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E foi possível olhar de fato. Contemplar céu, ar, água. Depois da intensidade vem a calmaria? Amedronta. Os dias passando e toda a energia – aparentemente – investida em escolhas que só trouxeram a tona mais vazio. Vazio que libera espaço para coisas outras?
Vazio? Ou véu que tapava outras coisas foi retirado?
É o óculos ajudando a míope?
É a ansiedade de resposta para tudo que tudo consumiu?
Com sorrisos em meios a gritos silenciados repito e ouço: calma, menina. Você tem outros dias, outra chance, outras brigas, e sim… Outros vazios.

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Miopia

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Eu sou míope. Se me perguntarem quando eu comecei a usar óculos não vou saber ao certo. Houve um dia em que a minha professora de alguma série inicial chamou a minha avó para conversar quando ela foi me buscar na aula. Disse: “preste atenção nos olhos da Vanessa, quando ela copia do quadro ela força a vista, acho que ela tem que ir ao médico”.

Acho que já vivi mais tempo com óculos do que sem. Diversas vezes tive que responder o motivo pelo qual uso óculos e para mim sempre foi bem óbvio: para enxergar melhor. Será? O que ao longo de todos esses anos eu tenho enxergado mesmo? O que eu tenho me permitido ver, olhar, enxergar? Eu me vejo?

Tem dias que eu penso: será que em algum momento eu vou parar de fazer tantas questões? É, minhas questões eram tolas – talvez ainda sejam – porque eram sobre qualquer coisa, menos eu. Agora, as minhas questões me afogam, mesmo eu sabendo que elas não precisam ser protagonistas das minhas cenas e cenários.

Na pele sinto o que brando aos ventos “no final é só você contra você mesmo”. Não, não está tendo fim. Está acontecendo, e me parece enfrentamento. De novo: o que vejo? Quero ver?

É inegável o conforto da cegueira, da ignorância. Não consigo ser e estar a maré. Tenho que dar mergulhos profundos. Tenho?

Há desejo de ver coisas outras. Há desejo de fatalmente me olhar em frente ao espelho. Enxergar sorrisos e feridas. Sentir (mais ainda). Muitas vezes penso: chega de tantas desculpas. Não consigo. Aos poucos vou colocando os óculos e enxergando algo ali, outro acolá e isso incomoda e tento, talvez e ingenuamente, lidar. Será?

Vejo de longe e não chego perto. Fantasio, imagino e é fértil. Mas assim, de longe. Sem olhos nos olhos. Não, por favor não. Ainda não há coragem para isso. Haverá?

Repouse, caro óculos. Outra hora volto a lhe usar – ou você colará em mim, sem pestanejar? Afinal, ainda forço as minhas vistas para ver coisas, sejam letras, seja eu. Sem ter rota de fuga planejada, se você vier eu te deixo repousar [eu acho]. Continuará havendo embate, mas talvez seja essa a nossa relação. Uso óculos por quais razões mesmo? Em me ver, há desejo. Sustento?