus dias. Enfim, verba tem. O repasse é para buracos outros que não os corretos.

Há problemas relacionados ao fornecimento de energia. Não há telefone na Instituição há um bom tempo. Medicamentos e equipamentos: em falta. Mas não faltam sensibilidade e vontade de cuidar do lugar e das 17 internas (essa informação tem no quadro) que se encontram lá, hoje. E isso me parece um ponto muito forte e favorável. Gente com sede me encanta. Uma pena que a fonte de saciação é distante e adoram um descaso.

Desistir parece ser uma palavra riscada do vocabulário dessa Instituição em específico. Sendo assim, há documentos protocolados no Ministério Público, para ver se alguém acorda (Oi, administradores públicos! Acordem, por favor?). O local não se sustenta sozinho, e não é possível acordar alguéns na solidão. É preciso da comunidade: moradores da região, parentes, estudantes, população de uma maneira geral. Por isso, a expectativa é que no dia 23 de julho deste ano (ainda não está decidido, oficialmente, a data) ocorra o Ato de Repúdio do CIAPS Adauto Botelho, em frente ao local onde antigamente funcionava o Pronto Atendimento do CIAPS. O ano passado, algumas pessoas da comunidade administrativa da saúde cuiabana, gostaria de acabar com a Instituição, como se a rede de saúde pública do munícipio tivesse suporte para atender às pessoas que lá residem hoje (lembrando que há mais demandas além das atendidas no CIAPS). O “Abraço ao Adauto” teve voz e força para manter o funcionamento deste local. Sendo assim, o clichê “a união faz a força” não é tão clichê se de alguma maneira traz resultados. Então, será interessante acompanhar esse movimento de mobilização das pessoas até o dia do Ato e, principalmente, depois.

Algumas falas me fisgaram durante a reunião de equipe como, por exemplo, entender que o fato das internas (o local onde eu faço estágio é a Ala Feminina) estarem lá, não significa que elas estão fora do mundo. Devido a isso, os funcionários buscam realizar eventos como festa junina. Os resultados são sempre positivos. As internas se libertam de alguma maneira, se liberam. Se sentem mais vivas, por assim dizer. Não só de doses de remédios se vive uma vida. É preciso doses de vitalidade também, acredito que essas festas trazem isso.

E, uma das melhores falas, á meu ver, relacionado à institucionalização dos funcionários. Quando em um ambiente de trabalho ou em qualquer outro ambiente, podemos ficar tão viciados com tal local que os dias passam a ser mais do mesmo. Isso faz com que, muitas vezes, os defeitos sejam camuflados ou não merecem ser questionados. As pessoas não são tocadas para sair da situação precária, muitas vezes, de nenhuma maneira.

Com essa equipe eu não sei se acontece isso, ou com que frequência acontece. Porém, acredito que essa tenha sido a primeira reunião de equipe após a festa junina deste ano. Eles reuniram em um DVD as fotos. A fala sobre a institucionalização veio pelo fato das fotos terem sido, cuidadosamente, olhadas. Por meio delas foi possível ver o quão intrigante é trabalhar em um local como o que se encontra o CIAPS Adauto Botelho. Quão intrigante é este local tratar de pessoas que necessitam, verdadeiramente, desse serviço. Óbvio que eles não estavam calados, a lógica institucional ali operada faz com que seja uma máquina em movimento, ao que me pareceu. E isso me deixou muito feliz. Porém, eles dependem de órgãos públicos que tampam o sol com a peneira.

A Luta Antimanicomial está aí, há anos, e situações assim ainda existirem é triste. Li Machado de Assis, como seu “O Alienista”. Li também “Holocausto Brasileiro – Vida, genocídio e 60 mil mortos”, belamente escrito pela jornalista Daniela Arbex. E só consigo pensar que a tendência de higienização e o total descaso, que essas obras apresentam muito bem, ainda têm pernas torneadas e bem treinadas para andar. Quando elas serão amputadas?

Aprendi durante a graduação que muitas vezes a mudança não vem de giros de 180º, assim, de uma só vez. Então, podemos continuar amputando essas pernas, aos poucos, mais com uma frequência e efetividade maior, não? A Luta Antimanicomial dá seus passos há anos, para conseguir pequenos e reconhecidos resultados. A minha expectativa nos próximos dois meses é dar pequenos passos junto a esse movimento para que mudanças mais efetivas aconteçam.

Que no próximo encontro eu receba mais abraços de pessoas que nunca vi na vida e que são carentes de alguma maneira. Acredito que o abraço me acolheu e me mobilizou de alguma forma. Acredito que foi o gole que eu precisava para me dar força e me mover em busca de alguma mudança, em busca de olhos verdadeiros e dignos que ajudem aquele espaço, aquelas pessoas, aqueles profissionais. Foi o gole para buscar vozes que berrem e incomodem. O gole para que o silêncio e a escuridão maquiada tenha seu fim.


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

  

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