Diário de Estágio – Dia 4 | 12.7.2014

 Acredito que precisou quatro dias de estágio para eu começar a entender o real objetivo dele. Não estou no meu campo de estágio como uma psicóloga clínica. Estou lá para observar a instituição como um todo. Sendo assim, hoje eu prefiro falar sobre o CIAPS.

Um pouco de história sempre vai bem

Sempre que há uma demanda de saúde, há necessidade de ações para atender tal demanda (vamos acreditar que isso ocorre de maneira 100% eficiente). Sendo assim,  em 1816 (sim, o Brasil ainda era colônia de Portugal) foi fundada a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, como uma das medidas da preocupação que ocorria no século XIX, não só em Cuiabá, como em outros locais do Brasil. E sim, a Santa Casa foi a primeira instituição médica de Mato Grosso.

É claro que ela seria a primeira residência para os alienados, usuários de drogas, leprosos entre outros que perambulavam as ruas da capital, ou as residências de quem não os desejavam.  Enquanto em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já executavam projetos que visavam a modernidade nacional, somente em 1908 foi inaugurada a Enfermaria de Alienados na Santa Casa de Misericórdia  em Cuiabá.  Ali, eles seriam tratados, mas poderiam fugir. Por isso, já naquele ano era necessária uma enfermaria prisão para evitar que eles fugissem.

Lá na década de 30 foi criado o Ministério de Educação e Saúde (Quem diria! Educação e Saúde já estiveram juntas em algum momento da história desse país!) que investiram em campanhas sanitaristas. Nessa mesma década, a Enfermaria de Alienados era insuficiente para atender a demanda dos loucos e alienados que a cidade tinha. Então, ali às margens do rio Coxipó da Ponte, uma chácara começou a ser utilizada para abrigo e reclusão de tal demanda. Tal chácara ficou conhecida como a “Chácara dos loucos”.

Foi neste mesmo local, que em 1957 foi inaugurado o Hospital Adauto Botelho. No ano de 1975, o Relatório da Secretaria do Estado da Saúde de Mato Grosso disse que o Serviço de Saúde Mental no Estado teve início em 7 de outubro desse mesmo ano.

Muitas ações foram realizadas durante vários anos em relação à saúde mental, que visavam à melhoria dos serviços públicos prestavam. Em meio a todos esses acontecimentos, o estado e a capital cresceram, os fluxos migratórios aumentaram e a necessidade de modernização não era mais indício e sim berros. Infelizmente, não é de hoje que os serviços de saúde se encontram em uma posição marginalizada aos olhos públicos. Com as exigências para essa tal de modernização, o Hospital Adauto Botelho atendia as demandas de Cuiabá e do Estado como um todo. Sua estrutura antiga e sucateada (não pensem que isso acabou, por favor!) não dava conta de sua responsabilidade com os serviços de saúde, já que era o único responsável pela assistência psiquiátrica. Sendo assim, em 16 de março de 1991 o Hospital foi fechado para reforma. Vale ressaltar que em 19 de setembro de 1990 a Lei 8.080 regularizou o funcionamento do Sistema Único de Saúde.

Continuando, a galera da politicagem utilizou os internos e as condições precárias na qual se encontravam “como instrumento no confronto político com o governo anterior” (OLIVEIRA, 2003, p. 97). A demanda de saúde mental que antes era atendida no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, passa a ser atendido por um único hospital privado. Foram dois anos e meio que o Adauto ficou fechado e nesse tempo “alternativas” públicas foram “ajeitadas”, mas não funcionaram muito bem. Passando por alguns detalhes, como o grande “investimento” que o Instituto de Neuropsiquiatria recebeu, podemos falar da reabertura do Adauto Botelho.

A reinauguração ocorreu em 1993, agora sobre a denominação de Centro Integrado de Atendimento Psicossocial (CIAPS) Adauto Botelho. Ele retornou a cena desvalorizado, já que as vagas que dispunha era menor em relação ao hospital privado, “acolhendo” a maioria das demandas. Alice Oliveira (2003, p. 99) chama atenção para

“o fato de que, nesse período, quando o município já se estruturava no processo de municipalização da saúde, inclusive já tendo sido aprovada em 1990 a Lei Orgânica da Saúde de Cuiabá (Cuiabá, 1999a), que tinha como um de seus princípios a coordenação única, o CIAPS Adauto Botelho foi reinaugurado mantendo a sua vinculação à SES, assim permanecendo até hoje”.

Teve o movimento de Reforma Psiquiátrica sim! E teve a promulgação da Lei 10.216 também! O CIAPS hoje tem compromisso com a Reforma Psiquiátrica e com a Luta Antimanicomial no Brasil, respaldados nas premissas da lei mencionada, nas Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e na Organização Pan-americana de Saúde (OPAS).

O CIAPS é um complexo de 6 unidades de saúde mental. E sobre elas falamos no próximo post! 

Se você chegou até aqui, obrigada. Tenho a sensação que isso está enorme! Mas, presta atenção no próximo tópico.

 Algumas considerações

Nos primeiros posts da série “Diário de Estágio” eu disse que gostaria de contribuir de alguma maneira com a Instituição. Essa é a minha maneira: fazer com que a informação sobre o meu campo de estágio chegue as mais variadas pessoas (sim, eu acredito que isso aqui tenha bastante visualização). Por isso o post hoje é mais teórico.

Sério, não faz sentido eu ir lá e ficar admirando o local e as surpresas que as minhas idas até lá me provocam. Preciso saber qual é esse território, suas histórias e lutas. O descaso, as necessidades e as delícias que há lá.

Olha, por favor, não achem que eu contei muita coisa aqui não. Isso é a redução da redução sobre o histórico do CIAPS. Por isso, vou sugerir algumas leituras para aqueles que têm o mínimo de curiosidade sobre o assunto aqui tratado.

 Se informe, vai! 

Está bom, né? Clica nos links aqui em cima e no decorrer do texto para abrir os arquivos/sites.

Bjs,
Van 🙂


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

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