Diário de Estágio – Dias finais | Parte 1

A proposta inicial era escrever sobre todos os 13 dias de estágio. Sobre os dias do sol e chuva. Sobre o dia em que a paciente surtou e como é sútil essa situação. Sobre os dias em que chamar os servidores de “tia” e/ou “tio” gera discussão e certo incômodo. Sobre o uniforme institucional que anula de certa forma a identidade de cada uma. Sobre a relação com as estagiárias de outra área do conhecimento e sobre os dias de luta, na rua, chamando o Sr. Secretário para uma prosa, tida somente alguns dias depois. Sobre as particularidades de uma das minhas melhores experiências e vivências em um espaço um tanto quanto cruel e doce. Enfim, percebam que não consegui. Mas, veja, não abandonei. A cada dia de escrita não realizada era uma dor, com a qual me acostumei. Sobrevivi ao semestre-cão e cá estou, com mais alguns post sobre isso. Algumas palavras sobre o que, infelizmente, não pode ser transcrito de maneira literal.

Lembro que no século passado, quando escrevi pela última vez sobre isso, relatei um pouco da história da instituição.  Reli esse texto e queria ressuscitá-lo, há erros por ali e uma escrita meio pobre, a meu ver. Enfim, deixei o texto morto mesmo resolvi falar sobre outro ponto interessante desse estágio: como se dá o trabalho em uma equipe multidisciplinar (apesar de achar que outras questões irão aparecer a partir disso)

A Universidade é meio estranha. Faz você pensar que não é possível uma relação minimamente horizontal entre um psicólogo e um médico, por exemplo. Mas,  é possível encontrar uma linguagem comum para ambos, sabia? Eu não! Quando cheguei no primeiro dia de estágio era reunião da equipe, várias áreas do conhecimento analisando e opinando sobre o paciente a partir de sua área. Algumas resistências, talvez, mas nada que deixasse o espaço mudo e o caso sem um direcionamento.

A política do SUS impõe, de certa forma, que o serviço funcione com essa horizontalidade profissional, já que só uma área do conhecimento não dá conta de um sujeito e em conjunto pode potencializar sua melhora, por exemplo. Não sei como isso ocorre nas outras Unidades do CIAPS (mentira, sei um pouco, mas não cabe nesse espaço falar), porém devido aos anos de convivência da equipe da Ala Feminina é possível perceber olhares que falam mais do que aquilo que se verbaliza. O cuidado com que tratam suas pacientes e a preocupação com elas foi absurdamente incrível de se observar.

Perdi nesses 13 dias o discurso ordinário de que servidor publico não gosta de trabalhar. Você já imaginou trabalhar em um local com esgoto passando em determinado caminho do espaço de trabalho? Em um local onde apenas uma linha de telefone funciona, sendo que para um bom atendimento é preciso de mais? Onde as pessoas que dependem do seu serviço ficam em um local que nem toalha para secar o seu corpo tem? Em um local onde materiais mínimos para realizar um curativo ou uma oficina terapêutica não existem? Aonde o medicamento chega somente no fantástico mundo das autoridades, enquanto no mundo real, aquele que te deixa cortes e te sangra, nada disso existe? Pois é, pode parar de imaginar e aceitar o fato de que não só nessa, mais em várias instituições públicas de saúde isso existe. E mesmo assim aqueles funcionários estão lá, sem desistir. Aprendi, meus caros, que há pessoas que só se preocupam se o seu salário estará depositado mensalmente em sua conta ou não. Aprendi, principalmente, que o dinheiro é uma consequência. Aprendi que há silêncio, mas que há pessoas que ainda gritam por direitos mínimos e que belos gritos  são esses, que arrepiam e sim, sem exagero, emocionam.

Uma equipe multidisciplinar não deve, em hipótese alguma, estar fechada em seus conhecimentos. É preciso nunca parar de estudar, não só sobre a sua área de conhecimento, mas sobre a vida mesma. É preciso saber do humano, da política, do corriqueiro. É preciso saber falar nas mais variadas instâncias. É preciso vestir a camisa de servidor público. É preciso ir para rua. É preciso lutar por melhores condições de trabalho que lhe são negadas.  E, enfim, é preciso tentar nunca perder para o cansaço que a institucionalização impõe.

Em meio a uma instituição como esta  você fica a mercê e pode ser atingido de várias formas, sejam elas emocionais e/ou físicas. É preciso ouvidos, corpo, mente para digerir esses conteúdos. A ruminação pode engasgar. Mas, acho que o que engasga mesmo é o descaso de anos onde o fim parece inatingível. Quantos tetos precisam cair para que penetrações efetivas ocorram? Sistema que não goza e nem propicia o gozo, daqueles acompanhado de prazer e não de desprazer, me parece mórbido. Na real, acho que é morbidez a palavra para as coisas que julgo errada depois desses 13 dias. Pelo menos até o momento me serve bem. Vai ver, faz algum sentido (ou não).


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

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