Sobre a nova idade

14681113_1367932303218589_6616626063292883843_o

foto: @victorzandonadi

Com 24 anos eu imaginava estar em outro lugar. Essas coisas que são introjetadas em nós ao longo dos anos por diversas fontes fazia parte desses ideais: casar e ter filhos; ter uma vida financeira estável; comprar a casa própria e o primeiro carro; viajar no meio do ano e no final, por favor. Desses ideais o que resta é a morte deles, cada vez mais.

E bom, eu preciso escrever sobre o morrer de algumas tantas coisas. Em nossa sociedade a morte é algo que não sabemos lidar (me conta como vocês conseguiram lidar com ela?). Ela está relacionada sempre a morte de alguém, e não de algo. Se não se fala muito da morte de pessoas e a nossa forma de lidar com elas, quiçá com a morte de momentos, de ciclos, de formas de sermos e sofrermos, não é mesmo?

Então, a minha nova idade chegou cheia de morte. Cheia de luto. Cheia de fim. Pois, meus caros, eu acredito que a morte é sinônimo de fim e nos deparamos com fins a todo momento. Antes da chegada dos meus 24 anos eu terminei uma graduação. A cada dia eu tenho que dar “tchau” para pessoas que estiveram bem pertinho de mim nos últimos cinco anos, ou no último ano e isso me lembra mais uma vez do fim. Não da amizade, mas de um ciclo. Finalizo em meio a festas e percebo o quão maravilhoso é dizer “tchau” para um momento com celebração. E isso envolve sim momentos de drama, choro. Isso envolve sentir o que se vive.

A minha nova idade chega cheia de fim, para me mostrar o vazio. E isso, em certa medida, chega a ser enlouquecedor. Eu não sou nada daquilo que eu imaginava ser. Eu estou muito velha para qualquer coisa. Eu não dou conta. Eu não consigo. Eu não vou. Eram essas as coisas que rondavam e, vez ou outra, me assombram. Foi necessário mais uma vez pensar sobre tudo isso.

Os meus ideais para mim não são mais esses. O meu ideal, hoje, é sentir as coisas e não racionalizá-las como sempre fiz. O meu ideal é perceber o que o meu corpo, pensamento e ações estão sentindo, sendo e como eu estou em meio a isso. Vejam, foi preciso morrer algumas coisas, para outras tantas chegarem.

Assim, em meio ao luto eu tive que parar e sobrevoar pelos momentos desse último ano. Eu fui embora e voltei. Eu tive que começar de novo em um lugar que sempre me foi familiar. Eu percebi que eu tive que, por necessidade e desejo, deixar algumas coisas para trás e respirar. Aceitar que tudo bem eu não ser o ideal do outro e assim me colocar a pensar: qual o meu ideal? o que de fato eu quero ser? precisa ser tudo agora? as coisas são sempre urgentes? As coisas são breves, ímpares e se eu ficar me preocupando em ter a resposta eu não vivo as perguntas.

Os outros podem ser cruéis. Nesse último ano o nível de intolerância e silenciamento no meu país tem aumentado. E, em meio a isso eu escolhi ter um espaço semanal para eu me escutar. Já experimentou isso? Também é um pouco enlouquecedor. Os meus textos sempre diziam de ser eu contra eu mesma, no final de qualquer conta. E isso era muito racional. Agora eu vivo isso. Ora contra, ora com, mas comigo. Estar comigo me permite estar com os outros que são pessoas próximas ou distantes. Que eu tive vários momentos ou instantes. Pessoas que me ajudam a ser quem eu sou, mesmo isso sendo uma questão para mim. Poder experimentar o sabor da amizade é algo que eu desejo para as pessoas e isso, exige abertura. Descobrir que se abrir é possível é mais uma dessas coisas que aprendi durante esse último ano. Aprendi, que mesmo em meio a situação caóticas eu tenho alguns outros e sou o outro de alguém, e isso é muito delicioso. Sem mais silenciamentos, pois todas essas coisas eu não preciso viver sozinha.

Para receber a nova idade, aos poucos fui me abrindo. Tirando teias, jogando coisas foras e outras ainda estão aqui: e tudo bem. Para a chegada do novo ano tive que soltar: o sorriso, o cabelo, aquilo que não fazia mais sentido. Tive e ainda tenho que me deparar com o vazio, com o nada. Hoje eu não sustento mais a imagem de que sou forte e aguento tudo. Hoje eu me permito expor a fragilidade que habita aqui. E tudo bem, somos fracos muitas vezes.

Para a chegada da nova idade eu tive que aprender com as pequenas mortes cotidianas. Afinal, nem sempre a morte chega do nada. Eu continuo entre mortes, lutos e tanto outros começos. Espero que quem lê possa conseguir experimentar isso também.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s