Diário de Estágio – Dia 2 | 5.7.2014

Sábado é o dia que mais amo.

Motivo: acordo ao meio-dia. Torná-lo meu day-off. Faço apenas aquilo que eu quero: ler um livro, assistir filmes ou seriados, ficar na cama enrolando e morrendo de preguiça gostosa. Enfim, faço qualquer coisa que não esteja ligada à minha rotina.

A rotina me incomoda um pouco. E nem tinha percebido quão rotineiro estavam meus sábados. Esse dia da semana já foi destinado ao trabalho voluntário e ao inglês. Para reuniões de última hora com o grupo de pesquisa também. É o dia escolhido para sair com os meus amigos ou ir para a chácara da minha tia. Em nenhum momento pensei que esse seria um dia em que eu me dedicaria à algum estágio do meu curso.

Sendo assim, 6h30 acordei. Acredito que só despertei às 8h. Foi quando descobri que o segundo ônibus que eu deveria pegar para chegar até o local de estágio tinha fluxo reduzido. Ou seja, eu ficaria algumas horas no ponto de ônibus e chegaria atrasada.  Questionei ao motorista de um ônibus aleatório:

     – O ônibus 604 passa hoje?

     Ele respondeu:

     – Não sei informar.

Ok. Era o que eu precisava! (só que não). Se você também tem ansiedade pode imaginar como eu estava. Acredito que a preocupação em chegar atrasada chamou atenção de uma jovem que desceu do ônibus aleatório. Gentilmente perguntou para onde eu queria ir e a partir da minha resposta me falou que poderia pegar qualquer ônibus que passasse por ali, só teria que andar um pouco até o CIAPS. Além disso, pediu para o motorista que me falasse onde era o ponto no qual deveria descer. Nesse segundo dia de estágio aprendi que a gentileza é simples de ser praticada. E não sei se “os bons são a maioria“, de fato. É muita gente no mundo para ter essa noção. Mas sim, ela existe e além de receber, acho que posso passar a fornecer mais gentileza para conhecidos ou não. Primeiro aprendizado do dia.

Só para constar, cheguei apenas 5 minutos atrasada!

Enfim, quais as atividades são realizadas pela ala feminina nesse dia?

Bom, todos os dias pela manhã, elas realizam a higiene pessoal e tomam a medicação recomendada. Ah, claro, tomam o café da manhã. Após isso, passam a manhã no pátio, ouvindo música, conversando com os funcionários.

O horário do pátio não é exclusivo para a ala feminina. Na Unidade I funcionam tanto a Ala Feminina quanto a Masculina. Então, os internos de ambas as alas se encontram lá. E sim, agora eles me encontrarão por lá também, durante alguns dias da semana.

Confesso que ainda fico um pouco assustada. Quando converso com eles me dá a sensação que eu os infantilizo. Mas eles? Bom, eles me surpreendem. Chamam-me pelo nome, enquanto não consigo lembrar o nome da maioria que conversou comigo hoje. Acho isso tão chato. Mas acho que com o tempo conseguirei. Distribuem abraços gratuitos. Olham nos seus olhos. Prestam atenção no que você fala. E por alguns instantes penso quão imersa estou naquilo que é ordinário, já que vez ou outra pensei que eles não fossem capaz de tais relações.

Quero ficar longe dos diagnósticos deles, por alguns instantes. Isso não significa que eles sejam inexistentes. É óbvio que não. Porém, devo considerar que internação não é sinônimo de incapacidade. Eles podem sim, dona Vanessa, observar. Eles têm sensibilidade, conseguem manter contato visual, tranquilamente. Óbvio que isso tem algumas restrições, eles possuem algum tipo de diagnóstico. Porém, tem beleza nisso, a meu ver. Pelo simples fato de eles serem quem são, mesmo que a noção de tempo esteja perdida. Mesmo que não lembrem sua origem. Mesmo que familiares os recusem de volta em seus lares. Eles têm uma vida e por mais cruel que ela possa ser, sério, acredito ter beleza aí! Acredito poder aprender, sempre, com eles. Eis aqui a segunda aprendizagem do dia.

Não sei o que pode vir na próxima palavra, no próximo movimento. Mas posso retirar a armadura que eu carrego fielmente comigo. Penso que ela seja blindada (vocês perceberão com os diários quão ingênua eu posso ser). Mas não, ela não é blindada, pode e deve ser despida. Sendo assim, visto novas roupas que possibilitem o inusitado. Estarei prepara para todas as coisas que eu ver lá? Não! Mas, eu preciso ver e viver dessas coisas para as quais não sou preparada. Se a minha vida estagnasse eu simplesmente preferiria não vivê-la!

Enquanto estou aprendendo a ser uma profissional o melhor que eu posso fazer é despir a minha proteção e começar a treinar o ouvir, o olhar, o sentir. Hoje conheci alguém que poderia ter sido economista, caso não fosse internado no mesmo ano em que ingressaria na faculdade. Virei filha, que se não tivesse bom comportamento ou falasse alguma besteira, o pai viria buscar. Sobre a minha idade?  Falaram que eu era novinha ainda. Pediram presente, falaram que me enviaram carta. Qual o próximo dia em que você virá? Questionou uma das internas. Sim, fui informada que sou filha adotada. E meus pais biológicos? Bom, talvez estivessem por lá.

Cedi meu braço para ser apoio de uma delas e guiar até a sala de arte terapia! Ajudei na confecção de anel e de pulseira. Percebi que para algumas coisas não tenho a menor habilidade. Mas, foi um dos primeiros momentos em que percebi não precisar de um consultório para fazer atendimento.

Começou na sala de arte terapia a terceira aprendizagem do dia: sobre a atuação profissional. Sabe aquilo de horário marcado? Divã? Psicólogo que só balança a cabeça e pouco fala? Isso não resume a Psicologia. É só ler um pouco mais para saber que esse ideário  é reducionista. Reduzido a que? Ao modelo psicanalítico (que sim, eu tenho um flerte e sei, aos poucos, as suas limitações). Você sabia que um psicólogo pode intervir no pátio da instituição? Ou, quando os internos são levados para caminhar, ali também pode ocorrer escuta? Dependendo da estrutura clínica (sim, conceito psicanalítico! sem preconceitos, vai!) é possível que a intervenção seja  realizada nesse setting. E eu, tola, achava que tudo se resumia a quatro paredes (isso, nos primeiros semestres da graduação). Foi libertador saber disso. Mais libertador ainda observar as possibilidades disso acontecer.

Os estágios até aqui foram isso: onde o profissional de psicologia pode atuar? Descobrir a dor e a delícia de alguns desses campos é uma das melhores coisas que a  graduação pode proporcionar, acreditem. Acho uma pena não ter registrado dessa maneira os demais. Talvez, fosse preciso que eu acreditasse, de fato, que poderia aprender bem mais do que o comum com esses estágios e a maturidade só veio agora para isso.

Não sei como meus pais lidavam com os outros estágios. Acho que nunca falei muito sobre eles. Porém, hoje é o segundo dia que eles me perguntam como foi. Acredito que há  certa preocupação sobre o local. Ele é “lugar de doido”, que estão “presos” e isso pode ser “perigoso”.  E sei que não são só eles que tem essa visão. Nos próximos dias vocês saberão mais sobre o CIAPS e a rede CAPS, prometo posts sobre isso.

Com essa vontade, continuo.

E você? Vai despir da sua armadura quando?


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

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