Diário de Estágio – Dia 3 | 7.7.2014

Julho e Agosto são meses secos aqui nesse espaço do Brasil. Os lábios ficam “ratchado” e a garganta seca. Fora as temperaturas mais baixas, em relação à sensação térmica diária de 40º.

Terceiro dia de estágio. Aquela preguicinha marota para sair da cama, principalmente com o cheiro delicioso de chuva (um dos meus cheiros preferidos, juro!). Levantei no susto, com medo de me atrasar. Entendam: não tenho um relacionamento sério com algum cara maravilhoso para chamar de namorado. Mas, tenho um relacionamento sério com a minha cama e se fosse possível a dedicação seria integral.

No espaço de dois dias eu tive que retornar ao local. As nossas idas até lá funcionam pela forma de escala, já que são quatro pessoas e precisamos ir em duplas. Além disso, precisamos cumprir 30h de estágio. Então, a coisa tem que ser organizada.

Ao chegar lá, eu e a minha colega de estágio ficamos na sala de Arte Terapia, pois naquele momento a sala da equipe estava sendo limpa. Olhamos um documento importante que os funcionários da Unidade I fizeram. Não sei bem qual do caráter do documento. Porém, havia 19 reivindicações de melhorias na estrutura física e na distribuição de medicamentos e equipamentos para a instituição. Ele foi enviado para os conselhos das profissões que compõe a equipe multidisciplinar, além do Ministério Público.

Questionei à minha supervisora se teria algum prazo para o Ministério responder, falar que sim, iria ajudar. Ou que não, que não se importava com aquelas questões. Bom, eles não têm um prazo. É necessário esperar.

Foi interessante notar que muitas vezes, nós na nossa zona de conforto, acusamos os servidores públicos como preguiçosos. Que fazer ou não o seu serviço corretamente não importa, já que o seu dinheiro estará na conta de qualquer forma. Felizmente generalizações caem por terra quando ações dessa forma podem ser acompanhadas. Há claro, quem não se importa. Mas os que se importam estão ali, batendo na mesma tecla, incomodando e não aceitando o pão e o circo tão comum até hoje.

Essa instituição faz parte da rede SUS que nós, pacatos cidadãos, sabemos quão precária está. Sendo assim, seus funcionários muitas vezes tem que tirar leite de pedra. E olha, isso faz sim uma sútil diferença não só para eles, como também para os internos.

Eles não têm, por exemplo, carros disponíveis para auxiliar no transporte dos funcionários para as demais instituições necessárias. Não há transporte para os internos, seja para eles serem levados para o seu lar, seja para eles serem levados para algum lugar em que eles se sintam o que eles realmente são: humanos.

A localização do CIAPS é próximo ao Parque Zé Bolo Flor, onde os internos são levados para realizar caminhada. Não é preciso de um grande investimento público, mas sim do cuidado e boa vontade dos funcionários que ajudam nessa sensação de liberdade, mesmo que por alguns minutos.

Foi interessante acompanhar as internas na caminhada. Foram poucas, afinal é preciso atenção, cuidado. Não dá para levar todas e não são todas que querem ir. Tinha uma que estava super agitada nesse dia, então ela foi na frente, na companhia da minha supervisora de estágio. Outras acompanhavam elas duas, interagindo com o ambiente, com os carros e pessoas que passavam. Teve uma que ficou o tempo inteiro caminhando de braços dados comigo. E mais atrás, minha colega e outra interna.

Parece-me que as pessoas já estão familiarizadas com os passeios. Sorriem. Acenam. Há bom dia e sorriso. E sim, são respondidos da mesma maneira. Tem alguns pássaros e macaquinhos que roubam completamente a atenção delas. Algumas precisam tocar as árvores ou as flores. Precisam desse sentir. Outras reclamam que estão cansadas, mas não desistem. Pedem para sentar um pouco e está tudo ok. Questionam porque não podem ser levadas ao Zoológico. Expliquei sobre a falta de transporte, mas não sei se fui bem compreendida. Talvez essa seja uma resposta com a qual elas já estão acostumadas.

Retornam ao pátio, bebem água, descansam e tornam a conversar com seus colegas, sejam eles internos ou funcionários. Sentei-me embaixo de uma das poucas árvores do pátio. Aproximou-se um senhor e ficamos conversando. Cheguei a conclusão que medicamentos mesmo que necessários tornam, muitas vezes, a pessoa sem brilho. Particularmente, acho que esse mal é necessário, porém triste. Conclui também que preciso de uma inserção terapêutica, tenho os meus conteúdos, acrescidos dos meus futuros pacientes pode ser muita coisa. Não consigo esfoliar tudo. O movimento de ruminar precisa começar.

Concluí, principalmente, que a instituição precisa de atenção. Que não só ali, mas como toda a rede de saúde pública precisa melhorar. Imagino as pessoas que não tem a menor condição de serem levadas até lá ou a qualquer outro posto de atendimento. Imagino quantos funcionários mal formados estão prestando serviço de maneira precária. Imagino quantas famílias estão ali, na periferia de si mesmo, sem saber que rumo tomar. Imagino os abandonos e os maus tratos. Sim, só consigo imaginar coisas ruins.

Ok! Eu imagino que em algum momento as solicitações sejam descentemente atendidas. Que as coisas funcionem de uma maneira bem melhor. Que os profissionais não desistam, que se informem, estude, melhorem sempre. Eu imagino um mundo bonito e imagino que isso é possível, sim.

Será que funciona distribuir cotonetes e óculos? Quem sabe assim há mais ouvidos e olhares. Ah! É preciso estímulos, pois ouvir e olhar não significam comportamentos efetivos. Que a imaginação vire ação. E que não demore uns cem anos. Que a nação seja nação sempre, e não só a cada quatro anos quando há Copa do Mundo. Sim, que haja esporte, educação, saúde e que as diferenças tenham redução.

Que a vida seja mais repleta de vida, de votos conscientes e não de derrotas, vergonha, insatisfação e descaso.

Ah, uma questão: como a imaginação pode virar ação? Mesmo que mínimas.


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s