O Acompanhamento Terapêutico é assim…

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Marcado por encontros, com algo e/ou alguém que não se conhece. É como se colocar em uma viagem, onde você pode até saber o destino, mas o mapa que você tanto viu por algum aplicativo ou uma tela do computador vai ganhar um olhar-lupa e mostrar detalhes possíveis somente com os encontro.

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Um fazer com. Se você fosse uma espécie de brinquedo, em meio a uma roda com pessoas desconhecidas e, além disso, fosse lançado/a de mão em mão, de olhos fechados, haveria confiança? A resistência do seu corpo e “alma” seriam leves e entregues o suficiente para seguir o ritmo de um/a outro/a? Se seus olhos fossem vendados e tivesse que andar por aí, com outra pessoa, você iria? E o seu território comum, a cidade que você habita e pode ser desconhecida: consegue andar por ela e talvez com ela? O fazer com não diz respeito só ao saber que encontramos nas nossas grandes referências bibliográficas, o fazer com é conosco, com o outro que acompanhamos e que, de certa forma, nos acompanha também.

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Marcado por respeito antes, durante e depois de entrar no palco. Aprendemos nessa caminhada, com o palhaço. Seu nariz não é colocado à toa. Ele não é tocado a todo o momento, há distanciamento. Quando confronta o seu público, as reações são ímpares. Ou melhor, pares: com os outros gque estão a sua frente. Lança-se ao desconhecido. Pode até ter uma caixa cheia de objetos para compor a cena, para entretê-la e entende-la, mas, às vezes, há a surpresa.  Parece-me que ela, a surpresa, é como aquela primeira mordida de churros: extremamente gostosa, um profusão de sabores, e só ao longo da degustação, com certa calma, cada sabor encontra o seu lugar. Alguns outros são perdidos, mas não há a pretensão de dar conta de tudo. Para tentar isso, sempre há outro churros, outra cena, outro território e assim o caminhar continua.  Por mais que pareça, não é solitário.

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Permitir que o outro entre: na sua casa, no seu cotidiano, naquilo que te compõe e muitas vezes ficam guardadinhas como algo precioso ou muito dolorido. As janelas e portas são abertas e muitas vezes, por mais difícil que seja aceitar, fechadas inesperadamente. É um trabalho sempre entre: entre a casa e o serviço de saúde; entre o esconderijo e a imensidão da cidade; entre a margem e o centro. Entre acompanhante e acompanhado e, de entre em entre um desterritorializar, intenso, constante e, com pouca dúvida, de trabalho paciente.

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Uma maneira de ocupação política dos espaços pela e com a loucura. A margem tem a sua beleza, não tenho dúvidas. Mas, os direitos ditos para todos, sabemos bem que não chegam lá. Quando os sujeitos ocupam outros espaços do/no centro, sejam eles mais próximos ou distantes de suas margens, vozes silenciadas até então aumentam e estranham. É como se algo despertasse instituições, população e cidade e dissesse “Hum, tem sujeito de direito na margem também”. E, mesmo que difícil essa ocupação, mesmo que atravessado por vozes, mesmo que muitas vezes em sua mão haja uma espada ou que ao andar de ônibus o seu comportamento não acompanhe a norma. Há espaço sim para esses sujeitos. Sendo assim, o AT é um dispositivo potente para construir e propiciar vias de funcionamento da rede de assistência pública, para aqueles que ouvem vozes ou para aqueles que não querem ouvir as vozes desses sujeitos tidos como marginais.

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Um tecer intenso e constante. É preciso um fim. Não cabe aqui eu alimentar meu ego e ficar horas a fio dizendo o que eu penso sobre o AT, até porque as afirmações tidas até aqui só me fizeram gerar outras questões. Eu, estranha que sou nessa cidade que tem inverno de verdade. Eu, que nunca tinha pensado outras formas de atuar na saúde pública, vi durante essa caminhada uma nova maneira de poder ser profissional psi. Os encontros ao longo desse semestre mostraram que é difícil esse abrir e se entregar ao outro. Que para isso é preciso que nossas fragilidades também sejam tensionadas. O nosso olhar, nunca vai ser para uma pessoa só, mas para os elementos que compõe a cena do acompanhamento como um todo. O tecer e na caminhada entre os vários entres que irão surgir. E é preciso ir, mesmo escuro ou claro demais, mesmo que a vista esteja embaçada. No horror e no humor sempre há beleza. Porém, fica o desejo de que a lente sempre tenha um sujeirinha que gere incomodo, para ser limpa e novas formas de ver o mesmo sejam possíveis de serem vistas e construídas.


Texto escrito como parte da disciplina “Introdução ao Acompanhamento Terapêutico” na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Lecionada pela profa. Analice Palombini, acompanhada pela profa. Rita Passini e pela estagiária docente Rita Barboza.

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