Vulnerabilidade, diga-me do que se alimenta?

O meu último texto aqui, nesse espaço público que se relaciona diretamente com o meu mundo privado, eu contei sobre o livro “A arte de pedir” da Amanda Palmer. Eu gostaria de escrito várias coisas sobre o livro, e acredito que escrevi algumas coisas interessantes sim. No entanto, o que mais me assustou foi como eu coloquei a questão da vulnerabilidade. Desde então, só consigo pensar e questionar sobre o que é vulnerabilidade. E, provavelmente, esse vai ser mais um monólogo, porém, compartilhado.

vulnerável
vul.ne.rá.vel
adj m+f (lat vulnerabile) 1 Que se pode vulnerar. 2 Diz-se do lado fraco de um assunto ou questão, e do ponto por onde alguém pode ser atacado ou ofendido. 3 Que dá presa à censura, à crítica. | Fonte: Dicionário Michaelis Online

Aprendi em uma das aulas de Psicologia que, muitas vezes, há pacientes/clientes que chegam aos consultórios sem nomear o que sentem, pois não sabe que nome tem aquilo que sentem. Percebi, com o post anterior, que eu não sabia de fato o que é vulnerável ou o que é vulnerabilidade e, se o que eu sentia diante de algumas situações é de fato isso. Enfim, o nome e o sentimento são compatíveis.

Vulnerável vem do latim vulnerabile-, com idêntico sentido de «que, ou por onde, pode ser ferido». Quanto a vulnerabilidade, é a qualidade de vulnerável e provém do mesmo étimo, com o sufixo -idade. Os seus contextos, como é evidente, têm de se relacionar com os significados destes dois termos, por exemplo: «Fulano é muito vulnerável», isto é, pode facilmente ser ferido, tanto física como moralmente. | Fonte: Ciberdúvidas

De fato eu acho que posso ser facilmente ferida. Tenho medo ser o lado “fraco”, de ser ofendida e receber críticas pesadas. Tenho medos que me paralisam. Tenho medo da vulnerabilidade e é esse medo que me torna vulnerável. Talvez seja engraçado, mas isso faz com que eu erga mil e uma barreiras. Isso faz com que eu não tome nenhuma atitude e assim ame a minha zona de conforto (para depois reclamar da monotonia). Acredito que as coisas não são piores, por em alguma medida eu enfrentar os meus medos e, assim, não aparentar ser fraca demais.

Esses medos existem, e vou caminhando com eles. Talvez, hoje eu pense mais sobre a vulnerabilidade, mas ela está comigo – não se assusta não, mas com você também – desde que nascemos. Em grau mais ou menos intenso. Quando nascemos, estamos vulneráveis ao mundo e as construções que já existem nele. Não sabemos qual será o nosso lugar na cadeia alimentar e de medo em medo, de erro em erro, de felicidade em felicidade, vamos nos constituindo.

Acredito (hoje, amanhã não se sabe) que ser/estar vulnerável tem ligação com o reconhecimento de tal sentimento (conceito, palavra, qualidade ou qual o nome que você queira dar a isso). Ao reconhecer os pontos vulneráveis que temos é como um desabar, quase sem fim. Quando há esse reconhecimento, é um sinônimo de reconhecer também a sua pequenez e que por mais que haja construções suas para se proteger disso, chega um momento que não dá. Até aqui, tudo bem! Mas, parece que cada vez mais vivemos em uma sociedade que ser triste, fraco e, até mesmo vulnerável, não pode não! Temos que ser felizes vinte e quatro horas por dia e, caso não consiga, há vários recursos fornecidos pela indústria capitalista para a sua felicidade artificial.

Já escrevi isso algumas vezes: acredito que os conflitos pessoais muitas vezes se resumem em uma luta de você contra você mesmo. E, quando há um casamento seu, com você [1] , as coisas podem ser melhores, embora isso não signifique sem dor. Até aqui, falei sobre a vulnerabilidade no plano individual. Óbvio, esse é um blog pessoal e eu sou um tanto narcísica. Sorry, I can’t be perfect! 

No entanto, também durante as minhas aulas na Psicologia ouvi muito falar sobre “grupos vulneráveis”. E, quando eu fui pesquisar sobre o significado da palavra vulnerável, me encontrei com essa definição abaixo e ouvi uma voz falando: queridinha, seje menas e preste atenção que tal questão está além do seu próprio umbigo.

A vulnerabilidade é a qualidade de vulnerável (que é susceptível de ser exposto a danos físicos ou morais devido à sua fragilidade). O conceito pode ser aplicado a uma pessoa ou a um grupo social conforme a sua capacidade de prevenir, de resistir e de contornar potenciais impactos. | Fonte: Conceito.de

Então, eu, você, e diversos grupos sociais vivemos situações de vulnerabilidade. Eu não tenho fôlego ainda para escrever sobre a vulnerabilidade social, ou como eu lido com todas essas coisas incomodas no mundo. No entanto, a cada instante acontecem coisas para as quais não nos sentimos preparados, algo que nos atravessa, que nos mostra nosso melhor e pior. E sim, temos que encontrar nossas formas de lidar com isso. E não é sem questionamentos que isso vai ocorrer, sem nos olharmos no espelho e percebermos nossas imperfeições e feições belas.

Mas, será que queremos nos olhar no espelho? Temos força para isso? Você, aí do outro lado que me lê, tem coragem de aceitar que, às vezes, não tem problema nenhum se jogar em algo que pode te ferir? (será que eu sei?) Você sabia que é só se jogando que vai saber o que pode ferir ou não? Olha só, tem remedinhos para a ferida, seja um band-aid, uma conversa ou simplesmente o tempo.

O problema, acredito eu, não é ser vulnerável, mas sim fugir e não querer encarar as suas próprias fraquezas. E, no final das contas, não é a vulnerabilidade que deve responder como se alimenta, e sim nós, respondermos como alimentamos nossa vulnerabilidade.

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[1] Obrigada, Victor, por compartilhar aquilo que você ouviu. Fez sentido para você, e para mim também 🙂
* Tay, isso aqui tem muito de mim, mas acredito que tenha um pouco de nós, das nossas conversas. Obrigada.

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