18 de Maio: comemoração ou luta?

Sim, fui dessas que começou a fazer Psicologia por “sempre ouvir os amigos”, por “não ter nada de matemática”, “porque eu posso entender melhor os outros e a mim mesma”. Cheguei a responder, no início das aulas onde os professores vez ou outra nos questionavam “Por que você escolheu fazer Psicologia?” que não sabia a razão disso.

A verdade é que fui tola em todas as minhas conclusões, exceto a de não saber a razão da minha escolha pelo curso. Não sabia nomear, mas ela existia de alguma forma e me movimentou a fazer essa escolha, da qual não me arrependo. Percebi, então, que aprendemos também na graduação várias coisas das quais caímos na velha questão: “onde eu vou usar isso na minha vida?”. No entanto, outras temáticas me fisgaram de tal forma que me fazem hoje dizer: é isso que eu quero, que eu gosto e que eu vou investir.

Quando descobri que Psicologia não se reduz a duas pessoas dentro de uma sala e que havia outras formas de atuação, meus olhos brilharam. Até eu ter a experiência clínica, vou achar ela muito assustadora (e desafiadora também). Há, infelizmente, a visão de que os psicólogos cuidam dos loucos. Tenho algumas questões com o termo “cuidar” e, principalmente “loucos”. Ao decorrer do texto provavelmente será possível perceber a minha posição sobre esses dois termos.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

É preciso aceitarmos o fato de que a loucura é uma construção social, com implicações sociais, culturais, políticas e econômicas. Por muito tempo construímos diversas formas de lidar com ela, de aceitá-la e o mais comum: de excluí-la. Não consigo escrever sem citar “História da Loucura” de Michel Foucault, acredito que ele foi um autor muito importante para compreendermos os movimentos tomados em nossa sociedade, seja ela a brasileira, a francesa ou a italiana, em relação a loucura. Como afirma João Paulo Macedo, em uma resenha sobre a obra, é um livro-ferramenta para as discussões sobre saúde mental, posição essa que concordo.

Confesso, não li a obra por completo. Mas, sempre que penso sobre o pouco que li e as experiências de discussões que venho tendo sobre Saúde Mental, loucura, atuação profissional e Políticas Públicas, uma questão reina: Quem é o louco? Como as pessoas os veem? Como eu os vejo?

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Os loucos me encantam. Veja bem, não acredito que são esses pessoas perfeitas para ficarem reclusas em instituições afastadas, garantindo a higienização dos espaços públicos. Os loucos são pessoas com as quais devo aprender e construir saber sobre eles, com eles.  Obviamente, isso não é um pensamento original. Fazer com que a massa olhem e ouçam é um movimento de muitos, ainda bem.

Hoje, 18 de maio, comemora-se o dia da Luta Antimanicomial ou dia do Movimento Antimanicomial. O que temos para comemorar? A Reforma Psiquiátrica é um ponto a ser comemorado, iniciada nos anos 70 contra as instituições manicomiais, sustentadas por profissionais da saúde, usuários do serviço e seus familiares. Essa luta ganha âmbito legislativo com a Lei 10.216, promulgada em 2011, proposta pelo Deputado Paulo Salgado em 1989, instigando assim a luta pela Reforma Psiquiátrica.

A Reforma Psiquiátrica não se reduz a desinstitucionalização. É preciso mudanças na formação profissional, por exemplo. É preciso entender que Hospitais Psiquiátricos são instituições prescindíveis. Pode parecer que sim, mas medicalização não é a única saída, então a Reforma Psiquiátrica exige a criação de outras práticas com os sujeitos ditos loucos. Exige uma implicação não só do campo da Saúde, mas também da Educação, do Direito, da Cultura e todo e qualquer aspecto social, econômico e cultural no qual esses sujeitos estão implicados, assim como eu e você. É uma mudança buscada há anos, e obviamente encontra seus pontos de conflitos, divergências e aniquilamento, de certa forma.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Às vezes, ou na maioria das vezes, tenho a sensação que a nossa sociedade vem sofrendo retrocessos. A luta de todos os dias na questão antimanicomial é para que cenários como o do Holocausto Brasileiro, não se repitam. A luta de todos os dias é para que não existam mais Cidades dos Loucos. A luta de todos os dias é para que toda uma rede de assistência à saúde funcione, que as instituições de saúde mental não fiquem à margem social, bem como seus usuários e profissionais. Há avanços, mesmo que difíceis de serem alcançados e percebidos em meio a todo descaso sofrido. Porém, em meio a luta para romper com paradigmas domesticadores de corpos, percebemos que a população não pode participar de discussões “na casa do povo” sobre a política de Saúde Mental do Estado. Além disso, vemos coordenador de Saúde Mental do Estado falando que “os dependentes químicos são cidadãos infratores e devem estar nos hospícios ou cadeias” e que “prioridade é combater o crack e outras drogas com as melhores armas do governo”.

Como uma das medidas tomadas para a desinstitucionalização dos usuários, há o serviço das Residências Terapêuticas, que são fechadas por falta de recurso, mas será só isso? Apesar dos links fazerem referência ao Rio Grande Sul, penso eu que seja uma realidade nacional. Alguns políticos colocam em cena a discussão sobre a Reforma Psiquiátrica, porém o que deve ser discutido é como ela será cumprida, e não vias de retroceder a ela. Reforma Psiquiátrica não é desculpa para formas de atuação que a contradizem por completo e me parece que é isso que vemos, infelizmente.

Diante do exposto, acredito que o dia de hoje não é só de comemoração pelas conquistas e por ações efetivas de cumprimento da Reforma Psiquiátrica. Mas, também é dia de incomodo, é dia de luta, é dia de não abaixar a cabeça diante da desumanização vista, dos discursos totalmente retrocedentes e divergentes do que a Política de Saúde Mental vigente exige.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Meus passos nesse movimento são lentos e curiosos. Não acredito que a única forma de ajudar a pensar e enfrentar essas questões e contradições é indo para as ruas, mas é a forma que mais chama à atenção de quem tem poder para mudar esse cenário, ou pelo menos deveria. Os espaços precisam ser ocupados, sejam eles as ruas ou as redes sociais. Sejam eles no bar, na praça, ou em casa.

Hoje é dia de pensar nas lutas de todos os dias, e de tanto pensar foi preciso escrever para ver se acalma um pouco todas essas barbaridades vistas em relação aos loucos. Os loucos sabem que seus espaço não é atrás de grades, presos em quatro paredes, e nós, pacatos cidadãos, também deveríamos de uma vez por todas entender isso.

Como futura profissional, meu esforço será para que eu não esqueça a minha responsabilidade em relação a esses sujeitos. Não esquecer que apesar do cuidado que é necessário se ter, isso não significa tutela, ou seja, mesmo em espaços institucionais o esforço deve ser de caminhar com eles e não por eles. Ganhar espaços para eles, com eles e não de forma que sua subjetividade seja esquecida. Assim como eu, eles também devem ter a oportunidade e o direito de ser quem se é, por mais difícil que isso seja. Por mais que sua constituição não seja a mesma que a minha. Por essas e outras razões, a luta é todo dia para que haja, de fato, motivos para se comemorar.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini


As fotos do post são de autoria do fotógrafo Daniel Perini e o ensaio completo pode ser visto aqui

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