Quando, enfim, constrói-se outro ninho

É um puta exercício não criar expectativas com a vida, de uma maneira geral. Sigo tentando. Em meio essas tentativas, várias expectativas já tive, algumas contempladas e outras não. Por muito tempo havia um desejo de sair do ninho, descobrir o mundo a cada batida de asa. Ir em busca da minha alimentação, sem precisar que me dessem na boca. Demorou o tempo necessário. Tive que lidar com diversas formas de “nãos” até isso acontecer, até que chegou o dia de bater asa em outro território.  Pela primeira vez tive mais esperança do que expectativa.

Veja, a minha distinção de uma coisa para outra é básica: se você tem esperança, você vai sem exigências e vê o que vai dar. Caso tenha expectativas, você tem todo um planejamento do que quer fazer ou não e bom… sabemos que a vida não vai obedecer cada um dos seus 7 bilhões ou mais de habitantes. Não foi uma saída sem expectativa alguma, foi uma saída em que poucas coisas eu queria  que de fato dessem certo, que eu desse conta de algumas outras, o e não deu (Só doeu, bem pouco).

O novo território tem suas marcas, principalmente de clima. Por mais que tivesse uma estrutura, um teto que me abrigasse, alguns afetos que me acolheram, tive como início o zero. Questões como: é bom ou ruim? está com saudade ou está gostando daí? quer voltar ou quer ficar? o que você vai fazer quando voltar? eram feitas por terceiros e ecoam ainda por aqui. Por um tempo o meu foco foi tentar respondê-las, mas precisava de energia para construir o novo ninho no território que resolvi sobrevoar, logo, sigo sem respostas.

Ilustração Mergulho - https://www.pinterest.com/pin/483996291174657623/

Não me deram manual de instruções para construir esse ninho, que ainda é confuso. Simplesmente peguei algumas palhinhas e comecei a construí-lo. Tem algumas partes dele que espeta, sabe? Só que não quero arrumar agora, quero me deitar nele de tal forma que a intensidade da espetada seja menor. Este novo ninho tem algumas comidas ruins, dessas intragáveis, mas como só tem essa você come. Tem bagunça que é ordenada só quando chega ao seu limite. Tem desastre, tem lágrima, tem desespero, tem portas e janelas para dar segurança e ficar trancafiada na nova zona de conforto.

O novo ninho permite sair, assim como o anterior, mas agora em voos solos. Os voos são errantes, você dá de cara com uma árvore, se sente totalmente perdida. E percebe, então, que estar perdida é uma dádiva. A distração é a sua melhor atenção para detalhes que te arrancam o riso, fazem você respirar fundo, olhar ao redor nesse lugar estranho, onde você sente-se diferente, mas contemplada por estar ali. Mesmo que a cara possa ser de horror. Afinal, não há o belo no horroroso?

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Passa, aos poucos, a deixar a janela mais aberta. A arriscar falar de si, a sair por aí com alguém que nem a sua língua fala, mas te permite trocar, criar algum tipo de laço em meio a essa mobilidade errante. Começa a ter pequenos prazeres como o sol de outono, com uma luminosidade tal que você nunca tinha visto. Permite em meio ao calor, sentir um leve eriçar dos pelos provocados pelo vento gelado e prazeroso. Faz o mesmo caminho de sempre, que já não é tão estranho assim. Chamam pelo seu nome. Você se assusta pois acha que ali ninguém te conhece, porém percebe um rosto conhecido ao se permitir olhar, rosto este que fez questão de te chamar e te dar “oi”.

Enfim, abaixa a cabeça. Dessa vez não por tristeza, mas sim para levantá-la, olhar ao redor e enfim se sentir bem por estar em outro ninho, construído por você,  com você, sem que percebesse. Ao invés de encontrar respostas, outras questões surgiram e continuam a surgir. É no conforto e confronto do ninho espetador que outras marcas serão impregnadas no corpo que já não quer todas as respostas do mundo. Corpo este que só quer ter a possibilidade de outras perguntas formar, sem a garantia de respostas ou uma previsão delas.

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