Escrito sobre amizade e não só

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Há dois anos atrás eu me sentava na frente do computador, não sei bem qual horário. Não sei também por qual razão, mas naquele dia eu resolvi escrever sobre amizade. Cá está o escrito: Ei, é para você mesmo.

Hoje, eu me sento na frente do computador, após o dia todo pensando nesse texto. Afinal, o Facebook me lembrou que eu o havia publicado. Hesitei em ler, por medo de olhar para o que já pensei, mas o encarei. Ah! Se não tivesse experimentado tanto sobre amizade no ano anterior, talvez hoje eu não estivesse aqui.

Eu ainda continuo amando os encontros inesperados com aqueles que de alguma forma já cruzaram o meu caminho. Aqueles que eu vejo, dou e recebo abraço cheio de afeto e que me fazem pensar “eu amo essa pessoa”. No entanto, marcar encontro, ser encontro e estar presente com amigos, independente da intensidade da amizade, tem sido mais interessante. Porque amizade é estar junto.

Eu continuo grata pelas pessoas que passaram pela minha vida, pelas pessoas que permanecem nela. E se isso é clichê, tudo bem, sabe? Clichê, a meu ver, se trata do singelo. Daquilo que se repete e muitas vezes se banaliza. A repetição entra como possibilidade de criar, em algum momento, novas significações. E, é com o outro, que isso se torna possível. Porque amizade é criar junto.

Não, não vamos mais falar sobre friendzone. Hoje, dois anos depois, isso me soa tão ridículo. Soa silenciamento: não falar sobre os sentimentos – muitas vezes confusos – porque, afinal, uma amizade pode ser perdida. Porque confusão sentimental entre amigos não pode acontecer. É ficar quieto e viver a angústia do não saber. Por que mesmo?Amizade é poder falar sobre as coisas. É poder sentir. É poder se permitir viver algo e, junto com, ter a possibilidade de significar isso. Porque amizade, meus caros, é poder conversar  independente do teor, do humor, do amor.

Se amizade é conversar, então sim, vamos falar sobre a famigerada “discussão de relacionamento”. Não sei no mundo onde você vive, mas no meu, as conversas sempre foram um tanto escassas. Mas, chegava determinado momento de qualquer relação que eu pegava o pingo e gostaria de colocar no “i”. As cartas eu gostaria de colocar na mesa. Falar e escutar. Isso foi morrendo e entrei na lógica de “ai, que chato isso, mas necessário”. Amizade é relacionamento. Construído dia após dia. É falar o que está muito bom, mas também aquilo que incomoda. O problema de falar é se escutar? Talvez. Mas, ninguém tem bola de cristal, nós não somos o centro do mundo de ninguém. Seria interessante, mas ninguém tem o seu manual de instrução, nem nós o temos. Então, sim, percam o medo da DR, tenha uma conversa franca com o outro que você quer por perto. Pode não ser fácil, mas sempre é possível desde que se queira.

Por algumas razões, em meio a essas relações de amizades – e outras nem tantas -, e também pela forma com a qual eu fui me virando na vida, algumas armaduras foram sendo acopladas a mim. E eu, por muito tempo – e ainda hoje, em determinados momentos e situação – escolho ficar com elas. Você também? Vestir armaduras para não deixar ninguém entrar? Há o momento que você percebe que ninguém entra, nem você.  Então, é preciso se deparar com as suas limitações e tudo bem ser grossa e estar com a cara fechada, mas isso é porque você é assim ou é para afastar as pessoas? Qual é o problema de se mostrar frágil e vulnerável para o outro? Não somos isso, seres vulneráveis? Cansada de estar só, me permiti despir.

Ao despir, novas vestimentas chegaram. E ela é recheada de fragilidade. Ela é recheada de sentimentos e, sim, uma certa confusão. Tem de diversas formas, intensidades, gênero e humor. E mesmo que o medo da solidão ronde e que pensamentos de “não ter ninguém no mundo” apavore, é possível viver, pois quem chega dá força; quem chega, segura. O que aqui chegou foi, de fato, a amizade. Com intensidade, profundidade, presença e também uma certa ausência implicada.

Assim, amizade é ouvir “obrigada, você disse o que eu precisava ouvir”; é dizer “eu não sei o que estou sentindo, está confuso”; é afirmar “eu estou aqui porque eu quero, então, vamos juntos!”; é pedir “me dá colo?” e receber; é “coça aqui para mim? faz massagem? passa protetor solar?”; é ouvir e dizer “eu aprendo muito com você”; é se certificar sobre o quão inesperada é aquela relação através de um “sabe quando eu imaginei que a gente estaria aqui? nunca”.

Amizade é intimidade. Amizade é mão estendida independente se é tempestade ou calmaria. Amizade é relação. Amizade é teor, humor e amor. Amizade é, nesse momento da minha vida, abertura para poder sentir, viver e com o tempo significar. Amizade é, enfim, ir.