Vinte e seis

Vinte e seis

Hoje acordei atrasada. Poderia ter passado o dia dormindo, mas depois de ter faltado mais aula do que o normal, decidi que iria… mesmo sem texto lido, mesmo em dias depressivos, mesmo que a cama me abraçasse de maneira tão gostosa onde só ficar ali, quieta e quentinha, bastaria.

Poderia ter ido no Restaurante Universitário e almoçado, mas preferi voltar para casa, comprar um kebab cujo sabor sempre lembrará Porto Alegre. Almoçar sozinha, no apartamento completamente bagunçado. Penso que a bagunça é externa e interna. Às vezes queremos respostas, mas tudo que se têm são mais perguntas, mais bagunça e você vai aprendendo a lidar com ela, até o momento que você arruma as coisas, deixa tudo cheiroso, mesmo que uma coisa ou outra não fique realmente no seu lugar.

Por falar em lugar, três meses se passaram. De um lugar fui para outro, com duas malas e uma mochila. Com o coração cheio de memórias e já saudoso. Por um tempo me questionei “o que estou fazendo da minha vida?”. E a resposta é simples: vivendo-a.

Conhecer novos lugares e sabores é maravilhoso. Sentir outros climas, ouvir outras formas de pensar, ver outras formas de existir. Perceber. Tudo isso é tão único e maravilhoso. Sentir coisas nunca sentidas antes, lidar com o inominável e o inevitável. Ser. Permitir. Encontrar desconhecidos, ouvir e entender outra língua, viver em outro território e conseguir ficar perdida sem receio. Criar novas formas de laço, de traço e ganhar novas marcas. Abandonar. O velho eu, a velha mala, as roupas, os preconceitos e esquecer algumas marcas. Feridas? Estão mais tratadas, limpas e algumas cicatrizadas.

Questionar, sempre, a todo momento. O que acontece? Como acontece? Por que ainda dói? Por que a saudade? Do que se tem, de fato, saudade? Quais são os próximos passos? É preciso mesmo tanta ansiedade de vida? Não seria mais fácil admitir a falta do que ignorar? Pode andar por aí sozinha, distraidamente conhecendo seu novo território sim, traçando seu próprio mapa… quem foi que disse que não  pode? Como fazer novos laços? Como agradecer a quem sempre esteve do seu lado, longe ou perto? Como retribuir o bem? Como nomear e quantificar todas essas emoções? Não se é a mesma, como é essa versão formatada? Está pronta para lidar com a sua diferença e com a indiferença do outro? Com a diferença do outro? Com os julgamentos e perguntas que você achará um porre responder? Está pronta para buscar essa sensação de novo, sempre? Está gostando de, depois de muito, estar feliz e gostando de viver?

Tempo. Tempo de aprender a viver só, de descobrir quem é e o que não quer mais ser. Tempo de aprender a lidar com coisas antes ignoradas. Tempo de sofrimento e de sorriso frouxo. Tempo de retirada daquilo que sufocava e nem se percebia. Tempo de medo. Tempo de saudade. Tempo de tornar-se, hoje, amanhã e por um tempo que não encontra espaço nos calendários, nos relógios e continuará sempre sendo.

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos nem objetivos
Nós estamos vivos e é tudo
É sobretudo a lei
Dessa infinita highway, highway
Infinita Highway – Engenheiros do Hawaii

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Algumas possibilidades de Intercâmbios Acadêmicos

Ainda bem que isso aqui não é profissão, não é mesmo? Pois, a expectativa era alimentar isso aqui com várias dicas sobre mobilidade acadêmica, mas não hahaha. Não consigo fazer isso aqui com frequência 😦

Na única vez que falei sobre isso aqui, mostrei alguns pontos que envolvem a Mobilidade Acadêmica. A minha via de conseguir isso, foi por meio do Programa Nacional da ANDIFES. Porém, há outras formas possíveis de passar um tempo da sua graduação em outro local. E hoje vou escrever sobre os programas que eu conheço, não por já ter participado de todos eles, mas sim por saber dessas oportunidades e querer compartilhar com vocês.

1- Programa de Mobilidade Acadêmica ANDIFES

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Mas Vanessa, você está em uma mobilidade ou em um intercâmbio? Então, estou em um intercâmbio, por meio de um Programa de Mobilidade Acadêmica. Entendo que intercâmbio seja o deslocamento de um lugar para outro que possibilite a troca: cultural, social, ideológica, linguística entre outros, não necessariamente tal intercâmbio tenha que ser de um país para outro. Esse Programa é possível por um convênio entre as Instituições Federais de Ensino (IFES), onde todas ou quase todas IFES do Brasil participam. Essa Mobilidade pode ser financiada ou não. Para saber mais sobre isso, deixa a preguicinha de lado e entre um seriado e outro dê uma olhada no site da Pró-Reitoria de Graduação da sua Universidade, assim você pode saber como funciona esse Programa na sua Instituição, bem como datas de Editais e essas coisas mais burocráticas.

2- Programa  Erasmus Mundus – Projeto EBW+

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Quer ir para a Europa? Então, preste atenção aqui. O Projeto Euro-Brazilian Windows+ (EBW+) é uma parceria entre 20 Instituições de Ensino Superior tanto da Europa quanto do Brasil na categoria de Instituições Parceiras. E, mais 10 outras instituições, na categoria de Instituições Associadas. O EBW+ é  coordenado pela Universidade do Porto (Portugal) e é o Programa Erasmus Mundus que abriga esse Projeto, financiando-o. O Erasmus é um programa  de cooperação e mobilidade voltada para a área de Ensino Superior, implementado pela Agência Executiva relativa à Educação, ao Audiovisual e à Cultura (EACEA), da Comissão Européia. Sendo assim, essa parceria permite que centenas de estudantes saiam do Brasil e cheguem até algum país da União Européia. Há três “categorias” que podem realizar essa mobilidade: estudantes de graduação, pós-graduação e técnicos das Universidades. Essa parceria está firmada até 2020, então fique atento: é possível passar um tempo na Europa, fazendo uma imersão cultural e não só 😉

3 – Programas de Bolsas de Estudos do Santander Universidades

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O banco Santander possui uma área totalmente dedicada aos Universitários e aos Jovens Profissionais chamado Santander Universidades. Dentre os benefícios que o banco fornece, estão bolsas de estudos para Intercâmbios Universitários por meio de um Programa com seis modalidades de bolsa, sendo eles: Top China e Top España com Edital 2015 encerrado; Fórmula Santander 2015, que beneficia alunos do Brasil, Reino Unido e México e com Edital 2015 previsto para abertura dia 25/5/2015; Bolsas Ibero-Americanas, exclusivo para alunos da graduação de 9 países, porém sua última Edição/Edital foi esse ano :(; Bolsas Luso-Brasileiras, esse programa é exclusivo para as universidades públicas brasileiras e contemplam alunos com interesse em ir para alguma Universidade de Portugal participante, também com inscrições encerradas 😦 e, por fim, Bolsas Ibero-Americanas para professores e jovens profissionais, sem inscrições disponíveis no momento.

4- Ciência Sem Fronteiras

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Acho esse um dos Programas mais polêmicos e conhecidos. É o que mais promove benefícios: há várias vagas além de um bom suporte financeiro. No CsF os estudantes podem ficar de um a um ano e meio fora do país, realizando a sua graduação e no caso de extensão para um ano e meio, aprendendo uma outra língua também, já que o programa prevê o custeio de curso da língua local. O CsF peca, ao meu ver, em dar prioridade as Ciências Tecnológicas e Biomédicas, deixando de lado as Ciências Humanas e isso diz muito sobre a lógica Educacional do país. Porém, você das Engenharias, da Medicina e demais áreas contempladas, não se inibe e não e vai lá fazer seu intercâmbio, viu?! 🙂

Atenção para mais algumas coisinhas: 

  • Todos esses programas  são geridos por um departamento da sua Universidade, seja ela Pública ou Particular, então procure esses locais caso tenha interesse em realizar intercâmbio. Apresentei aqui alguns programas que possibilitam isso, mas talvez haja outros e esses espaços institucionais provavelmente irão, acredito eu, indicar quais são eles.
  • Independente de qual Projeto/Programa forem participar, LEIAM SEMPRE OS EDITAIS. Dez mil vezes se preciso for. Eles são fundamentais não só quanto a datas, mas também para saber detalhes que fazem a diferença como a categoria contemplada para concorrer a uma vaga no programa de intercâmbio, além de documentação, informações sobre a gestão do dinheiro entre outros.
  • Os ganhos com a mobilidade, o intercâmbio são ímpares. Espero que assim como eu, em algum momento, vocês possam realizar esses tipos de troca e crescimento. 😉

Até uma próxima vez, seja lá quando ela for.

Beijos, Van. ;*

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Quando, enfim, constrói-se outro ninho

É um puta exercício não criar expectativas com a vida, de uma maneira geral. Sigo tentando. Em meio essas tentativas, várias expectativas já tive, algumas contempladas e outras não. Por muito tempo havia um desejo de sair do ninho, descobrir o mundo a cada batida de asa. Ir em busca da minha alimentação, sem precisar que me dessem na boca. Demorou o tempo necessário. Tive que lidar com diversas formas de “nãos” até isso acontecer, até que chegou o dia de bater asa em outro território.  Pela primeira vez tive mais esperança do que expectativa.

Veja, a minha distinção de uma coisa para outra é básica: se você tem esperança, você vai sem exigências e vê o que vai dar. Caso tenha expectativas, você tem todo um planejamento do que quer fazer ou não e bom… sabemos que a vida não vai obedecer cada um dos seus 7 bilhões ou mais de habitantes. Não foi uma saída sem expectativa alguma, foi uma saída em que poucas coisas eu queria  que de fato dessem certo, que eu desse conta de algumas outras, o e não deu (Só doeu, bem pouco).

O novo território tem suas marcas, principalmente de clima. Por mais que tivesse uma estrutura, um teto que me abrigasse, alguns afetos que me acolheram, tive como início o zero. Questões como: é bom ou ruim? está com saudade ou está gostando daí? quer voltar ou quer ficar? o que você vai fazer quando voltar? eram feitas por terceiros e ecoam ainda por aqui. Por um tempo o meu foco foi tentar respondê-las, mas precisava de energia para construir o novo ninho no território que resolvi sobrevoar, logo, sigo sem respostas.

Ilustração Mergulho - https://www.pinterest.com/pin/483996291174657623/

Não me deram manual de instruções para construir esse ninho, que ainda é confuso. Simplesmente peguei algumas palhinhas e comecei a construí-lo. Tem algumas partes dele que espeta, sabe? Só que não quero arrumar agora, quero me deitar nele de tal forma que a intensidade da espetada seja menor. Este novo ninho tem algumas comidas ruins, dessas intragáveis, mas como só tem essa você come. Tem bagunça que é ordenada só quando chega ao seu limite. Tem desastre, tem lágrima, tem desespero, tem portas e janelas para dar segurança e ficar trancafiada na nova zona de conforto.

O novo ninho permite sair, assim como o anterior, mas agora em voos solos. Os voos são errantes, você dá de cara com uma árvore, se sente totalmente perdida. E percebe, então, que estar perdida é uma dádiva. A distração é a sua melhor atenção para detalhes que te arrancam o riso, fazem você respirar fundo, olhar ao redor nesse lugar estranho, onde você sente-se diferente, mas contemplada por estar ali. Mesmo que a cara possa ser de horror. Afinal, não há o belo no horroroso?

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Passa, aos poucos, a deixar a janela mais aberta. A arriscar falar de si, a sair por aí com alguém que nem a sua língua fala, mas te permite trocar, criar algum tipo de laço em meio a essa mobilidade errante. Começa a ter pequenos prazeres como o sol de outono, com uma luminosidade tal que você nunca tinha visto. Permite em meio ao calor, sentir um leve eriçar dos pelos provocados pelo vento gelado e prazeroso. Faz o mesmo caminho de sempre, que já não é tão estranho assim. Chamam pelo seu nome. Você se assusta pois acha que ali ninguém te conhece, porém percebe um rosto conhecido ao se permitir olhar, rosto este que fez questão de te chamar e te dar “oi”.

Enfim, abaixa a cabeça. Dessa vez não por tristeza, mas sim para levantá-la, olhar ao redor e enfim se sentir bem por estar em outro ninho, construído por você,  com você, sem que percebesse. Ao invés de encontrar respostas, outras questões surgiram e continuam a surgir. É no conforto e confronto do ninho espetador que outras marcas serão impregnadas no corpo que já não quer todas as respostas do mundo. Corpo este que só quer ter a possibilidade de outras perguntas formar, sem a garantia de respostas ou uma previsão delas.

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18 de Maio: comemoração ou luta?

Sim, fui dessas que começou a fazer Psicologia por “sempre ouvir os amigos”, por “não ter nada de matemática”, “porque eu posso entender melhor os outros e a mim mesma”. Cheguei a responder, no início das aulas onde os professores vez ou outra nos questionavam “Por que você escolheu fazer Psicologia?” que não sabia a razão disso.

A verdade é que fui tola em todas as minhas conclusões, exceto a de não saber a razão da minha escolha pelo curso. Não sabia nomear, mas ela existia de alguma forma e me movimentou a fazer essa escolha, da qual não me arrependo. Percebi, então, que aprendemos também na graduação várias coisas das quais caímos na velha questão: “onde eu vou usar isso na minha vida?”. No entanto, outras temáticas me fisgaram de tal forma que me fazem hoje dizer: é isso que eu quero, que eu gosto e que eu vou investir.

Quando descobri que Psicologia não se reduz a duas pessoas dentro de uma sala e que havia outras formas de atuação, meus olhos brilharam. Até eu ter a experiência clínica, vou achar ela muito assustadora (e desafiadora também). Há, infelizmente, a visão de que os psicólogos cuidam dos loucos. Tenho algumas questões com o termo “cuidar” e, principalmente “loucos”. Ao decorrer do texto provavelmente será possível perceber a minha posição sobre esses dois termos.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

É preciso aceitarmos o fato de que a loucura é uma construção social, com implicações sociais, culturais, políticas e econômicas. Por muito tempo construímos diversas formas de lidar com ela, de aceitá-la e o mais comum: de excluí-la. Não consigo escrever sem citar “História da Loucura” de Michel Foucault, acredito que ele foi um autor muito importante para compreendermos os movimentos tomados em nossa sociedade, seja ela a brasileira, a francesa ou a italiana, em relação a loucura. Como afirma João Paulo Macedo, em uma resenha sobre a obra, é um livro-ferramenta para as discussões sobre saúde mental, posição essa que concordo.

Confesso, não li a obra por completo. Mas, sempre que penso sobre o pouco que li e as experiências de discussões que venho tendo sobre Saúde Mental, loucura, atuação profissional e Políticas Públicas, uma questão reina: Quem é o louco? Como as pessoas os veem? Como eu os vejo?

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Os loucos me encantam. Veja bem, não acredito que são esses pessoas perfeitas para ficarem reclusas em instituições afastadas, garantindo a higienização dos espaços públicos. Os loucos são pessoas com as quais devo aprender e construir saber sobre eles, com eles.  Obviamente, isso não é um pensamento original. Fazer com que a massa olhem e ouçam é um movimento de muitos, ainda bem.

Hoje, 18 de maio, comemora-se o dia da Luta Antimanicomial ou dia do Movimento Antimanicomial. O que temos para comemorar? A Reforma Psiquiátrica é um ponto a ser comemorado, iniciada nos anos 70 contra as instituições manicomiais, sustentadas por profissionais da saúde, usuários do serviço e seus familiares. Essa luta ganha âmbito legislativo com a Lei 10.216, promulgada em 2011, proposta pelo Deputado Paulo Salgado em 1989, instigando assim a luta pela Reforma Psiquiátrica.

A Reforma Psiquiátrica não se reduz a desinstitucionalização. É preciso mudanças na formação profissional, por exemplo. É preciso entender que Hospitais Psiquiátricos são instituições prescindíveis. Pode parecer que sim, mas medicalização não é a única saída, então a Reforma Psiquiátrica exige a criação de outras práticas com os sujeitos ditos loucos. Exige uma implicação não só do campo da Saúde, mas também da Educação, do Direito, da Cultura e todo e qualquer aspecto social, econômico e cultural no qual esses sujeitos estão implicados, assim como eu e você. É uma mudança buscada há anos, e obviamente encontra seus pontos de conflitos, divergências e aniquilamento, de certa forma.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Às vezes, ou na maioria das vezes, tenho a sensação que a nossa sociedade vem sofrendo retrocessos. A luta de todos os dias na questão antimanicomial é para que cenários como o do Holocausto Brasileiro, não se repitam. A luta de todos os dias é para que não existam mais Cidades dos Loucos. A luta de todos os dias é para que toda uma rede de assistência à saúde funcione, que as instituições de saúde mental não fiquem à margem social, bem como seus usuários e profissionais. Há avanços, mesmo que difíceis de serem alcançados e percebidos em meio a todo descaso sofrido. Porém, em meio a luta para romper com paradigmas domesticadores de corpos, percebemos que a população não pode participar de discussões “na casa do povo” sobre a política de Saúde Mental do Estado. Além disso, vemos coordenador de Saúde Mental do Estado falando que “os dependentes químicos são cidadãos infratores e devem estar nos hospícios ou cadeias” e que “prioridade é combater o crack e outras drogas com as melhores armas do governo”.

Como uma das medidas tomadas para a desinstitucionalização dos usuários, há o serviço das Residências Terapêuticas, que são fechadas por falta de recurso, mas será só isso? Apesar dos links fazerem referência ao Rio Grande Sul, penso eu que seja uma realidade nacional. Alguns políticos colocam em cena a discussão sobre a Reforma Psiquiátrica, porém o que deve ser discutido é como ela será cumprida, e não vias de retroceder a ela. Reforma Psiquiátrica não é desculpa para formas de atuação que a contradizem por completo e me parece que é isso que vemos, infelizmente.

Diante do exposto, acredito que o dia de hoje não é só de comemoração pelas conquistas e por ações efetivas de cumprimento da Reforma Psiquiátrica. Mas, também é dia de incomodo, é dia de luta, é dia de não abaixar a cabeça diante da desumanização vista, dos discursos totalmente retrocedentes e divergentes do que a Política de Saúde Mental vigente exige.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Meus passos nesse movimento são lentos e curiosos. Não acredito que a única forma de ajudar a pensar e enfrentar essas questões e contradições é indo para as ruas, mas é a forma que mais chama à atenção de quem tem poder para mudar esse cenário, ou pelo menos deveria. Os espaços precisam ser ocupados, sejam eles as ruas ou as redes sociais. Sejam eles no bar, na praça, ou em casa.

Hoje é dia de pensar nas lutas de todos os dias, e de tanto pensar foi preciso escrever para ver se acalma um pouco todas essas barbaridades vistas em relação aos loucos. Os loucos sabem que seus espaço não é atrás de grades, presos em quatro paredes, e nós, pacatos cidadãos, também deveríamos de uma vez por todas entender isso.

Como futura profissional, meu esforço será para que eu não esqueça a minha responsabilidade em relação a esses sujeitos. Não esquecer que apesar do cuidado que é necessário se ter, isso não significa tutela, ou seja, mesmo em espaços institucionais o esforço deve ser de caminhar com eles e não por eles. Ganhar espaços para eles, com eles e não de forma que sua subjetividade seja esquecida. Assim como eu, eles também devem ter a oportunidade e o direito de ser quem se é, por mais difícil que isso seja. Por mais que sua constituição não seja a mesma que a minha. Por essas e outras razões, a luta é todo dia para que haja, de fato, motivos para se comemorar.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini


As fotos do post são de autoria do fotógrafo Daniel Perini e o ensaio completo pode ser visto aqui

Turn Off

Quem nunca pensou que fosse uma loucura certa decisão tomada? Penso isso, às vezes, quando olho para trás e vejo que os meses já passaram, e falta mais um pouco para terminar os dias em Porto Alegre. Esse olhar para trás me faz dizer frases típicas de nós, adultos como, por exemplo,  “não tenho tempo para nada” ou “o tempo passou muito rápido”. Passo a questionar se é isso mesmo, ou se como sempre quero abraçar o mundo e ir por todos os caminhos que aparecem na minha frente.

Por um tempo demorei para desligar, apertar o Turn Off da minha vida lá, onde o sol aquece e é meu inferno e paraíso. Desligar sim, porque não poderia me responsabilizar por várias coisas, em uma vida que deixei e em uma nova que começava a construir. Demorei para perceber, por mais que já soubesse, que eu precisava dizer não. Que eu precisava aceitar que não daria conta de cumprir com coisas de lá, aqui, milhas e milhas distantes. Mais uma vez, expectativa e realidade sendo incompatíveis. Mais uma vez, nessa minha ansiedade de beber o mundo, de engolir a vida sem digestão, me fez pisar em falso. E é só pisando em falso que consigo perceber minhas próprias promessas falsas.

Hoje, consegui desligar um pouco. Consigo me relacionar com o tempo de outra forma, eu acho. É tempo de falta, muita falta. É tempo de perceber a dureza comigo, a dureza de estar realmente só, eu e o mundo e o frio. É tempo que passa desenfreado por mim, me atravessa e talvez demore um tempo para elaborar o que aqui se passa. Tempo de intensidade. Tempo de perceber que é possível estar só, sim e que é agradável poder compartilhar essa solidão. Tempo de construir outros laços, por mais difícil que seja. Tempo de passar rápido, tempo de Turn Off.

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Relógio | Catarina Sobral

Talvez, aperto Turn Off para coisas que não quero pensar, encarar. Pois, sempre há uma coisa ou outra que nos dói. Tempo de viver aqui e não só, há alguns laços que jamais serão desligados e você gostaria que eles estivessem próximos a você. Tempo de ser criticada, questionada e sentir-se nada. Tempo de perceber quais laços permanecerão, como permanecerão e aceitá-los. Tempo de aceitar o adeus e entender que as coisas jamais voltarão a ser o que eram, serão diferentes, nem melhores e nem piores: é tempo de aprender a não polarizar as coisas e sim acrescentar coisas, mesmo ponderando.

É tempo de desligar os preconceitos, esses que berram e que te doem. É tempo de reconhecer que nem sempre é possível acabar com todos eles. É tempo de aceitar, de uma vez  por todas, que não se pode tudo, infelizmente e parar de sofrer com isso, por isso. É tempo de deixar a arrogância de lado, assumir erros, agarrar os acertos e ser quem se é. Meio torta, meio fora do padrão, seja lá o que for isso. Aceitar-se e se alguma coisa ainda incomodar, respirar fundo, procurar formas de mudar. Lembra do que sempre se diz? no final, é só você contra você mesmo, não há culpados ou escapatórias. As escolhas são suas e as consequências também.

Se você desliga, e o que desliga, é só você quem sabe os efeitos disso… suas palavras, inclusive, talvez não deem conta disso. Mas, ajuda a aliviar. Assim como o abraço, o afago, o afeto que tanto te perturba não ter. Entende que desligar talvez não resolva mas, que vez ou outra, é preciso para não ser engolida. É preciso ruminar um pouco para sair palavras embaraçadas de um tempo acelerado, que você vive e diz não ter. Mas, se você não tem tempo para nada, o que é tudo isso que você vive?

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Entre o não e o sim

Ativistas pela descriminalização do aborto no Uruguai fazem manifestação na entrada do Congresso. Foto: Miguel Rojo / AFP.

Não! – é o berro silencioso (ou seria silenciado?) que muitas mulheres vociferam ao descobrirem a sua gravidez oriunda de um abuso sexual ou de uma relação sexual sem camisinha, porque o parceiro (e até ela mesma) gostaria de sentir mais prazer.

Quando sentar, tem que cruzar a perna. Não pode usar saia muito curta, pois se alguma coisa acontecer você, mulher, independente da sua cor, credo, idade ou classe social, será culpada e não vitima. Cantada na rua? Ah! Pelo menos eles te acham bonita. Não se esqueça de que a sua cor predominante é rosa, azul é coisa de menino. Não, você não pode ganhar brinquedos de montar ou carrinhos, lembra? Isso é coisa de menino. Fica aqui com a sua cozinha completa em miniatura. Sua axila e sua vagina, suas pernas e seu buço terão pelos, mas sabe o que é, você tem que tirá-los frequentemente por questões de higiene. Ah! Mas o cabelo, não o corta igual de homem, irão te chamar de sapatão. Tem uns comprimidos que você precisa tomar, todo dia, para não engravidar, ok?

Não! É impossível responder a pergunta “você já se deparou com alguma das frases acima?” com um não. O não também cansa. Cansou grupos de mulheres que decidiram gritar nãos para conseguir sins. O corpo é de cada uma, e cada uma pode decidir por ele. Diferenças existem sim, direitos também e não é gênero, raça, cor, religião e estereótipo corporal que decidirá quem pode e quem não. Na verdade, nem a Constituição muitas vezes garante isso, uma parcela é deixada de lado, vez ou sempre.

Não, não é mais aceitável o silêncio. Não é aceitável mais coisas absurdas. Não é aceitável mais a brutalidade que muitas mulheres ficam submetidas quando devem decidir ter ou não um filho. Isso é saúde, educação, crenças, um monte de fatores intercruzados e construídos socialmente que ditam regras, muitas vezes não entendidas e/ou percebidas, que gera sofrimento.

Talvez seja necessário aqui assumir uma posição a favor ou contra o aborto, e eu assumo que sou a favor de uma regulamentação dessa prática. Levando em consideração o direito a vida, sim. Levando em consideração todo o contexto que a mulher, enquanto dona de si e atora social, está inserida. É preciso questionar: em que condições o nascituro foi gerado? Qual a vontade da mulher? Quais os direitos que estão sendo colocado em cena e aqueles que permanecem atrás do palco?

Desde os anos 60 até hoje grupos feministas têm como pauta a descriminalização do aborto. O corpo é nosso, mulheres, e podemos dizer não diante das situações. O corpo é nosso, e podemos lutar por esse direito, sempre. O corpo é nosso, e não podemos ficar trancafiadas nas redes sociais e nos espaços acadêmicos, de certa forma tão restritos, teorizando ou mantendo na superfície essa discussão.

Sim, a nossa sociedade é heteronormativa. Sim, isso é tão naturalizado que não percebemos. Periferia ou centro, essa discussão precisa sair dos espaços institucionais e virtuais e ganhar, cada vez mais, a cidade, o povo que acha ok discursos e lógicas que aprisionam, ou que não conseguem perceber outras lógicas. É preciso ganhar espaços para romper e, principalmente, tencionar os discursos naturalizados, que nos cerceiam e nos dizem não a cada escolha de roupa.

O corpo é meu e a escolha também. Questione entre o sim e o não, e então escolha por você, com você e pelas trocas possíveis em meio ao contexto micro e macro no qual está inserida.

Entenda, então, que talvez não se trate “só” de descriminalização do aborto, se trata de tramas tão dramáticas e sutis que é preciso um respirar fundo e ir, entre o não e o sim.


Texto escrito, originalmente, para a disciplina “Seminário em Psicologia Social: Democracia, Estado Laico e Novos Movimentos Sociais” do Curso de Psicologia da UFRGS,  ofertada pela Profa. Dra. Neuza Maria de Fátima Gureschi e acompanhada por seus estagiários docentes Wanderson Vilton Nunes (doutorando) e Rodrigo Kreher (mestrando). Esse texto (aqui, com algumas alterações em relação ao original) foi uma proposta de atividade para pensar, em aula, sobre a questão da legalização do aborto. Os textos abaixo foram utilizados como provocação de escrita:

–  A Contribuição dos Movimentos Sociais Feministas e a Política Pública Nacional de Atenção às Mulheres em situação de abortamento – Mariana Diôgo de Lima Costa, Alba Jean Batista Viana e Eduardo Sérgio Soares Sousa.

Políticas feministas do aborto – Lucila Scavone.

Estatuto do Nascituro.

Estatuto da Família.