Livro | A arte de pedir – Amanda Palmer

Sou dessas pessoas que se apaixona por capas de livros. Sou dessas pessoas mesquinhas, que julga pela capa. É pela capa que a minha curiosidade é despertada e é na capa que me encantou que eu fixo os meus pensamentos. Questiono: o que é que esse livro tem?

CAPA_AArteDePedir_WEB (1)

Ora, ele tem o que todos os livros tem: diagramação, algumas letras, talvez imagens. Contém histórias, boas, ruins, intensas ou não. Há coisas que um livro tem que escapa a qualquer resposta então, que cada um tenha sua experiência com esse livro. Eu venho contar da minha.

Amanda Who?

Você sabem quem é a Amanda Palmer? Não? Eu também não sabia. Me encantei por essa capa e, apesar de achar escrita na parte inferior com um quê de auto-ajuda, me joguei na leitura. Mas, antes fiquei um tempo querendo saber sobre esse lançamento, que li depois de um longo tempo, após o primeiro encontro. Fiz umas buscas no senhor google e ele me contou umas coisinhas, mas lendo o livro percebi que ela não era só a esposa do Neil Gaiman.

Ela foi uma estátua viva, em uma das esquinas de Boston. Foi assim que ela aprendeu sobre o pedir, sobre os olhos nos olhos, sobre a troca humana, sobre o dar e doar-se e sobre receber isso de volta, de alguma forma.

Amanda é compositora. É performer, pianista, cantora. Ela teve uma banda, chamada The Dresden Doll. Eles assinaram com uma produtora, venderam 25 mil cópias de um álbum e isso era muito pouco, mas para Amanda e seu amigos de banda não.

Amanda cansou dessa vida de gravadora e produtora: não havia conectividade entre eles. No entanto, ela tinha (e sim, ainda têm) uma imensa rede espalhada pelo mundo de fãs. E foi a eles que ela recorreu, via seu blog e outras redes sociais, para que eles ajudassem ela e sua banda a gravar um álbum independente. Para essa empreitada ela precisaria de 100 mil dólares. E, bom… 25 mil pessoas contribuíram e ela conseguiu mais de 1 MILHÃO DE DÓLARES.

É a partir dessa arrecadação colaborativa – a maior que o site Kickstarter teve –  que ela fica ainda mais conhecida. O TED a chamou para falar em seu palco e dessa fala surge o livro. Sim, Amanda também escreve. Amanda é muitas coisas. Quer saber mais? Leia o livro, aqui só o que fisgou minha atenção, sabe lá o que fisgará a sua, não é mesmo? 🙂

Conectividade, conexão, contato: olhos nos olhos, sentir. 

A arte de pedir trata de encontro. Contato. Olhos nos olhos. Uma arte, de fato. Eu sei, e você que me lê também sabe, que um contato de verdade com outra pessoa é difícil. É espinhento. É vulnerável. Olhar nos olhos exige coragem: quantas coisas um olhar pode dizer? Fazer sentir?

Bauman até diz da liquidez da nossa sociedade, mas será que somos miseráveis demais para nos reduzirmos a liquidez da coisa toda? O filme Her também diz de certa liquidez, ou dessa conectividade que, aparentemente, mais afasta do que aproxima. Será? Será que não há sentimentos? Afetos? Histórias a serem contadas, trocadas, vividas?

Ao meu ver, a sacada que Amanda teve foi a sua relação com o outro. Seja como estátua ou como cantora. Durante horas paradas sob o sol ou se jogando (literalmente) na multidão: ela sempre buscou se conectar de alguma forma com as pessoas que a cercavam. É preciso entrega, cultivo, trocas, conversas, bebedeiras, 140 caracteres trocados ou parágrafos e mais parágrafos contando sobre a sua vida (e lendo sobre a vida do outro também)

Atualmente, a conectividade é reduzida a um gadget. As redes sociais são palcos de debates e compartilhamentos que expõe o que é podre em cada um de nós, e nem percebemos. Sou só eu ou vocês imaginam que um botão de curtir e compartilhar é bem mais do que uma ferramenta de uma rede social? Além disso, sou só eu que olho para os meus contatos no Facebook e sei que de alguma forma eu tenho relação com qualquer uma delas? Que elas não são apenas números? Obviamente, tem pessoas que eu discordo, que eu nem me importo se está de fato bem ou não. Mas, com cada uma delas eu tive contato real ou virtual. Então, até que ponto essa conectividade trata só de números e até que ponto se trata de relações, de fato?

Conseguir um financiamento coletivo com o valor que Amanda conseguiu foi inédito. Quão inédita são nossas relações, hein?

Meu encontro com Amanda

Não, não encontrei ela olhos nos olhos. Só olhos nos escritos.

Não sei se pela fase em que vivo, de uma sensibilidade tal que tudo me emociona ou me enraivece (juro, não é TPM), vários momentos do livro me sugaram, sabe? Me colocaram a pensar sobre como somos uma fraude com nós mesmos, ao não nos arriscarmos em coisas que estão aí, na nossa cara. Como somos ingênuos em não tentarmos t(r)ocar o outro, com o outro, sabe?

As coisas, aqui no meu mundo e como leio ele, não andam bem. É maldade, desespero… são relações tão desumanas que nem sei porque esse mundo existe. Talvez lá em Marte ou Plutão a vida seja mais interessante. Veja só o que acabo de escrever: é só mais uma forma de fugir, de não me relacionar, de não me lançar.

A coisa que mais tenho medo, pasmem, não é de morrer ou que as pessoas próximas a mim morram, mas sim me sentir vulnerável e exposta. Mas, olha que contradição, escrevo em um blog, coisas bem pessoais até, e tenho medo justamente disso.. vá entender. Quem dera eu fosse artista….

É o seguinte: todo mundo parte de alguma carência. Queremos que nos vejam, nos entendam, nos aceitem, se conectem com a gente. Todos nós queremos que acreditem na gente. A única coisa é que os artistas costumam ser mais… veementes a respeito disso. (Trecho do livro)

Amanda diz que não é fácil sermos nós mesmos. Que construir relações não é uma coisa muito fácil não, mas é possível e essencial. Ela diz que pedir não é sinônimo de mendigar e as possibilidades são duas: receber um sim ou um não. E bom, a vida segue, não tem escapatória.

Vulnerável talvez seja deixar seu corpo nú correndo o risco das pessoas enfiarem a mão no seu cú! Isso que vamos vivendo, é fragilmente forte e vamos nos incomodando com esse movimento. Mas veja bem: só é tão vulnerável quem confia. Há confiança?

Muitas vezes me perguntam: Como você pode confiar tanto nos outros?
Confio porque é a única maneira que funciona.
Quando aceita a ajuda de alguém, seja em forma de comida, acomodação, dinheiro, ou amor, você tem que confiar na ajuda que é oferecida. Não dá para aceitar as coisas pela metade e entrar na casa com a guarda levantada.
Quando você confia aberta e radicalmente nas pessoas, elas não só cuidam de você, como também tornam suas aliadas, família.
Às vezes as pessoas se mostram inconfiáveis.
Quando isso acontece, a reação correta não é: Porra! Eu sabia que não podia confiar em ninguém!.
A reação correta é: Tem uns que são uns bostas.
E segue-se em frente.
” (Trecho do livro)

Seguimos: pedindo, vivendo, aprendendo, errando, sendo..

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3 comentários sobre “Livro | A arte de pedir – Amanda Palmer

  1. Vane este foi um dos seus textos preferidos que eu li até este momento. Falar sobre livros é tão difícil. Acabo sempre falando da minha experiência, acabo falando de mim. O livro tem tantos benefícios, te ocupa, te ensina, te diverte, te faz refletir, etc. Mas também faz você poder dialogar com o outro, ou para contar sobre o que leu, ou para dialogar com o outro, vendo outras linhas da história. O livro no geral funciona sempre como uma ponte.

    Sobre o seu medo, acho que estava pensando nesses dias sobre isso… O quanto nos incomodamos com a vulnerabilidade. Estar vulnerável para mim é estar desprotegido. Mas do que? De quem? Do outro ou de nos mesmos? È medo que o outro veja ou aponte a nossa ferida? Medo de não estar no controle? Temos controle de algo? Estar em um relacionamento é falar e ouvir. Falar o que as vezes não falamos nem para nos mesmos e ouvir aquilo que não esperávamos. E se atravessar? Dá mesmo! Mas quem vive sozinho? Sozinho mesmo? Ninguém. Somos animais sociais. Mas de uma coisa eu tenho certeza, como tudo na vida, só aprendemos se praticarmos. Só aprendo a dirigir se praticar. Vou ter ataque cardiaco. O carro vai morrer no meio de todo mundo. Você vai ficar com vergonha quando tentar estacionar. Vai ver todo mundo sabendo menos você. Mas só vai aprender se correr todos os riscos. Se tentar.

    Por fim, sabe uma coisa que eu faço? Eu olho as pessoas na rua e tento imaginar qual seria a vida dela. Se ela esta feliz, triste. Estas coisas. Fazer isto me lembra que todos nos realmente somos iguais. Temos medos semelhantes. A cena classica disso é quando vemos aquele conhecido e ficamos “Será que eu cumprimento, ou não? E se ele não responder? Bafão”. E a pessoa do outro lado está pensando o mesmo. SOMOS MUITO ENGRAÇADOS E RIDÍCULOS AO MESMO TEMPO.

    • Ei!!
      Não esqueci do seu comentário não. Aliás, tenho pensado tanto nele… tanto nessa questão da vulnerabilidade. O que é, o que significa para mim, como e porquê me atravesa… e, óbvio, porque eu tenho medo. Acho que em algum momento escrevo sobre isso 🙂
      No entanto, acho que vulnerabilidade, independente das minhas questões mais tensas e que não consigo respondê-las, é isso que você disse ao final do exemplo: é ser engraçadamente ridículos.
      Beijinhos.

  2. Pingback: Vulnerabilidade, diga-me do que se alimenta? | Blog da Van!

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