Deriva

2847b74affec03bbd87216c9c9e9171f

Lembrei, dia desses de uma cena de infância: ao tomar banho de chuva – mesmo com o aviso da minha mãe de que eu poderia cair e me machucar – acabei escorregando no meu quarto e batendo a minha cabeça na cabeceira da cama. Ganhei a minha segunda cicatriz no rosto. Durante as semanas seguintes, o corte nem tão fundo e nem tão superficial foi cuidado, ora pela minha mãe, ora pelo meu pai. Certo dia pedi para o meu pai que me mostrasse o curativo que ele tirou depois de uma manhã, para substituir por outro, antes de eu ir para a escola. Ele o fez e quase desmaiei. Naquela época acho que eu não sabia lidar com sangue – mesmo que o meu – e nem com uma ferida em cicatrização.

Quem dera não saber lidar com o meu sangue, com as minhas feridas abertas ou em cicatrização tivessem ficado lá, naquela época em que alguém cuidava delas por mim. Essa cena parece que está sendo revivida com certa frequência. A vida acontece e eu, em meio a ela, tenho os curativos tirados, mostrados e esfregados na minha cara. Outras vezes, eu passo a mão descuidada sob a ferida e eu me lembro dela, porque dói. Há também aqueles dias que novos cortes são dados e se aconchega em outros tantos que nem me recordo que existe.

Era mais fácil quando eu só reclamava da zona de conforto. Agora, ela está sendo tensionada, provocada. Há mal estar. Eu gostaria muito de ter alguém para culpar, alguém para resolver. Mas, se eu ousasse ou tivesse coragem de olhar-me no espelho encontraria facilmente a resposta de quem pode tentar fazer alguma coisa.

O não ver, o manter-se nesse conforto que traz algum prazer. As portas fechadas, as frestas de luz das janelas abertas e prontas para serem fechadas rapidamente. Tentativas em vão de alguma entrega. É, tentativas. Mais uma repetição do sangue que corre nessas veias e vez ou outra escorrem e eu não consigo lidar: há abertura para de fato encarar as coisas? Há, de alguma forma, desejo e investimento para que isso aconteça mesmo que gradativamente?

Pensando bem, acredito que era mais fácil quando se reduzia a palavras essa história de ser “você contra você mesmo”. Em meio ao amadurecimento e as coisas que tenho aprendido – especialmente aquelas sobre mim e que me desorganizam completamente – talvez eu fique com algumas coisas que a música Dança diferente – Maglore, me coloca a pensar: de alguma forma eu vou ter que seguir em frente (ou eu posso ficar algumas vezes só na minha cama, não tem problema nenhum) e, enfim “a gente ri de si para não chorar/ como uma dança diferente / enlouquecendo para se curar”.

Seja lá qual for a cura, se houver cura, o desafio vai ser baixar a guarda. Abrir os braços e receber abraços, dar abraços. Entender, que é um momento em que decisões, sentimentos e o viver em si é bem singular, mas não precisa ser desacompanhado. Com corpo, com fala, com pensamentos, com lágrimas me desafio a dançar diferente, ou ao menos me permitir reposicionamentos e novos olhares, escutas, silêncios, sorrisos, vida e feridas. Mesmo que para isso tenha que aceitar, de fato, que viver talvez seja estar à deriva.

Anúncios