Que a semana acabe

Quando as coisas começam a acumular a dificuldade que eu tenho de sair da cama é ainda maior. Eu acho que ficar ali, aproveitando aqueles momentos de paz é sagrado. Eu tento buscar o silêncio, mas os meus pensamentos gritam e me inquietam. Não dá mais para fugir, é preciso levantar.

Cresci com o discurso de que devo priorizar, sempre, os meus estudos. Aqueles que o disseram queriam e ainda querem o meu bem. Aquela coisa que crescer na vida significa estudar muito, passar em um Concurso Público e ter estabilidade financeira. Os efeitos disso eu sinto, só não sei nomeá-los muito bem. E aquilo que é para ser de todo o bem, acaba tendo seus efeitos ruins. Afinal, o que nessa vida não é feita do (des)equilíbrio entre remédio e veneno, não é?

É segunda-feira e eu não consigo me focar. É segunda-feira e me parece que essa semana não acabará. É a semana-pesadelo do semestre. É mil coisas para serem lidas em pouco tempo. É a exposição na frente da sala de aula cansada com o fim do semestre que terá que ocorrer. É o contínuo movimento das coisas que não é possível parar. Elas devem acontecer.

Falta organização? Tempo? Acredito que está para além disso. Falta encontrar prazer em todas essas coisas. Falta encontrar brilhos nos olhos. Falta… Falta a vida mesma nessas coisas que nos exigem de tal maneira, que parece não ter fim. Acho que é por isso um dos motivos que o saudosismo da infância venha. As obrigações mínimas. As brigas por doce. Quando imersos na vida adulta é difícil encontrar um doce preferido, uma brincadeira de gente grande diária.

Tenho medo do mundo que eu abraço transbordar. Tenho aflição de não dar conta de uma vírgula que tenho que fazer. Tenho medo de encarar essa semana-caos. E daí é fácil burlar. Você escreve um tweet aqui, compartilha um evento ali, olha um blog acolá. Nisso de desfocar a atenção para o que deve ser feito, vem uma dose de inspiração para a semana:

Porque – disse ela – quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem. — Coraline, Neil Gaiman.

Se alguma coisa escapar, cair, sair do rumo eu vou ter que dizer algo que me liberte: foda-se. Mas, só vou poder dizer isso se eu tentar, se eu encarar o medo. Pois, não posso acreditar que tudo e todos que me rodeiam tem o mesmo conforto da minha cama pela manhã.

Enfim, que a semana tenha fim e que alguma coisa faça os meus olhos brilharem.

Diário de Estágio – Dia 4 | 12.7.2014

 Acredito que precisou quatro dias de estágio para eu começar a entender o real objetivo dele. Não estou no meu campo de estágio como uma psicóloga clínica. Estou lá para observar a instituição como um todo. Sendo assim, hoje eu prefiro falar sobre o CIAPS.

Um pouco de história sempre vai bem

Sempre que há uma demanda de saúde, há necessidade de ações para atender tal demanda (vamos acreditar que isso ocorre de maneira 100% eficiente). Sendo assim,  em 1816 (sim, o Brasil ainda era colônia de Portugal) foi fundada a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, como uma das medidas da preocupação que ocorria no século XIX, não só em Cuiabá, como em outros locais do Brasil. E sim, a Santa Casa foi a primeira instituição médica de Mato Grosso.

É claro que ela seria a primeira residência para os alienados, usuários de drogas, leprosos entre outros que perambulavam as ruas da capital, ou as residências de quem não os desejavam.  Enquanto em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já executavam projetos que visavam a modernidade nacional, somente em 1908 foi inaugurada a Enfermaria de Alienados na Santa Casa de Misericórdia  em Cuiabá.  Ali, eles seriam tratados, mas poderiam fugir. Por isso, já naquele ano era necessária uma enfermaria prisão para evitar que eles fugissem.

Lá na década de 30 foi criado o Ministério de Educação e Saúde (Quem diria! Educação e Saúde já estiveram juntas em algum momento da história desse país!) que investiram em campanhas sanitaristas. Nessa mesma década, a Enfermaria de Alienados era insuficiente para atender a demanda dos loucos e alienados que a cidade tinha. Então, ali às margens do rio Coxipó da Ponte, uma chácara começou a ser utilizada para abrigo e reclusão de tal demanda. Tal chácara ficou conhecida como a “Chácara dos loucos”.

Foi neste mesmo local, que em 1957 foi inaugurado o Hospital Adauto Botelho. No ano de 1975, o Relatório da Secretaria do Estado da Saúde de Mato Grosso disse que o Serviço de Saúde Mental no Estado teve início em 7 de outubro desse mesmo ano.

Muitas ações foram realizadas durante vários anos em relação à saúde mental, que visavam à melhoria dos serviços públicos prestavam. Em meio a todos esses acontecimentos, o estado e a capital cresceram, os fluxos migratórios aumentaram e a necessidade de modernização não era mais indício e sim berros. Infelizmente, não é de hoje que os serviços de saúde se encontram em uma posição marginalizada aos olhos públicos. Com as exigências para essa tal de modernização, o Hospital Adauto Botelho atendia as demandas de Cuiabá e do Estado como um todo. Sua estrutura antiga e sucateada (não pensem que isso acabou, por favor!) não dava conta de sua responsabilidade com os serviços de saúde, já que era o único responsável pela assistência psiquiátrica. Sendo assim, em 16 de março de 1991 o Hospital foi fechado para reforma. Vale ressaltar que em 19 de setembro de 1990 a Lei 8.080 regularizou o funcionamento do Sistema Único de Saúde.

Continuando, a galera da politicagem utilizou os internos e as condições precárias na qual se encontravam “como instrumento no confronto político com o governo anterior” (OLIVEIRA, 2003, p. 97). A demanda de saúde mental que antes era atendida no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, passa a ser atendido por um único hospital privado. Foram dois anos e meio que o Adauto ficou fechado e nesse tempo “alternativas” públicas foram “ajeitadas”, mas não funcionaram muito bem. Passando por alguns detalhes, como o grande “investimento” que o Instituto de Neuropsiquiatria recebeu, podemos falar da reabertura do Adauto Botelho.

A reinauguração ocorreu em 1993, agora sobre a denominação de Centro Integrado de Atendimento Psicossocial (CIAPS) Adauto Botelho. Ele retornou a cena desvalorizado, já que as vagas que dispunha era menor em relação ao hospital privado, “acolhendo” a maioria das demandas. Alice Oliveira (2003, p. 99) chama atenção para

“o fato de que, nesse período, quando o município já se estruturava no processo de municipalização da saúde, inclusive já tendo sido aprovada em 1990 a Lei Orgânica da Saúde de Cuiabá (Cuiabá, 1999a), que tinha como um de seus princípios a coordenação única, o CIAPS Adauto Botelho foi reinaugurado mantendo a sua vinculação à SES, assim permanecendo até hoje”.

Teve o movimento de Reforma Psiquiátrica sim! E teve a promulgação da Lei 10.216 também! O CIAPS hoje tem compromisso com a Reforma Psiquiátrica e com a Luta Antimanicomial no Brasil, respaldados nas premissas da lei mencionada, nas Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e na Organização Pan-americana de Saúde (OPAS).

O CIAPS é um complexo de 6 unidades de saúde mental. E sobre elas falamos no próximo post! 

Se você chegou até aqui, obrigada. Tenho a sensação que isso está enorme! Mas, presta atenção no próximo tópico.

 Algumas considerações

Nos primeiros posts da série “Diário de Estágio” eu disse que gostaria de contribuir de alguma maneira com a Instituição. Essa é a minha maneira: fazer com que a informação sobre o meu campo de estágio chegue as mais variadas pessoas (sim, eu acredito que isso aqui tenha bastante visualização). Por isso o post hoje é mais teórico.

Sério, não faz sentido eu ir lá e ficar admirando o local e as surpresas que as minhas idas até lá me provocam. Preciso saber qual é esse território, suas histórias e lutas. O descaso, as necessidades e as delícias que há lá.

Olha, por favor, não achem que eu contei muita coisa aqui não. Isso é a redução da redução sobre o histórico do CIAPS. Por isso, vou sugerir algumas leituras para aqueles que têm o mínimo de curiosidade sobre o assunto aqui tratado.

 Se informe, vai! 

Está bom, né? Clica nos links aqui em cima e no decorrer do texto para abrir os arquivos/sites.

Bjs,
Van 🙂


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dia 3 | 7.7.2014

Julho e Agosto são meses secos aqui nesse espaço do Brasil. Os lábios ficam “ratchado” e a garganta seca. Fora as temperaturas mais baixas, em relação à sensação térmica diária de 40º.

Terceiro dia de estágio. Aquela preguicinha marota para sair da cama, principalmente com o cheiro delicioso de chuva (um dos meus cheiros preferidos, juro!). Levantei no susto, com medo de me atrasar. Entendam: não tenho um relacionamento sério com algum cara maravilhoso para chamar de namorado. Mas, tenho um relacionamento sério com a minha cama e se fosse possível a dedicação seria integral.

No espaço de dois dias eu tive que retornar ao local. As nossas idas até lá funcionam pela forma de escala, já que são quatro pessoas e precisamos ir em duplas. Além disso, precisamos cumprir 30h de estágio. Então, a coisa tem que ser organizada.

Ao chegar lá, eu e a minha colega de estágio ficamos na sala de Arte Terapia, pois naquele momento a sala da equipe estava sendo limpa. Olhamos um documento importante que os funcionários da Unidade I fizeram. Não sei bem qual do caráter do documento. Porém, havia 19 reivindicações de melhorias na estrutura física e na distribuição de medicamentos e equipamentos para a instituição. Ele foi enviado para os conselhos das profissões que compõe a equipe multidisciplinar, além do Ministério Público.

Questionei à minha supervisora se teria algum prazo para o Ministério responder, falar que sim, iria ajudar. Ou que não, que não se importava com aquelas questões. Bom, eles não têm um prazo. É necessário esperar.

Foi interessante notar que muitas vezes, nós na nossa zona de conforto, acusamos os servidores públicos como preguiçosos. Que fazer ou não o seu serviço corretamente não importa, já que o seu dinheiro estará na conta de qualquer forma. Felizmente generalizações caem por terra quando ações dessa forma podem ser acompanhadas. Há claro, quem não se importa. Mas os que se importam estão ali, batendo na mesma tecla, incomodando e não aceitando o pão e o circo tão comum até hoje.

Essa instituição faz parte da rede SUS que nós, pacatos cidadãos, sabemos quão precária está. Sendo assim, seus funcionários muitas vezes tem que tirar leite de pedra. E olha, isso faz sim uma sútil diferença não só para eles, como também para os internos.

Eles não têm, por exemplo, carros disponíveis para auxiliar no transporte dos funcionários para as demais instituições necessárias. Não há transporte para os internos, seja para eles serem levados para o seu lar, seja para eles serem levados para algum lugar em que eles se sintam o que eles realmente são: humanos.

A localização do CIAPS é próximo ao Parque Zé Bolo Flor, onde os internos são levados para realizar caminhada. Não é preciso de um grande investimento público, mas sim do cuidado e boa vontade dos funcionários que ajudam nessa sensação de liberdade, mesmo que por alguns minutos.

Foi interessante acompanhar as internas na caminhada. Foram poucas, afinal é preciso atenção, cuidado. Não dá para levar todas e não são todas que querem ir. Tinha uma que estava super agitada nesse dia, então ela foi na frente, na companhia da minha supervisora de estágio. Outras acompanhavam elas duas, interagindo com o ambiente, com os carros e pessoas que passavam. Teve uma que ficou o tempo inteiro caminhando de braços dados comigo. E mais atrás, minha colega e outra interna.

Parece-me que as pessoas já estão familiarizadas com os passeios. Sorriem. Acenam. Há bom dia e sorriso. E sim, são respondidos da mesma maneira. Tem alguns pássaros e macaquinhos que roubam completamente a atenção delas. Algumas precisam tocar as árvores ou as flores. Precisam desse sentir. Outras reclamam que estão cansadas, mas não desistem. Pedem para sentar um pouco e está tudo ok. Questionam porque não podem ser levadas ao Zoológico. Expliquei sobre a falta de transporte, mas não sei se fui bem compreendida. Talvez essa seja uma resposta com a qual elas já estão acostumadas.

Retornam ao pátio, bebem água, descansam e tornam a conversar com seus colegas, sejam eles internos ou funcionários. Sentei-me embaixo de uma das poucas árvores do pátio. Aproximou-se um senhor e ficamos conversando. Cheguei a conclusão que medicamentos mesmo que necessários tornam, muitas vezes, a pessoa sem brilho. Particularmente, acho que esse mal é necessário, porém triste. Conclui também que preciso de uma inserção terapêutica, tenho os meus conteúdos, acrescidos dos meus futuros pacientes pode ser muita coisa. Não consigo esfoliar tudo. O movimento de ruminar precisa começar.

Concluí, principalmente, que a instituição precisa de atenção. Que não só ali, mas como toda a rede de saúde pública precisa melhorar. Imagino as pessoas que não tem a menor condição de serem levadas até lá ou a qualquer outro posto de atendimento. Imagino quantos funcionários mal formados estão prestando serviço de maneira precária. Imagino quantas famílias estão ali, na periferia de si mesmo, sem saber que rumo tomar. Imagino os abandonos e os maus tratos. Sim, só consigo imaginar coisas ruins.

Ok! Eu imagino que em algum momento as solicitações sejam descentemente atendidas. Que as coisas funcionem de uma maneira bem melhor. Que os profissionais não desistam, que se informem, estude, melhorem sempre. Eu imagino um mundo bonito e imagino que isso é possível, sim.

Será que funciona distribuir cotonetes e óculos? Quem sabe assim há mais ouvidos e olhares. Ah! É preciso estímulos, pois ouvir e olhar não significam comportamentos efetivos. Que a imaginação vire ação. E que não demore uns cem anos. Que a nação seja nação sempre, e não só a cada quatro anos quando há Copa do Mundo. Sim, que haja esporte, educação, saúde e que as diferenças tenham redução.

Que a vida seja mais repleta de vida, de votos conscientes e não de derrotas, vergonha, insatisfação e descaso.

Ah, uma questão: como a imaginação pode virar ação? Mesmo que mínimas.


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dia 2 | 5.7.2014

Sábado é o dia que mais amo.

Motivo: acordo ao meio-dia. Torná-lo meu day-off. Faço apenas aquilo que eu quero: ler um livro, assistir filmes ou seriados, ficar na cama enrolando e morrendo de preguiça gostosa. Enfim, faço qualquer coisa que não esteja ligada à minha rotina.

A rotina me incomoda um pouco. E nem tinha percebido quão rotineiro estavam meus sábados. Esse dia da semana já foi destinado ao trabalho voluntário e ao inglês. Para reuniões de última hora com o grupo de pesquisa também. É o dia escolhido para sair com os meus amigos ou ir para a chácara da minha tia. Em nenhum momento pensei que esse seria um dia em que eu me dedicaria à algum estágio do meu curso.

Sendo assim, 6h30 acordei. Acredito que só despertei às 8h. Foi quando descobri que o segundo ônibus que eu deveria pegar para chegar até o local de estágio tinha fluxo reduzido. Ou seja, eu ficaria algumas horas no ponto de ônibus e chegaria atrasada.  Questionei ao motorista de um ônibus aleatório:

     – O ônibus 604 passa hoje?

     Ele respondeu:

     – Não sei informar.

Ok. Era o que eu precisava! (só que não). Se você também tem ansiedade pode imaginar como eu estava. Acredito que a preocupação em chegar atrasada chamou atenção de uma jovem que desceu do ônibus aleatório. Gentilmente perguntou para onde eu queria ir e a partir da minha resposta me falou que poderia pegar qualquer ônibus que passasse por ali, só teria que andar um pouco até o CIAPS. Além disso, pediu para o motorista que me falasse onde era o ponto no qual deveria descer. Nesse segundo dia de estágio aprendi que a gentileza é simples de ser praticada. E não sei se “os bons são a maioria“, de fato. É muita gente no mundo para ter essa noção. Mas sim, ela existe e além de receber, acho que posso passar a fornecer mais gentileza para conhecidos ou não. Primeiro aprendizado do dia.

Só para constar, cheguei apenas 5 minutos atrasada!

Enfim, quais as atividades são realizadas pela ala feminina nesse dia?

Bom, todos os dias pela manhã, elas realizam a higiene pessoal e tomam a medicação recomendada. Ah, claro, tomam o café da manhã. Após isso, passam a manhã no pátio, ouvindo música, conversando com os funcionários.

O horário do pátio não é exclusivo para a ala feminina. Na Unidade I funcionam tanto a Ala Feminina quanto a Masculina. Então, os internos de ambas as alas se encontram lá. E sim, agora eles me encontrarão por lá também, durante alguns dias da semana.

Confesso que ainda fico um pouco assustada. Quando converso com eles me dá a sensação que eu os infantilizo. Mas eles? Bom, eles me surpreendem. Chamam-me pelo nome, enquanto não consigo lembrar o nome da maioria que conversou comigo hoje. Acho isso tão chato. Mas acho que com o tempo conseguirei. Distribuem abraços gratuitos. Olham nos seus olhos. Prestam atenção no que você fala. E por alguns instantes penso quão imersa estou naquilo que é ordinário, já que vez ou outra pensei que eles não fossem capaz de tais relações.

Quero ficar longe dos diagnósticos deles, por alguns instantes. Isso não significa que eles sejam inexistentes. É óbvio que não. Porém, devo considerar que internação não é sinônimo de incapacidade. Eles podem sim, dona Vanessa, observar. Eles têm sensibilidade, conseguem manter contato visual, tranquilamente. Óbvio que isso tem algumas restrições, eles possuem algum tipo de diagnóstico. Porém, tem beleza nisso, a meu ver. Pelo simples fato de eles serem quem são, mesmo que a noção de tempo esteja perdida. Mesmo que não lembrem sua origem. Mesmo que familiares os recusem de volta em seus lares. Eles têm uma vida e por mais cruel que ela possa ser, sério, acredito ter beleza aí! Acredito poder aprender, sempre, com eles. Eis aqui a segunda aprendizagem do dia.

Não sei o que pode vir na próxima palavra, no próximo movimento. Mas posso retirar a armadura que eu carrego fielmente comigo. Penso que ela seja blindada (vocês perceberão com os diários quão ingênua eu posso ser). Mas não, ela não é blindada, pode e deve ser despida. Sendo assim, visto novas roupas que possibilitem o inusitado. Estarei prepara para todas as coisas que eu ver lá? Não! Mas, eu preciso ver e viver dessas coisas para as quais não sou preparada. Se a minha vida estagnasse eu simplesmente preferiria não vivê-la!

Enquanto estou aprendendo a ser uma profissional o melhor que eu posso fazer é despir a minha proteção e começar a treinar o ouvir, o olhar, o sentir. Hoje conheci alguém que poderia ter sido economista, caso não fosse internado no mesmo ano em que ingressaria na faculdade. Virei filha, que se não tivesse bom comportamento ou falasse alguma besteira, o pai viria buscar. Sobre a minha idade?  Falaram que eu era novinha ainda. Pediram presente, falaram que me enviaram carta. Qual o próximo dia em que você virá? Questionou uma das internas. Sim, fui informada que sou filha adotada. E meus pais biológicos? Bom, talvez estivessem por lá.

Cedi meu braço para ser apoio de uma delas e guiar até a sala de arte terapia! Ajudei na confecção de anel e de pulseira. Percebi que para algumas coisas não tenho a menor habilidade. Mas, foi um dos primeiros momentos em que percebi não precisar de um consultório para fazer atendimento.

Começou na sala de arte terapia a terceira aprendizagem do dia: sobre a atuação profissional. Sabe aquilo de horário marcado? Divã? Psicólogo que só balança a cabeça e pouco fala? Isso não resume a Psicologia. É só ler um pouco mais para saber que esse ideário  é reducionista. Reduzido a que? Ao modelo psicanalítico (que sim, eu tenho um flerte e sei, aos poucos, as suas limitações). Você sabia que um psicólogo pode intervir no pátio da instituição? Ou, quando os internos são levados para caminhar, ali também pode ocorrer escuta? Dependendo da estrutura clínica (sim, conceito psicanalítico! sem preconceitos, vai!) é possível que a intervenção seja  realizada nesse setting. E eu, tola, achava que tudo se resumia a quatro paredes (isso, nos primeiros semestres da graduação). Foi libertador saber disso. Mais libertador ainda observar as possibilidades disso acontecer.

Os estágios até aqui foram isso: onde o profissional de psicologia pode atuar? Descobrir a dor e a delícia de alguns desses campos é uma das melhores coisas que a  graduação pode proporcionar, acreditem. Acho uma pena não ter registrado dessa maneira os demais. Talvez, fosse preciso que eu acreditasse, de fato, que poderia aprender bem mais do que o comum com esses estágios e a maturidade só veio agora para isso.

Não sei como meus pais lidavam com os outros estágios. Acho que nunca falei muito sobre eles. Porém, hoje é o segundo dia que eles me perguntam como foi. Acredito que há  certa preocupação sobre o local. Ele é “lugar de doido”, que estão “presos” e isso pode ser “perigoso”.  E sei que não são só eles que tem essa visão. Nos próximos dias vocês saberão mais sobre o CIAPS e a rede CAPS, prometo posts sobre isso.

Com essa vontade, continuo.

E você? Vai despir da sua armadura quando?


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.