Carta aos estudantes de Psicologia

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Caras e caros colegas, amigos/as, professores/as e público aqui presente,

O objetivo dessa mesa é que a gente responda perguntas cujo eixo temático é: “formei, e agora?”. Além disso, a comissão organizadora pontua que o objetivo da mesa também é compartilhar “as barreiras e anseios de um recém formado em psicologia na UFMT”. Parece amável, mas é quase uma cilada tal objetivo, pois para estar aqui hoje eu tive que me colocar a pensar sobre, no mínimo, esses nove meses pós a conclusão da minha graduação. E, acreditem, nos haver com nossa própria história exige de algum modo, mas acaba por ser gratificante.

Vamos lá! Vocês estão diante de cinco pessoas que passaram pela graduação aqui na UFMT, em momentos distintos e singulares do curso. Parece que estamos vivos e bem, dentro daquilo que nos foi possível depois que nos graduamos. Acredito, então, que vocês também estarão vivos e minimamente bem quando o fim e o depois chegar, resguardando a singularidade de cada processo.

A meu ver, as barreiras e anseios de um recém formado, ou ao menos as minhas barreiras e anseios, foram atravessadas pelo simples fato de ter que lidar com o fim. Eu fui convocada a encerrar um ciclo que eu sabia que tinha seus cinco anos para acontecerem, mas que eu os vivi sem preparo para esse momento. Mas, me digam, quando é que a gente vai estar completamente preparado? Hoje, pensando que a minha colação de grau se deu no dia 1º de novembro de 2016 e que no dia seguinte foi dia de finados, achei bem simbólico. Afinal, tinha sim um luto para lidar diante daquilo que se acabou.

Foi barreira lidar com o fato de descobrir outro local ao qual pertencer, afinal, não era mais estudante de psicologia da UFMT. Foi barreira lidar com os adeus aos amigos e amigas que retornaram a sua cidade natal, que foram para outro estado viver sonhos, ou melhor, realidades. Foi barreira e anseio pensar: como é que mantenho os laços? Como é que desfaço os nós? Bom, e vocês? Quais são as relações e laços que estão constituindo ao longo do seu percurso acadêmico? Como elas são dadas? Há abertura, disposição e disponibilidade? Há, prestem atenção, escuta? Escuta de si, do outro, dos desejos de vocês, da conjuntura política, histórica, social e cultural que estamos inseridos? Porque esses elementos me parecem fazer parte do “ser psicóloga”. Muita coisa? Ao menos para mim, no meu fim, foi.

Acredito que a graduação e a formação de maneira geral é constante e insuficiente. Então, no meu fim, tive que lidar com a angústia de pensar algo simples e intenso: o que eu quero? O que eu dou conta de fazer? O que aprendi durante 5 anos que me ajuda a dar os próximos passos? Durante a graduação eu nunca passei pelo hospital Júlio Müller em nenhum dos estágios. Quando fui fazer minha matrícula, me perdi. No entanto, nos últimos dias de fevereiro quando efetivar minha matrícula, saí de lá com a certeza de que aquele era o local que me sentiria desconfortavelmente a vontade em estar. Dessas coisas que a gente não sabe dizer e só sentir.

Eu não sei muito bem como eu escolhi fazer residência. Minha trajetória acadêmica sempre me levou a vida acadêmica, a ser uma mestranda, doutoranda e quem sabe professora. A pesquisa me apetece, não a toa grupos de pesquisa e extensão estão presentes no meu currículo Lattes. Mas, o Lattes não mostra a singularidade do que foi vivido em cada trabalho, em cada grupo. Não mostra como eu fui feliz, mesmo em meio a conflitos, em cada coisa registrada na plataforma. Meus olhos brilhavam a cada coisa que fazia. Frente a minha trajetória acadêmica, posso dizer que o Hospital seria – e é – o local que me dá certa estabilidade financeira e, principalmente, me desafia. E, mesmo assim, me faz feliz.

Espero que vocês conheçam Frida Khalo, pois é dela a frase que diz algo como “onde não houver amor, não te demores”. Bom, ainda almejo voltar de fato para a carreira acadêmica. Mas, é fundamental para esse momento da minha vida profissional lidar com várias áreas do conhecimento da Saúde e ter que afirmar todo o dia qual é o meu lugar enquanto profissional de psicologia. Pois, é frente a esses questionamentos que a minha identidade profissional é constituída e, principalmente, transmitida. Eu queria, lá no meu fim, aguaçar a minha escuta. E, minhas caras e meus caros, o Hospital é campo fértil para isso. Quando me perguntam: como está a residência? Além de responder que está incrível, eu respondo que aprendo a ser humilde frente as escutas que realizo. Porque muitas vezes ser psicóloga é só escutar e, pasmem, isso é suficiente.

Então, retomando a Frida, eu preciso frente ao meu modo de ser e também de sofrer estar em meio a coisas que me arrepiem o corpo, que me fazem brilhar os olhos, que fazem meu coração pulsar, assim eu consigo demorar, ao menos até 2019, quando a residência chegará ao fim. Veja só, daqui um tempo terei que me haver com meus desejos de novo. Por hora, consigo demorar e entender que ser residente de psicologia é me posicionar, é responder por mim mesma e andar com as minhas próprias pernas. É a cada dia crescer e acreditar, junto com as demais psicólogas residentes, que sei a minha função profissional vinculada a ética que nos resguarda. Psicólogas/os geralmente escutam, mas não se esqueçam: é fundamental que a nossa boca se abra para falar daquilo que somos, ao menos, profissionalmente.

Isso é um pouco das minhas barreiras e anseios. Mas, e vocês, quais são as barreiras e anseios? Mas, e vocês, onde querem demorar? Mas, e vocês, o que querem e do que dão conta? Mas, então, o que querem os estudantes de psicologia da UFMT? Mas e vocês, conseguem se colocar a escutar a si, primeiramente, e assim os outros?

Enfim, bom percurso a vocês, dentro daquilo que lhe é possível.
Grata pela escuta e convite.
Com carinho e disponível a conversar em outros momentos com vocês,
Vanessa, psicóloga residente do HUJM, mas não só.


Esta carta foi apresentada durante a VI Semana da Psicologia da UFMT (campus Cuiabá), cujo tema foi “Psicologias em debate: interfaces e atuação”. Participaram da mesa “Egressos da UFMT” junto comigo as psicólogas Luana Peralta, Ruzia Chaouchar e Taysa Castrillon e o psicólogo Victor Hugo de Souza.

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O Acompanhamento Terapêutico é assim…

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Marcado por encontros, com algo e/ou alguém que não se conhece. É como se colocar em uma viagem, onde você pode até saber o destino, mas o mapa que você tanto viu por algum aplicativo ou uma tela do computador vai ganhar um olhar-lupa e mostrar detalhes possíveis somente com os encontro.

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Um fazer com. Se você fosse uma espécie de brinquedo, em meio a uma roda com pessoas desconhecidas e, além disso, fosse lançado/a de mão em mão, de olhos fechados, haveria confiança? A resistência do seu corpo e “alma” seriam leves e entregues o suficiente para seguir o ritmo de um/a outro/a? Se seus olhos fossem vendados e tivesse que andar por aí, com outra pessoa, você iria? E o seu território comum, a cidade que você habita e pode ser desconhecida: consegue andar por ela e talvez com ela? O fazer com não diz respeito só ao saber que encontramos nas nossas grandes referências bibliográficas, o fazer com é conosco, com o outro que acompanhamos e que, de certa forma, nos acompanha também.

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Marcado por respeito antes, durante e depois de entrar no palco. Aprendemos nessa caminhada, com o palhaço. Seu nariz não é colocado à toa. Ele não é tocado a todo o momento, há distanciamento. Quando confronta o seu público, as reações são ímpares. Ou melhor, pares: com os outros gque estão a sua frente. Lança-se ao desconhecido. Pode até ter uma caixa cheia de objetos para compor a cena, para entretê-la e entende-la, mas, às vezes, há a surpresa.  Parece-me que ela, a surpresa, é como aquela primeira mordida de churros: extremamente gostosa, um profusão de sabores, e só ao longo da degustação, com certa calma, cada sabor encontra o seu lugar. Alguns outros são perdidos, mas não há a pretensão de dar conta de tudo. Para tentar isso, sempre há outro churros, outra cena, outro território e assim o caminhar continua.  Por mais que pareça, não é solitário.

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Permitir que o outro entre: na sua casa, no seu cotidiano, naquilo que te compõe e muitas vezes ficam guardadinhas como algo precioso ou muito dolorido. As janelas e portas são abertas e muitas vezes, por mais difícil que seja aceitar, fechadas inesperadamente. É um trabalho sempre entre: entre a casa e o serviço de saúde; entre o esconderijo e a imensidão da cidade; entre a margem e o centro. Entre acompanhante e acompanhado e, de entre em entre um desterritorializar, intenso, constante e, com pouca dúvida, de trabalho paciente.

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Uma maneira de ocupação política dos espaços pela e com a loucura. A margem tem a sua beleza, não tenho dúvidas. Mas, os direitos ditos para todos, sabemos bem que não chegam lá. Quando os sujeitos ocupam outros espaços do/no centro, sejam eles mais próximos ou distantes de suas margens, vozes silenciadas até então aumentam e estranham. É como se algo despertasse instituições, população e cidade e dissesse “Hum, tem sujeito de direito na margem também”. E, mesmo que difícil essa ocupação, mesmo que atravessado por vozes, mesmo que muitas vezes em sua mão haja uma espada ou que ao andar de ônibus o seu comportamento não acompanhe a norma. Há espaço sim para esses sujeitos. Sendo assim, o AT é um dispositivo potente para construir e propiciar vias de funcionamento da rede de assistência pública, para aqueles que ouvem vozes ou para aqueles que não querem ouvir as vozes desses sujeitos tidos como marginais.

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Um tecer intenso e constante. É preciso um fim. Não cabe aqui eu alimentar meu ego e ficar horas a fio dizendo o que eu penso sobre o AT, até porque as afirmações tidas até aqui só me fizeram gerar outras questões. Eu, estranha que sou nessa cidade que tem inverno de verdade. Eu, que nunca tinha pensado outras formas de atuar na saúde pública, vi durante essa caminhada uma nova maneira de poder ser profissional psi. Os encontros ao longo desse semestre mostraram que é difícil esse abrir e se entregar ao outro. Que para isso é preciso que nossas fragilidades também sejam tensionadas. O nosso olhar, nunca vai ser para uma pessoa só, mas para os elementos que compõe a cena do acompanhamento como um todo. O tecer e na caminhada entre os vários entres que irão surgir. E é preciso ir, mesmo escuro ou claro demais, mesmo que a vista esteja embaçada. No horror e no humor sempre há beleza. Porém, fica o desejo de que a lente sempre tenha um sujeirinha que gere incomodo, para ser limpa e novas formas de ver o mesmo sejam possíveis de serem vistas e construídas.


Texto escrito como parte da disciplina “Introdução ao Acompanhamento Terapêutico” na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Lecionada pela profa. Analice Palombini, acompanhada pela profa. Rita Passini e pela estagiária docente Rita Barboza.

Quando a Teoria Queer vai ao supermercado

Sobre a cena

Qual cena do cotidiano poderia ser estranha e, além disso, por a pensar sobre “(Des) Construções identitárias”? Qual espaço poderia causar estranhamento, onde identidades sólidas, construídas socialmente estavam em movimento de desconstrução por meio de ações e pensamentos da Teoria Queer?

Alguma palestra? Algum grupo de estudos? Algum espaço fora da Universidade onde tal temática fosse tratada? Poderia ser, mas não foi. Escolhemos[1] o lugar no qual vamos ao menos uma vez por semana: o supermercado Zaffari, localizado na rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS.

Chegamos por volta das 9 horas da manhã de uma segunda-feira e lá percebemos uma movimentação tranquila. Havia homens e mulheres, obviamente. Foi possível observar (ou seria dar mais atenção?) a algumas situações: a função de caixa era exercida somente por mulheres, e o carregamento de caixas ou empacotamento dos produtos por homens. Sim, encontramos sessões onde o binarismo é claramente marcado por cores, por imagens, por slogans. Homens acompanhados de listas de compras; mulheres que já conheciam o caminho para corredores específicos de cór. Idosos e idosas, adolescentes, jovens e adultos: aparentemente um local de convívio democrático.

Sendo assim, nossa cena não é estranha, é corriqueira. Porém, com o auxilio das discussões tida na disciplina de Gênero e Sexualidade, conduzida pela profa. Paula Sandrine e suas estagiárias docentes Daniela Dell’Aglio e Marilía Saldanha questões foram colocadas em jogo. Questionar o cotidiano, a partir de algumas teóricas Queer foi um movimento interessante. Afinal, não é disso que se trata? Olhar para o mais do mesmo e fazer uma releitura de tal cena sob a ótica de uma teoria? Me parece que sim. Isso não significa que encontramos ou pretendíamos encontrar respostas diante de ene problemáticas. Significa colocar o pensamento em movimento. Pensar, rascunhar críticas, exercitar de certa forma a empatia com o outro e questionar, sempre. As questões incitam movimento – de pensar e agir –, acredito eu, e sem elas a observação não faria tanto sentido.

É difícil, depois das discussões, da observação e da disciplina como um todo, olhar para propagandas de produtos vendidos em estabelecimentos como o observado e não imaginar que a mídia tem influência sim, e tem uma força discursiva impar na marcação (ou seria segregação?) binária dos sexos. É impossível olhar propagandas que mostram casais gays e lésbicos que realizam gestos de afetos e não questionar até que ponto isso é à favor de uma causa ou é só (mais um) jogo midiático e capitalista. Talvez, o questionar venha com esse cunho crítico. Mas, para fazer algumas afirmações ao longo desse escrito, a partir da observação do cotidiano descrito brevemente acima, é preciso demarcar o meu lugar de fala.

Quem fala e de onde fala

 Por muito tempo não me sentia implicada em discussões sobre gênero e sexualidade. Questões políticas então? Jamais! Acreditava que quanto mais quieta e longe de discussões desse cunho, melhor. Até começar a entender que o silêncio também marca um posicionamento, um lugar de onde o seu pensamento e ações são produzidos e com esse território não estava mais contente.

Foi durante algumas disciplinas realizadas no semestre de 2015/1 no curso de Psicologia da UFRGS que discussões com essas temáticas me atravessaram e, com a absoluta certeza, continuará como um sussurro ou um berro por muito tempo em meus pensamentos e ações.

Eu, mulher heterossexual, cisgênero de classe média me ponho a escrever aqui sobre questões de gênero e sexualidade. Principalmente, como a observação do cotidiano pode auxiliar a pensar sobre as (des) construções identitárias. De antemão, deixo registrado a minha dificuldade em conseguir escrever de maneira tal que todas as pessoas sintam-se contempladas e respeitadas. A escrita padrão do nosso “Brasil brasileiro” diz da nossa história como colônia, das marcas – arrisco a dizer – do binarismo de gênero construído há décadas e, infelizmente não consigo me livrar delas, ainda.

Em uma escrita tateante, buscando compreender e por em movimento o meu pensar sobre grupos tidos como minoritários a partir de uma cena comum e potente. Passarei brevemente pela teoria queer, cuja qual pouco sei, e que é o suficiente para dar continuidade as próximas linhas. Atenção: isso é um exercício, uma aposta. Possivelmente terá escorregadas, mas tentarei ter alguns pontos definitivos também, afinal, algumas certezas são necessárias (mesmo que depois outras relações sejam construídas e elas mudem).

Queer?! Talvez, cu!

Nesses quase quatro anos de graduação já ouvi falar sobre a teoria queer. Não sabia sua origem, de onde vinha e do que se alimentava. Ainda não sei com propriedade, mas algumas afirmações já podem ser feitas.

Primeiramente, queer é um termo que significa “um xingamento, é um palavrão em inglês” (MISKOLCI, 2012, p. 25). Quando falado em português parece uma palavra intelectual, que diz de pessoas que devem ser respeitada. Mas não podemos perder de vista o contexto em que ela surge.

Sabe-se que a AIDS em sua origem foi dramática. Médicos e a população mundial ficaram assustados com essa epidemia sem solução. Como era (e ainda é) vinculada a relação sexual gay, principalmente, tal epidemia contribui para a caracterização de gays e lésbicas como disseminadores de tal doença. Não é a toa que Miskolci (2012) afirma que a aids é sim um fato biológico, mas também uma construção social, onde “na primeira oportunidade, os valores conservadores e os grupos sociais interessados em manter tradições se voltaram contra as vanguardas sociais” (p.23). Foi nesse cenário, que na segunda metade da década de 1980 nos Estados Unidos, o movimento gay e lésbico se torna mais radical que o anterior contra uma força conservadora que ganha holofotes novamente.

A aids, portanto, foi um catalizador biopolítico que gerou formas de resistência mais astutas e radicais, materializadas no ACT UP, uma coalizão ligada à questão da aids pra atacar o poder e no Queer Nation, de onde vem a palavra queer, a nação anormal, a nação esquisita, a nação bicha. […] É assim que surge o queer, como reação e resistência a um novo momento biopolítico instaurado pela aids. (MISKOLCI, 2012, p. 23-24).

 Com esse breve contexto histórico é impossível afirmar que o efeito da palavra queer nos Estados Unidos é o mesmo que aqui no Brasil. Queer é uma palavra que nada diz ao senso comum, como afirma Pelúcio (2014), e também não fere os ouvidos de ninguém quando dito em ambiente acadêmico,

“ao contrário, soa suave (cuier), quase um afago, nunca uma ofensa. Não há rubores nas faces nem vozes embargadas quando em um congresso científico lemos, escrevemos ou pronunciamos queer. Assim, o desconforto que o termo causa em países de língua inglesa se dissolve aqui na maciez das vogais que nós brasileiros insistimos em colocar por toda parte. De maneira que a intenção inaugural desta vertente teórica norte-americana, de se apropriar de um termo desqualificador para politizá-lo, perdeu-se no Brasil” (PELÚCIO, 2014, p. 4).

Para pensar sobre qual palavra traria o mesmo efeito que o queer no Brasil, ou nos países latinos de maneira geral, Pelúcio apresenta toda uma argumentação sobre falarmos em uma teoria cu, baseado em Paul Beatriz Preciado, mas não só. Quando falamos em cu por aqui, há certo constrangimento e rubor como apontado no trecho acima. Assim, concordo com argumentos apontados por Pelúcio em seu texto Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil?, sobre falarmos de uma teoria cu,  pois só assim poderíamos nos aproximar do significado da palavra em inglês em nosso país.

Sobre a teoria queer, ainda é preciso salientar sobre o conceito de abjeção apontado por Miskolci (2012), vejamos:

Alguém atento percebe como a problemática queer não é exatamente a da homossexualidade, mas a da abjeção. Esse termo, “abjeção”, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política. […] A abjeção, em termos sociais, constitui a experiência de ser temido e recusado com repugnância, pois sua própria existência ameaça uma visão homogênea e estável do que é a comunidade. O “aidético”, identidade do doente de aids na década de 1980, encarnava esse fantasma ameaçador contra o qual a coletividade expunha seu código moral” (MISKOLCI, 2012, p. 23).

A partir dessa afirmação podemos pensar que não há espaço para algumas pessoas nos supermercados, pois elas podem ser vistas como fantasmas, como ameaça a “família tradicional brasileira”. Mas seria tais pessoas somente a comunidade gay?  Ou melhor, seriam somente os gays aqueles defendidos pela teoria queer? Não, como afirma Miskolci (2012, p. 25):

O queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, é a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados à humilhação e ao desprezo coletivo.

Todos aqueles que fogem a uma norma socialmente construída pode cair na fronteira da abjeção. Como os supermercados ficariam fora, não é mesmo? Quando escolhemos esse local, ingênuas queríamos ver a Teoria Queer ali, naquele espaço. Queríamos pegar na mão de uma teoria e levar ela para passear, fazer compras e ao se deparar com um produto X ou Y ter opções que a contemplasse.

Na verdade, com essa observação pudemos apenas entender que a Teoria Queer não chega a pessoas, por exemplo, que gerenciam o marketing de cada produto. No entanto, ela diz de grupos que costumamos a chamar de minoria, – e que cada vez mais tenho certeza que se trata de uma maioria – que gritam e clama por direitos, mas o lugar de fronteira não deixa que elas sejam ouvidas. Aliás, queremos ouvi-las? Quão aberto os ouvidos estão para essas várias vozes?

Em aula foi possível discutir um pouco sobre a diversidade e a diferença. Quando supermercados abrirem suas portas para as questões de Gênero e Sexualidade, tenho pouca dúvida que irá se tratar de “aceitar a diversidade”. Em outras palavras, quando se fala em diversidade estamos (ou podemos) falar de uma tolerância com pessoas de determinada cor, raça, gênero, entre outros. Precisamos de supermercados e demais espaços que abram suas portas para a diferença, pois aí sim, aquilo que é da identidade de cada um, da singularidade, daquilo que cada um é constituído ganharia holofotes.

Dessa forma, acredito eu, a teoria queer encontraria seu espaço no supermercado e em várias instituições e instâncias da nossa sociedade. E mais, a fronteira da abjeção seria desconstruída, mesmo que para isso seja necessária várias marretadas.

Porque é preciso de um fim…

Mas um fim cheio de lacunas, já que não acredito ser possível dar conta de tudo. Pelo menos não agora.

Diante do que aqui foi exposto me sinto a vontade para afirmar que a Teoria Queer ainda tem uma característica muito academicista. Ao menos a partir do pouco contato que com ela tenho. Então, como lacuna fica o convite para pensar sobre o agir: quais as formas estão sendo criadas para que espaços não acadêmicos conheçam essa forma de pensar? Quais ações populares, dessas que chega a comunidades e até mesmo a patrões, pautados nessa teoria (e também política, que aqui não foi abordada) queer? Como, estudantes, professores, pesquisadores e demais comunidade acadêmica está se engajando em ações que contemplem pautas daqueles que são barrados pela fronteira da abjeção e assim permanecem na margem? Como eu estou me implicando nisso ou procurando me implicar?

Acredito que as discussões de gênero e sexualidade podem ser lidas de diversas formas. Acredito que com algumas eu concorde mais do que outras, e todas elas tem a sua legitimidade. Entro em contato com esse tipo de discussão na Universidade e durante toda a minha formação na Educação Básica de Nível Fundamental e Médio tais discussões não eram tratadas, isso não significa que não existiam e que nos dias de hoje não existam. Usamos outra palavra em inglês para algumas ações discriminatórias, popularizada nas escolas e em outros espaços também, conhecida e reconhecida como o bullying. Isso não seria suficiente para que a dita “ideologia de gênero” fosse aprovada nos estados brasileiros? Diante da recusa em institucionalizar essas discussões nas salas de aulas do país, haverá o silêncio? Os currículos são tão rígidos assim? E as frestas que ele deixa? O trabalho de formiguinha não é considerado? Mais uma vez, como e quanto cada um de nós estamos implicado em questões como essas?

Quem discute? Quem escreve? Quem milita nessa/com/por essas causas marginais? Quanto quer? Quanto pode? Quais os caminhos? Como e onde é compartilhado o conhecimento, a discussão? Há mãos estendidas? Há ouvidos para os sussurros e os berros? Há busca para ruminar as questões que coloca em voga questões de gênero, sexualidade e demais demandas sociais? Construções há muito tempo enrijecidas tem seu ponto de ruptura, vamos romper? Queremos romper? Podemos romper? Lutaremos? É, como diz várias vozes em passeatas de alguns ou de quase todos movimentos sociais: a nossa luta é todo dia e, a cada dia mais tenho a certeza que as micro ações são tão potentes quanto as macros. Uma última questão: vamos lutar, pensar, agir e legitimar as questões marginais?

[1] O Grupo foi formado por Irene Bermúdez, Katherine Rebolledo e Vanessa Proença.

Referências

MISKOLCI, Richard. Cap I e II. In: MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autèntica Editora: UFOP, 2012, p. 21-53.

PELÚCIO. Larissa. Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil? Periódicus, 2014, v.01, pp.15-39.


Texto escrito, originalmente, para a disciplina “Gênero e Sexualidade” do Curso de Psicologia da UFRGS,  ofertada pela Profa. Dra. Paula Sandrine e acompanhada por suas estagiárias docentes Daniela Dell’Aglio e Marilía Saldanha. Tal texto é oriundo de uma observação do cotidiano, onde era necessário tratar sobre “(Des) Construções Identitárias” a partir da Teoria Queer. É um texto experimental, baseado nas referências citadas e nas discussões ao longo do semestre.

Entre o não e o sim

Ativistas pela descriminalização do aborto no Uruguai fazem manifestação na entrada do Congresso. Foto: Miguel Rojo / AFP.

Não! – é o berro silencioso (ou seria silenciado?) que muitas mulheres vociferam ao descobrirem a sua gravidez oriunda de um abuso sexual ou de uma relação sexual sem camisinha, porque o parceiro (e até ela mesma) gostaria de sentir mais prazer.

Quando sentar, tem que cruzar a perna. Não pode usar saia muito curta, pois se alguma coisa acontecer você, mulher, independente da sua cor, credo, idade ou classe social, será culpada e não vitima. Cantada na rua? Ah! Pelo menos eles te acham bonita. Não se esqueça de que a sua cor predominante é rosa, azul é coisa de menino. Não, você não pode ganhar brinquedos de montar ou carrinhos, lembra? Isso é coisa de menino. Fica aqui com a sua cozinha completa em miniatura. Sua axila e sua vagina, suas pernas e seu buço terão pelos, mas sabe o que é, você tem que tirá-los frequentemente por questões de higiene. Ah! Mas o cabelo, não o corta igual de homem, irão te chamar de sapatão. Tem uns comprimidos que você precisa tomar, todo dia, para não engravidar, ok?

Não! É impossível responder a pergunta “você já se deparou com alguma das frases acima?” com um não. O não também cansa. Cansou grupos de mulheres que decidiram gritar nãos para conseguir sins. O corpo é de cada uma, e cada uma pode decidir por ele. Diferenças existem sim, direitos também e não é gênero, raça, cor, religião e estereótipo corporal que decidirá quem pode e quem não. Na verdade, nem a Constituição muitas vezes garante isso, uma parcela é deixada de lado, vez ou sempre.

Não, não é mais aceitável o silêncio. Não é aceitável mais coisas absurdas. Não é aceitável mais a brutalidade que muitas mulheres ficam submetidas quando devem decidir ter ou não um filho. Isso é saúde, educação, crenças, um monte de fatores intercruzados e construídos socialmente que ditam regras, muitas vezes não entendidas e/ou percebidas, que gera sofrimento.

Talvez seja necessário aqui assumir uma posição a favor ou contra o aborto, e eu assumo que sou a favor de uma regulamentação dessa prática. Levando em consideração o direito a vida, sim. Levando em consideração todo o contexto que a mulher, enquanto dona de si e atora social, está inserida. É preciso questionar: em que condições o nascituro foi gerado? Qual a vontade da mulher? Quais os direitos que estão sendo colocado em cena e aqueles que permanecem atrás do palco?

Desde os anos 60 até hoje grupos feministas têm como pauta a descriminalização do aborto. O corpo é nosso, mulheres, e podemos dizer não diante das situações. O corpo é nosso, e podemos lutar por esse direito, sempre. O corpo é nosso, e não podemos ficar trancafiadas nas redes sociais e nos espaços acadêmicos, de certa forma tão restritos, teorizando ou mantendo na superfície essa discussão.

Sim, a nossa sociedade é heteronormativa. Sim, isso é tão naturalizado que não percebemos. Periferia ou centro, essa discussão precisa sair dos espaços institucionais e virtuais e ganhar, cada vez mais, a cidade, o povo que acha ok discursos e lógicas que aprisionam, ou que não conseguem perceber outras lógicas. É preciso ganhar espaços para romper e, principalmente, tencionar os discursos naturalizados, que nos cerceiam e nos dizem não a cada escolha de roupa.

O corpo é meu e a escolha também. Questione entre o sim e o não, e então escolha por você, com você e pelas trocas possíveis em meio ao contexto micro e macro no qual está inserida.

Entenda, então, que talvez não se trate “só” de descriminalização do aborto, se trata de tramas tão dramáticas e sutis que é preciso um respirar fundo e ir, entre o não e o sim.


Texto escrito, originalmente, para a disciplina “Seminário em Psicologia Social: Democracia, Estado Laico e Novos Movimentos Sociais” do Curso de Psicologia da UFRGS,  ofertada pela Profa. Dra. Neuza Maria de Fátima Gureschi e acompanhada por seus estagiários docentes Wanderson Vilton Nunes (doutorando) e Rodrigo Kreher (mestrando). Esse texto (aqui, com algumas alterações em relação ao original) foi uma proposta de atividade para pensar, em aula, sobre a questão da legalização do aborto. Os textos abaixo foram utilizados como provocação de escrita:

–  A Contribuição dos Movimentos Sociais Feministas e a Política Pública Nacional de Atenção às Mulheres em situação de abortamento – Mariana Diôgo de Lima Costa, Alba Jean Batista Viana e Eduardo Sérgio Soares Sousa.

Políticas feministas do aborto – Lucila Scavone.

Estatuto do Nascituro.

Estatuto da Família.

Considerações sobre as relações

É possível imaginar todo um simbolismo em torno do rompimento do cordão umbilical com a placenta materna. Há um quê dê: a partir de agora, para que haja alimentação talvez seja preciso alguns berros. Aos poucos é preciso dar-se conta de que os membros inferiores servem para te sustentar e é o seu “levanta-te e ande”.  É o descolamento, é o você por você mesmo, com todas as exceções que pode ocorrer.

Acredito que situação parecida possa ocorrer todos ou quase todos os dias quando se acorda. A cama é, a meu ver, o lugar de alimento inicial e ao sair dela é dar-me conta de que a cada dia tenho que me sustentar, levantar, andar, me relacionar com outras pessoas desde a minha cadela até… bom, não sei até quem. Não há o controle sobre as coisas que podem ocorrer ou sobre as pessoas que posso encontrar e isso me deixa aflita.

Certo dia esse rompimento ocorreu algumas horas antes que o normal, um saco, mas foi preciso. Havia a viagem com o grupo de pesquisa e sabe aquelas coisas que você não pode dispensar? Seja por ser um compromisso formal assumido ao estar em um grupo de pesquisa, seja pelas vivências que somente viagens podem proporcionar? Então, essa viagem foi “essas coisas” indispensáveis que a vida te serve.

Onze pessoas. Ouviram? Eram onze pessoas. Com 21 anos ainda acho que posso controlar mais do que o hotel no qual ficar, o translado, a compra de passagens ou a solicitação de diárias. Por saber que não posso controlar mais do que isso, fico aflita, apreensiva, grosseira, ansiosa e, obviamente, em qualquer momento que o corpo pode estar relaxado há a perna inquieta que deixa claro que não há relaxamento algum.

Na luta incessante de compreender que é possível o controle, dentro de certos limites e que eu não sou esse limite, foi possível perceber outra coisa com a qual luto e ainda não sei lidar: o cuidado com si, mas principalmente com os outros.

 Nietzsche, escreve em seu Ecce Homo que é preciso ter ouvido para as vivências, é preciso se despir de algumas coisas e ter mãos para os seus e alguns outros escritos. Para as relações, intensamente aflitivas, é preciso de ouvido, mãos, pés e principalmente um filtro potente entre o pensamento e a boca que emite ruídos, palavras, frases completas. Não tem como controlar o que o ouvido do outro ouve, então cuidado. Não é possível controlar a leitura do outro sobre o seu comportamento, então cuidado. Então, tolir muitas vezes, o seu corpo. Como não sei lidar com esse cuidado todo, ainda, acho um saco. E por mais impossível e insuportável que pareça ser, eu sobrevivo.

Em meio a todo esse cuidado, há a sutileza. Sutileza essa que vem do encantamento com o que é novo e que muitas vezes nos passa despercebido. Foi surpresa perceber olhos brilhando para aquilo que eu achava já ser tão comum. Todo o cuidado e tensão das relações intensamente afetivas que existem em eventos e no próprio mundo acadêmico ainda permite o encantamento, depende de como isso te afeta.

Desses dias fica a percepção de quão sutil são as relações, seja elas em qual nível for. Elas são boas e ruins, elas são de amor e ódio. Não há controle, há cuidado. Não há centro, há o inusitado. Enfim, é preciso compreender que as intensidades da vida, quer a todo o momento mais vida e que nós, simplesmente, estamos em meio a ela.


As viagens acadêmicas pedem, às vezes, alguns relatórios. Esse foi o solicitado pelo coordenador do grupo de pesquisa que participo após a nossa viagem para o IV Seminário Integrador Escrileituras, realizado na cidade de Toledo/PR entre os dias 5 a 9 de maio de 2014. A proposta era escolhermos um aspecto da viagem e escrever sobre ela. Em grandes grupos as relações merecem, sempre, serem consideradas.