Quando a Teoria Queer vai ao supermercado

Sobre a cena

Qual cena do cotidiano poderia ser estranha e, além disso, por a pensar sobre “(Des) Construções identitárias”? Qual espaço poderia causar estranhamento, onde identidades sólidas, construídas socialmente estavam em movimento de desconstrução por meio de ações e pensamentos da Teoria Queer?

Alguma palestra? Algum grupo de estudos? Algum espaço fora da Universidade onde tal temática fosse tratada? Poderia ser, mas não foi. Escolhemos[1] o lugar no qual vamos ao menos uma vez por semana: o supermercado Zaffari, localizado na rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS.

Chegamos por volta das 9 horas da manhã de uma segunda-feira e lá percebemos uma movimentação tranquila. Havia homens e mulheres, obviamente. Foi possível observar (ou seria dar mais atenção?) a algumas situações: a função de caixa era exercida somente por mulheres, e o carregamento de caixas ou empacotamento dos produtos por homens. Sim, encontramos sessões onde o binarismo é claramente marcado por cores, por imagens, por slogans. Homens acompanhados de listas de compras; mulheres que já conheciam o caminho para corredores específicos de cór. Idosos e idosas, adolescentes, jovens e adultos: aparentemente um local de convívio democrático.

Sendo assim, nossa cena não é estranha, é corriqueira. Porém, com o auxilio das discussões tida na disciplina de Gênero e Sexualidade, conduzida pela profa. Paula Sandrine e suas estagiárias docentes Daniela Dell’Aglio e Marilía Saldanha questões foram colocadas em jogo. Questionar o cotidiano, a partir de algumas teóricas Queer foi um movimento interessante. Afinal, não é disso que se trata? Olhar para o mais do mesmo e fazer uma releitura de tal cena sob a ótica de uma teoria? Me parece que sim. Isso não significa que encontramos ou pretendíamos encontrar respostas diante de ene problemáticas. Significa colocar o pensamento em movimento. Pensar, rascunhar críticas, exercitar de certa forma a empatia com o outro e questionar, sempre. As questões incitam movimento – de pensar e agir –, acredito eu, e sem elas a observação não faria tanto sentido.

É difícil, depois das discussões, da observação e da disciplina como um todo, olhar para propagandas de produtos vendidos em estabelecimentos como o observado e não imaginar que a mídia tem influência sim, e tem uma força discursiva impar na marcação (ou seria segregação?) binária dos sexos. É impossível olhar propagandas que mostram casais gays e lésbicos que realizam gestos de afetos e não questionar até que ponto isso é à favor de uma causa ou é só (mais um) jogo midiático e capitalista. Talvez, o questionar venha com esse cunho crítico. Mas, para fazer algumas afirmações ao longo desse escrito, a partir da observação do cotidiano descrito brevemente acima, é preciso demarcar o meu lugar de fala.

Quem fala e de onde fala

 Por muito tempo não me sentia implicada em discussões sobre gênero e sexualidade. Questões políticas então? Jamais! Acreditava que quanto mais quieta e longe de discussões desse cunho, melhor. Até começar a entender que o silêncio também marca um posicionamento, um lugar de onde o seu pensamento e ações são produzidos e com esse território não estava mais contente.

Foi durante algumas disciplinas realizadas no semestre de 2015/1 no curso de Psicologia da UFRGS que discussões com essas temáticas me atravessaram e, com a absoluta certeza, continuará como um sussurro ou um berro por muito tempo em meus pensamentos e ações.

Eu, mulher heterossexual, cisgênero de classe média me ponho a escrever aqui sobre questões de gênero e sexualidade. Principalmente, como a observação do cotidiano pode auxiliar a pensar sobre as (des) construções identitárias. De antemão, deixo registrado a minha dificuldade em conseguir escrever de maneira tal que todas as pessoas sintam-se contempladas e respeitadas. A escrita padrão do nosso “Brasil brasileiro” diz da nossa história como colônia, das marcas – arrisco a dizer – do binarismo de gênero construído há décadas e, infelizmente não consigo me livrar delas, ainda.

Em uma escrita tateante, buscando compreender e por em movimento o meu pensar sobre grupos tidos como minoritários a partir de uma cena comum e potente. Passarei brevemente pela teoria queer, cuja qual pouco sei, e que é o suficiente para dar continuidade as próximas linhas. Atenção: isso é um exercício, uma aposta. Possivelmente terá escorregadas, mas tentarei ter alguns pontos definitivos também, afinal, algumas certezas são necessárias (mesmo que depois outras relações sejam construídas e elas mudem).

Queer?! Talvez, cu!

Nesses quase quatro anos de graduação já ouvi falar sobre a teoria queer. Não sabia sua origem, de onde vinha e do que se alimentava. Ainda não sei com propriedade, mas algumas afirmações já podem ser feitas.

Primeiramente, queer é um termo que significa “um xingamento, é um palavrão em inglês” (MISKOLCI, 2012, p. 25). Quando falado em português parece uma palavra intelectual, que diz de pessoas que devem ser respeitada. Mas não podemos perder de vista o contexto em que ela surge.

Sabe-se que a AIDS em sua origem foi dramática. Médicos e a população mundial ficaram assustados com essa epidemia sem solução. Como era (e ainda é) vinculada a relação sexual gay, principalmente, tal epidemia contribui para a caracterização de gays e lésbicas como disseminadores de tal doença. Não é a toa que Miskolci (2012) afirma que a aids é sim um fato biológico, mas também uma construção social, onde “na primeira oportunidade, os valores conservadores e os grupos sociais interessados em manter tradições se voltaram contra as vanguardas sociais” (p.23). Foi nesse cenário, que na segunda metade da década de 1980 nos Estados Unidos, o movimento gay e lésbico se torna mais radical que o anterior contra uma força conservadora que ganha holofotes novamente.

A aids, portanto, foi um catalizador biopolítico que gerou formas de resistência mais astutas e radicais, materializadas no ACT UP, uma coalizão ligada à questão da aids pra atacar o poder e no Queer Nation, de onde vem a palavra queer, a nação anormal, a nação esquisita, a nação bicha. […] É assim que surge o queer, como reação e resistência a um novo momento biopolítico instaurado pela aids. (MISKOLCI, 2012, p. 23-24).

 Com esse breve contexto histórico é impossível afirmar que o efeito da palavra queer nos Estados Unidos é o mesmo que aqui no Brasil. Queer é uma palavra que nada diz ao senso comum, como afirma Pelúcio (2014), e também não fere os ouvidos de ninguém quando dito em ambiente acadêmico,

“ao contrário, soa suave (cuier), quase um afago, nunca uma ofensa. Não há rubores nas faces nem vozes embargadas quando em um congresso científico lemos, escrevemos ou pronunciamos queer. Assim, o desconforto que o termo causa em países de língua inglesa se dissolve aqui na maciez das vogais que nós brasileiros insistimos em colocar por toda parte. De maneira que a intenção inaugural desta vertente teórica norte-americana, de se apropriar de um termo desqualificador para politizá-lo, perdeu-se no Brasil” (PELÚCIO, 2014, p. 4).

Para pensar sobre qual palavra traria o mesmo efeito que o queer no Brasil, ou nos países latinos de maneira geral, Pelúcio apresenta toda uma argumentação sobre falarmos em uma teoria cu, baseado em Paul Beatriz Preciado, mas não só. Quando falamos em cu por aqui, há certo constrangimento e rubor como apontado no trecho acima. Assim, concordo com argumentos apontados por Pelúcio em seu texto Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil?, sobre falarmos de uma teoria cu,  pois só assim poderíamos nos aproximar do significado da palavra em inglês em nosso país.

Sobre a teoria queer, ainda é preciso salientar sobre o conceito de abjeção apontado por Miskolci (2012), vejamos:

Alguém atento percebe como a problemática queer não é exatamente a da homossexualidade, mas a da abjeção. Esse termo, “abjeção”, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política. […] A abjeção, em termos sociais, constitui a experiência de ser temido e recusado com repugnância, pois sua própria existência ameaça uma visão homogênea e estável do que é a comunidade. O “aidético”, identidade do doente de aids na década de 1980, encarnava esse fantasma ameaçador contra o qual a coletividade expunha seu código moral” (MISKOLCI, 2012, p. 23).

A partir dessa afirmação podemos pensar que não há espaço para algumas pessoas nos supermercados, pois elas podem ser vistas como fantasmas, como ameaça a “família tradicional brasileira”. Mas seria tais pessoas somente a comunidade gay?  Ou melhor, seriam somente os gays aqueles defendidos pela teoria queer? Não, como afirma Miskolci (2012, p. 25):

O queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, é a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados à humilhação e ao desprezo coletivo.

Todos aqueles que fogem a uma norma socialmente construída pode cair na fronteira da abjeção. Como os supermercados ficariam fora, não é mesmo? Quando escolhemos esse local, ingênuas queríamos ver a Teoria Queer ali, naquele espaço. Queríamos pegar na mão de uma teoria e levar ela para passear, fazer compras e ao se deparar com um produto X ou Y ter opções que a contemplasse.

Na verdade, com essa observação pudemos apenas entender que a Teoria Queer não chega a pessoas, por exemplo, que gerenciam o marketing de cada produto. No entanto, ela diz de grupos que costumamos a chamar de minoria, – e que cada vez mais tenho certeza que se trata de uma maioria – que gritam e clama por direitos, mas o lugar de fronteira não deixa que elas sejam ouvidas. Aliás, queremos ouvi-las? Quão aberto os ouvidos estão para essas várias vozes?

Em aula foi possível discutir um pouco sobre a diversidade e a diferença. Quando supermercados abrirem suas portas para as questões de Gênero e Sexualidade, tenho pouca dúvida que irá se tratar de “aceitar a diversidade”. Em outras palavras, quando se fala em diversidade estamos (ou podemos) falar de uma tolerância com pessoas de determinada cor, raça, gênero, entre outros. Precisamos de supermercados e demais espaços que abram suas portas para a diferença, pois aí sim, aquilo que é da identidade de cada um, da singularidade, daquilo que cada um é constituído ganharia holofotes.

Dessa forma, acredito eu, a teoria queer encontraria seu espaço no supermercado e em várias instituições e instâncias da nossa sociedade. E mais, a fronteira da abjeção seria desconstruída, mesmo que para isso seja necessária várias marretadas.

Porque é preciso de um fim…

Mas um fim cheio de lacunas, já que não acredito ser possível dar conta de tudo. Pelo menos não agora.

Diante do que aqui foi exposto me sinto a vontade para afirmar que a Teoria Queer ainda tem uma característica muito academicista. Ao menos a partir do pouco contato que com ela tenho. Então, como lacuna fica o convite para pensar sobre o agir: quais as formas estão sendo criadas para que espaços não acadêmicos conheçam essa forma de pensar? Quais ações populares, dessas que chega a comunidades e até mesmo a patrões, pautados nessa teoria (e também política, que aqui não foi abordada) queer? Como, estudantes, professores, pesquisadores e demais comunidade acadêmica está se engajando em ações que contemplem pautas daqueles que são barrados pela fronteira da abjeção e assim permanecem na margem? Como eu estou me implicando nisso ou procurando me implicar?

Acredito que as discussões de gênero e sexualidade podem ser lidas de diversas formas. Acredito que com algumas eu concorde mais do que outras, e todas elas tem a sua legitimidade. Entro em contato com esse tipo de discussão na Universidade e durante toda a minha formação na Educação Básica de Nível Fundamental e Médio tais discussões não eram tratadas, isso não significa que não existiam e que nos dias de hoje não existam. Usamos outra palavra em inglês para algumas ações discriminatórias, popularizada nas escolas e em outros espaços também, conhecida e reconhecida como o bullying. Isso não seria suficiente para que a dita “ideologia de gênero” fosse aprovada nos estados brasileiros? Diante da recusa em institucionalizar essas discussões nas salas de aulas do país, haverá o silêncio? Os currículos são tão rígidos assim? E as frestas que ele deixa? O trabalho de formiguinha não é considerado? Mais uma vez, como e quanto cada um de nós estamos implicado em questões como essas?

Quem discute? Quem escreve? Quem milita nessa/com/por essas causas marginais? Quanto quer? Quanto pode? Quais os caminhos? Como e onde é compartilhado o conhecimento, a discussão? Há mãos estendidas? Há ouvidos para os sussurros e os berros? Há busca para ruminar as questões que coloca em voga questões de gênero, sexualidade e demais demandas sociais? Construções há muito tempo enrijecidas tem seu ponto de ruptura, vamos romper? Queremos romper? Podemos romper? Lutaremos? É, como diz várias vozes em passeatas de alguns ou de quase todos movimentos sociais: a nossa luta é todo dia e, a cada dia mais tenho a certeza que as micro ações são tão potentes quanto as macros. Uma última questão: vamos lutar, pensar, agir e legitimar as questões marginais?

[1] O Grupo foi formado por Irene Bermúdez, Katherine Rebolledo e Vanessa Proença.

Referências

MISKOLCI, Richard. Cap I e II. In: MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autèntica Editora: UFOP, 2012, p. 21-53.

PELÚCIO. Larissa. Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil? Periódicus, 2014, v.01, pp.15-39.


Texto escrito, originalmente, para a disciplina “Gênero e Sexualidade” do Curso de Psicologia da UFRGS,  ofertada pela Profa. Dra. Paula Sandrine e acompanhada por suas estagiárias docentes Daniela Dell’Aglio e Marilía Saldanha. Tal texto é oriundo de uma observação do cotidiano, onde era necessário tratar sobre “(Des) Construções Identitárias” a partir da Teoria Queer. É um texto experimental, baseado nas referências citadas e nas discussões ao longo do semestre.

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