Das linhas que não escrevi…

…. e que me sufocam.

…. e que torturam.

…. e que ficam movimentando pensamentos tortos e tolos.

…. e que tornam trágico cada vivido, que os tornam dramáticos, intensos, densos e imensos.

…. e que me fazem querer fugir e escrever.

…. e que me fazem encarar a página dos diários virtuais, reais e querer fugir.

…. e que me fazem, ao encarar a folha em branco, não encarar absolutamente nada.

…. e que fazem lágrimas caírem e algo aqui dentro ser torcido e elaborado de alguma forma, mesmo torta.

…. e que me fazem, enfim, escrever algumas linhas sobre aquilo que senti (ainda sinto). Sobre aquilo que vivi (e ainda vivo).

Linhas escritas, enfim. Fim (?)

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Vulnerabilidade, diga-me do que se alimenta?

O meu último texto aqui, nesse espaço público que se relaciona diretamente com o meu mundo privado, eu contei sobre o livro “A arte de pedir” da Amanda Palmer. Eu gostaria de escrito várias coisas sobre o livro, e acredito que escrevi algumas coisas interessantes sim. No entanto, o que mais me assustou foi como eu coloquei a questão da vulnerabilidade. Desde então, só consigo pensar e questionar sobre o que é vulnerabilidade. E, provavelmente, esse vai ser mais um monólogo, porém, compartilhado.

vulnerável
vul.ne.rá.vel
adj m+f (lat vulnerabile) 1 Que se pode vulnerar. 2 Diz-se do lado fraco de um assunto ou questão, e do ponto por onde alguém pode ser atacado ou ofendido. 3 Que dá presa à censura, à crítica. | Fonte: Dicionário Michaelis Online

Aprendi em uma das aulas de Psicologia que, muitas vezes, há pacientes/clientes que chegam aos consultórios sem nomear o que sentem, pois não sabe que nome tem aquilo que sentem. Percebi, com o post anterior, que eu não sabia de fato o que é vulnerável ou o que é vulnerabilidade e, se o que eu sentia diante de algumas situações é de fato isso. Enfim, o nome e o sentimento são compatíveis.

Vulnerável vem do latim vulnerabile-, com idêntico sentido de «que, ou por onde, pode ser ferido». Quanto a vulnerabilidade, é a qualidade de vulnerável e provém do mesmo étimo, com o sufixo -idade. Os seus contextos, como é evidente, têm de se relacionar com os significados destes dois termos, por exemplo: «Fulano é muito vulnerável», isto é, pode facilmente ser ferido, tanto física como moralmente. | Fonte: Ciberdúvidas

De fato eu acho que posso ser facilmente ferida. Tenho medo ser o lado “fraco”, de ser ofendida e receber críticas pesadas. Tenho medos que me paralisam. Tenho medo da vulnerabilidade e é esse medo que me torna vulnerável. Talvez seja engraçado, mas isso faz com que eu erga mil e uma barreiras. Isso faz com que eu não tome nenhuma atitude e assim ame a minha zona de conforto (para depois reclamar da monotonia). Acredito que as coisas não são piores, por em alguma medida eu enfrentar os meus medos e, assim, não aparentar ser fraca demais.

Esses medos existem, e vou caminhando com eles. Talvez, hoje eu pense mais sobre a vulnerabilidade, mas ela está comigo – não se assusta não, mas com você também – desde que nascemos. Em grau mais ou menos intenso. Quando nascemos, estamos vulneráveis ao mundo e as construções que já existem nele. Não sabemos qual será o nosso lugar na cadeia alimentar e de medo em medo, de erro em erro, de felicidade em felicidade, vamos nos constituindo.

Acredito (hoje, amanhã não se sabe) que ser/estar vulnerável tem ligação com o reconhecimento de tal sentimento (conceito, palavra, qualidade ou qual o nome que você queira dar a isso). Ao reconhecer os pontos vulneráveis que temos é como um desabar, quase sem fim. Quando há esse reconhecimento, é um sinônimo de reconhecer também a sua pequenez e que por mais que haja construções suas para se proteger disso, chega um momento que não dá. Até aqui, tudo bem! Mas, parece que cada vez mais vivemos em uma sociedade que ser triste, fraco e, até mesmo vulnerável, não pode não! Temos que ser felizes vinte e quatro horas por dia e, caso não consiga, há vários recursos fornecidos pela indústria capitalista para a sua felicidade artificial.

Já escrevi isso algumas vezes: acredito que os conflitos pessoais muitas vezes se resumem em uma luta de você contra você mesmo. E, quando há um casamento seu, com você [1] , as coisas podem ser melhores, embora isso não signifique sem dor. Até aqui, falei sobre a vulnerabilidade no plano individual. Óbvio, esse é um blog pessoal e eu sou um tanto narcísica. Sorry, I can’t be perfect! 

No entanto, também durante as minhas aulas na Psicologia ouvi muito falar sobre “grupos vulneráveis”. E, quando eu fui pesquisar sobre o significado da palavra vulnerável, me encontrei com essa definição abaixo e ouvi uma voz falando: queridinha, seje menas e preste atenção que tal questão está além do seu próprio umbigo.

A vulnerabilidade é a qualidade de vulnerável (que é susceptível de ser exposto a danos físicos ou morais devido à sua fragilidade). O conceito pode ser aplicado a uma pessoa ou a um grupo social conforme a sua capacidade de prevenir, de resistir e de contornar potenciais impactos. | Fonte: Conceito.de

Então, eu, você, e diversos grupos sociais vivemos situações de vulnerabilidade. Eu não tenho fôlego ainda para escrever sobre a vulnerabilidade social, ou como eu lido com todas essas coisas incomodas no mundo. No entanto, a cada instante acontecem coisas para as quais não nos sentimos preparados, algo que nos atravessa, que nos mostra nosso melhor e pior. E sim, temos que encontrar nossas formas de lidar com isso. E não é sem questionamentos que isso vai ocorrer, sem nos olharmos no espelho e percebermos nossas imperfeições e feições belas.

Mas, será que queremos nos olhar no espelho? Temos força para isso? Você, aí do outro lado que me lê, tem coragem de aceitar que, às vezes, não tem problema nenhum se jogar em algo que pode te ferir? (será que eu sei?) Você sabia que é só se jogando que vai saber o que pode ferir ou não? Olha só, tem remedinhos para a ferida, seja um band-aid, uma conversa ou simplesmente o tempo.

O problema, acredito eu, não é ser vulnerável, mas sim fugir e não querer encarar as suas próprias fraquezas. E, no final das contas, não é a vulnerabilidade que deve responder como se alimenta, e sim nós, respondermos como alimentamos nossa vulnerabilidade.

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[1] Obrigada, Victor, por compartilhar aquilo que você ouviu. Fez sentido para você, e para mim também 🙂
* Tay, isso aqui tem muito de mim, mas acredito que tenha um pouco de nós, das nossas conversas. Obrigada.

O sufoco de olhar para trás

É estranho pensar que os dois primeiros meses do ano foram super corridos. Que no começo do ano eu voltada de um local desconhecido e, que em breve, iria para um local a ser desbravado. Metade desse 2015 já passou. E nesses últimos dias toda a felicidade que sinto pela escolha que fiz é engolida pelo sufoco de olhar para trás. É engolida pelo frio na barriga que há pelo voltar.

Sufoco desses sofridos. Desses que quero ficar no meu cantinho, contida. De ficar emburrada. De não querer papo. De ficar intragável.

Martha Graham- Lamentation | Por: Arien McOmber (Pinterest)

Martha Graham- Lamentation | Por: Arien McOmber (Pinterest)

Ao olhar para trás vejo uma Vanessa que não reconheço mais. Vejo um local que eu quero chegar e mudar tudo. Um local que eu quero só chegar e em breve deixar.  Mas, no fundo, a questão retorna para mim, a mudança literal e visceral está me fazendo pensar demais. Há vozes rondando meus pensamentos que não sei decifrar. Vontades que não sei como começar a realizar. Coisas para terminar. Mudei, talvez tenha amadurecido um pouco mais, mas eu sei lidar com esse novo?  O que é esse muito, tanto, pranto que sinto?

Olho para trás e vejo as oportunidades nunca vistas, e assim perdidas. Vejo que há oportunidades que posso criar, que devo investir, agarrar e ver o que dá e que antes eu também não via. Espero não perdê-las. Vejo que eu mereço mais em alguns pontos da vida e em outros, o quanto a minha arrogância e essa mania de querer dar conta do mundo me prejudicaram (e ainda prejudicam). Nessa brincadeira de esfoliar a pele e a vida, acho que a pele está exposta demais. Há resistência para os 40º diretamente na pele? À flor da pele?

Martha Graham - Lamentation | Por: Vadim Stein

Martha Graham – Lamentation | Por: Vadim Stein

O que fazer para respirar melhor e sair do sufoco? Tenho calma para essa lógica do grão em grão? Tenho coragem para tirar as minhas máscaras, meus medos e guardá-los um pouco para dar a cara a tapa de fato? Dar a cara a tapa para as feridas mais bem cuidadas e que eu nunca chego perto? Consigo vomitar todas as coisas que me afligem? E mais, consigo lidar com o pós vômito? A sensação de fraqueza já que tudo foi expurgado? Há força para se alimentar de coisas mais leves, até chegar a mais pesada sem que isso se torne um ciclo vicioso? Há Vanessa suficiente para isso?

Não sei, só sei que há sufoco em olhar para trás. Quando e como isso vai passar? Com o clichê: respira e vai. Com medo, com ansiedade, com dúvidas, com sofrimento e com sorrisos também. Mas, principalmente com questões. Aos poucos nos tornaremos grandes amigas – eu e as questões – e acharemos nosso caminho para vivermos mais leve uma com a outra, assim espero.

Martha Graham - Lamentation

Martha Graham – Lamentation

Até o nosso encontro, sufoco. Veremos se eu morro ou se eu te mato.

Borboleta

Borboleta

Raul Seixas dirá que ele prefere ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Se você já leu um dos meus textos, é possível que caia justamente naqueles que falam sobre mudanças e como eu tenho uma certa dificuldade em mudar. A Anna do Pausa para um Café acabou de mudar todo o layout do seu blog e disse que vive de mudanças. Eu não vivo delas, tenho que conviver com elas. E por mais que aceite o fato de que elas são fundamentais, me dá um certo desespero e ansiedade e dor de barriga e falta de ar e todas essas coisas quando eu escolho ou tenho que mudar. A minha felicidade é nunca ter deixado de ir, mesmo com medo das mudanças escolhidas ou impostas.

Sabe aquela preguiça em ir à academia? É um saco, você muitas vezes terá que fazer movimentos repetitivos, fazer coisas que não gosta. Esbarrar com aquela mulher que você vai pensar: “o que ela está fazendo aqui? Ela não precisa emagrecer!” (como se você, no caso eu mas você pode se identificar, tivesse o direito de julgar o corpinho do outro e o que ele precisa ou não para estar bom). Tem que acordar cedo, ou ir depois de um dia cansativo. Mas, esses pequenos desprazeres são necessários para que a endorfina tome conta das suas correntes sanguíneas. É uma questão de ir, fazer e sentir, não acham? Eu sim.

1

Acho esse discurso de “tudo que é bom vem com um sofrimento” um saco! Às vezes parece ser impossível ser feliz, apenas sendo feliz. Você precisa sofrer para um senhor caralho e, só depois disso, ser feliz, estar bem. Vocês conhecem a Jout Jout Prazer? Tem dois vídeos dela que me fazem pensar muito sobre “essa barra que é viver”. O primeiro deles é sobre a Big Picturarização das coisas e o que ficou desse vídeo é:

“como a gente não tem problema, a gente inventa problema”

Veja só: não é que você não tenha problema (ou problemas). Mas, qual é o lugar que eles ocupam na sua vida? Se você big picturalizá-lo será possível perceber que ele tem um espaço e um valor menor na sua vida do que você realmente acha que tem. Eles são resolvíveis (em itálico por motivos de ter inventado essa palavra), você tem, por mais que ache que não, total capacidade de lidar com isso. E se seu problema não tiver solução, cara, só esquece e vai viver a sua vida com as outras coisas que existem nela. Acredito que nós, ingênuos humanos, temos energia e devemos ter serenidade para respirar e pensar: o que x problema muda na minha vida? Nada? Então, tchau. Vou gastar minha energia com outras coisas, obrigada.

Ou seja, não precisa ficar sofrendo o tempo todo. Em outro momento dona Jout nos fala sobre o sofrimento fazer parte de nossas vidas e que temos que viver esse sofrimento sim, pois ele é um milésimo perto das endorfinas que podem percorrer o nosso sangue. Talvez, essa coisa ridícula de que para se ter o bom é preciso ter o ruim não seja tão ridícula assim. Na real, o que conta é o peso que dou para cada coisa. Se eu tenho medo de mudar, é porque não quero sofrer. Se tenho medo de iniciar uma conversa, é porque não quero sofrer. Mas, quem quer, não é mesmo? Sofrimento e prazer andam de mãos dadas. Eu sei disso e você também, nós só precisamos não esquecer.

primeira

Por tanto ter medo de sofrer com mudança, seja ela qual for, começo a pensar nas borboletas. Durante a metamorfose elas passam por quatro momentos: ovo/fase pré-larval; lagarta; pupa (que se desenvolve dentro da crisálida) e imago, que é a fase adulta.

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Nesse tornar-se borboleta há ovos eclodindo e que servem de alimento depois. A lagarta muda de pele algumas vezes na medida que cresce. E, na última troca de pele ela se fixa-se “e sofre a última mudança, na qual surge a pupa”. Assim, lentamente se transforma em borboleta e quando “pronta” saí da crisálida por aí, voando. Apesar de existir a Borboleta Monarca, que pode viver seus nove meses, o tempo médio de vida desse ser colorido e intenso é de duas semanas a um mês.

Penso comigo que devemos ser mais borboletas e entender que a vida é breve e que até o seu fim vamos ter umas surpresinhas, boas e ruins. Tudo e quanto vivemos é um processo. E, se a nossa metamorfose já aconteceu, se já somos borboletas, o que nos impede de voar? Podemos durar um dia, uma semana, uns anos e se por alguma razão o voo for tolido, que não seja esquecido o que se passou até aquele momento de queda. É vital cair. E sim, cair para recomeçar, mais uma vez. Cair para tirar  da caixinha aquele projeto. Cair e sair daquele relacionamento que pelas razões que for acabou. Há novos dias na sua frente e você precisa vivê-lo. É preciso bater as asas e permitir que outras pessoas caminhe com você. É preciso se reinventar diante de cada preconceito seu, que todo o santo dia você tem que esbarrar.

final

É preciso voar e entender que esse voo, ora solitário, ora não, tem suas pedrinhas e sofrimentos, mas prefiro acreditar e não esquecer que não é só disso que se vive a vida.

Sendo assim, bons e intensos voos para nós.

Vinte e seis

Vinte e seis

Hoje acordei atrasada. Poderia ter passado o dia dormindo, mas depois de ter faltado mais aula do que o normal, decidi que iria… mesmo sem texto lido, mesmo em dias depressivos, mesmo que a cama me abraçasse de maneira tão gostosa onde só ficar ali, quieta e quentinha, bastaria.

Poderia ter ido no Restaurante Universitário e almoçado, mas preferi voltar para casa, comprar um kebab cujo sabor sempre lembrará Porto Alegre. Almoçar sozinha, no apartamento completamente bagunçado. Penso que a bagunça é externa e interna. Às vezes queremos respostas, mas tudo que se têm são mais perguntas, mais bagunça e você vai aprendendo a lidar com ela, até o momento que você arruma as coisas, deixa tudo cheiroso, mesmo que uma coisa ou outra não fique realmente no seu lugar.

Por falar em lugar, três meses se passaram. De um lugar fui para outro, com duas malas e uma mochila. Com o coração cheio de memórias e já saudoso. Por um tempo me questionei “o que estou fazendo da minha vida?”. E a resposta é simples: vivendo-a.

Conhecer novos lugares e sabores é maravilhoso. Sentir outros climas, ouvir outras formas de pensar, ver outras formas de existir. Perceber. Tudo isso é tão único e maravilhoso. Sentir coisas nunca sentidas antes, lidar com o inominável e o inevitável. Ser. Permitir. Encontrar desconhecidos, ouvir e entender outra língua, viver em outro território e conseguir ficar perdida sem receio. Criar novas formas de laço, de traço e ganhar novas marcas. Abandonar. O velho eu, a velha mala, as roupas, os preconceitos e esquecer algumas marcas. Feridas? Estão mais tratadas, limpas e algumas cicatrizadas.

Questionar, sempre, a todo momento. O que acontece? Como acontece? Por que ainda dói? Por que a saudade? Do que se tem, de fato, saudade? Quais são os próximos passos? É preciso mesmo tanta ansiedade de vida? Não seria mais fácil admitir a falta do que ignorar? Pode andar por aí sozinha, distraidamente conhecendo seu novo território sim, traçando seu próprio mapa… quem foi que disse que não  pode? Como fazer novos laços? Como agradecer a quem sempre esteve do seu lado, longe ou perto? Como retribuir o bem? Como nomear e quantificar todas essas emoções? Não se é a mesma, como é essa versão formatada? Está pronta para lidar com a sua diferença e com a indiferença do outro? Com a diferença do outro? Com os julgamentos e perguntas que você achará um porre responder? Está pronta para buscar essa sensação de novo, sempre? Está gostando de, depois de muito, estar feliz e gostando de viver?

Tempo. Tempo de aprender a viver só, de descobrir quem é e o que não quer mais ser. Tempo de aprender a lidar com coisas antes ignoradas. Tempo de sofrimento e de sorriso frouxo. Tempo de retirada daquilo que sufocava e nem se percebia. Tempo de medo. Tempo de saudade. Tempo de tornar-se, hoje, amanhã e por um tempo que não encontra espaço nos calendários, nos relógios e continuará sempre sendo.

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos nem objetivos
Nós estamos vivos e é tudo
É sobretudo a lei
Dessa infinita highway, highway
Infinita Highway – Engenheiros do Hawaii

Quando, enfim, constrói-se outro ninho

É um puta exercício não criar expectativas com a vida, de uma maneira geral. Sigo tentando. Em meio essas tentativas, várias expectativas já tive, algumas contempladas e outras não. Por muito tempo havia um desejo de sair do ninho, descobrir o mundo a cada batida de asa. Ir em busca da minha alimentação, sem precisar que me dessem na boca. Demorou o tempo necessário. Tive que lidar com diversas formas de “nãos” até isso acontecer, até que chegou o dia de bater asa em outro território.  Pela primeira vez tive mais esperança do que expectativa.

Veja, a minha distinção de uma coisa para outra é básica: se você tem esperança, você vai sem exigências e vê o que vai dar. Caso tenha expectativas, você tem todo um planejamento do que quer fazer ou não e bom… sabemos que a vida não vai obedecer cada um dos seus 7 bilhões ou mais de habitantes. Não foi uma saída sem expectativa alguma, foi uma saída em que poucas coisas eu queria  que de fato dessem certo, que eu desse conta de algumas outras, o e não deu (Só doeu, bem pouco).

O novo território tem suas marcas, principalmente de clima. Por mais que tivesse uma estrutura, um teto que me abrigasse, alguns afetos que me acolheram, tive como início o zero. Questões como: é bom ou ruim? está com saudade ou está gostando daí? quer voltar ou quer ficar? o que você vai fazer quando voltar? eram feitas por terceiros e ecoam ainda por aqui. Por um tempo o meu foco foi tentar respondê-las, mas precisava de energia para construir o novo ninho no território que resolvi sobrevoar, logo, sigo sem respostas.

Ilustração Mergulho - https://www.pinterest.com/pin/483996291174657623/

Não me deram manual de instruções para construir esse ninho, que ainda é confuso. Simplesmente peguei algumas palhinhas e comecei a construí-lo. Tem algumas partes dele que espeta, sabe? Só que não quero arrumar agora, quero me deitar nele de tal forma que a intensidade da espetada seja menor. Este novo ninho tem algumas comidas ruins, dessas intragáveis, mas como só tem essa você come. Tem bagunça que é ordenada só quando chega ao seu limite. Tem desastre, tem lágrima, tem desespero, tem portas e janelas para dar segurança e ficar trancafiada na nova zona de conforto.

O novo ninho permite sair, assim como o anterior, mas agora em voos solos. Os voos são errantes, você dá de cara com uma árvore, se sente totalmente perdida. E percebe, então, que estar perdida é uma dádiva. A distração é a sua melhor atenção para detalhes que te arrancam o riso, fazem você respirar fundo, olhar ao redor nesse lugar estranho, onde você sente-se diferente, mas contemplada por estar ali. Mesmo que a cara possa ser de horror. Afinal, não há o belo no horroroso?

2

Passa, aos poucos, a deixar a janela mais aberta. A arriscar falar de si, a sair por aí com alguém que nem a sua língua fala, mas te permite trocar, criar algum tipo de laço em meio a essa mobilidade errante. Começa a ter pequenos prazeres como o sol de outono, com uma luminosidade tal que você nunca tinha visto. Permite em meio ao calor, sentir um leve eriçar dos pelos provocados pelo vento gelado e prazeroso. Faz o mesmo caminho de sempre, que já não é tão estranho assim. Chamam pelo seu nome. Você se assusta pois acha que ali ninguém te conhece, porém percebe um rosto conhecido ao se permitir olhar, rosto este que fez questão de te chamar e te dar “oi”.

Enfim, abaixa a cabeça. Dessa vez não por tristeza, mas sim para levantá-la, olhar ao redor e enfim se sentir bem por estar em outro ninho, construído por você,  com você, sem que percebesse. Ao invés de encontrar respostas, outras questões surgiram e continuam a surgir. É no conforto e confronto do ninho espetador que outras marcas serão impregnadas no corpo que já não quer todas as respostas do mundo. Corpo este que só quer ter a possibilidade de outras perguntas formar, sem a garantia de respostas ou uma previsão delas.

3

Turn Off

Quem nunca pensou que fosse uma loucura certa decisão tomada? Penso isso, às vezes, quando olho para trás e vejo que os meses já passaram, e falta mais um pouco para terminar os dias em Porto Alegre. Esse olhar para trás me faz dizer frases típicas de nós, adultos como, por exemplo,  “não tenho tempo para nada” ou “o tempo passou muito rápido”. Passo a questionar se é isso mesmo, ou se como sempre quero abraçar o mundo e ir por todos os caminhos que aparecem na minha frente.

Por um tempo demorei para desligar, apertar o Turn Off da minha vida lá, onde o sol aquece e é meu inferno e paraíso. Desligar sim, porque não poderia me responsabilizar por várias coisas, em uma vida que deixei e em uma nova que começava a construir. Demorei para perceber, por mais que já soubesse, que eu precisava dizer não. Que eu precisava aceitar que não daria conta de cumprir com coisas de lá, aqui, milhas e milhas distantes. Mais uma vez, expectativa e realidade sendo incompatíveis. Mais uma vez, nessa minha ansiedade de beber o mundo, de engolir a vida sem digestão, me fez pisar em falso. E é só pisando em falso que consigo perceber minhas próprias promessas falsas.

Hoje, consegui desligar um pouco. Consigo me relacionar com o tempo de outra forma, eu acho. É tempo de falta, muita falta. É tempo de perceber a dureza comigo, a dureza de estar realmente só, eu e o mundo e o frio. É tempo que passa desenfreado por mim, me atravessa e talvez demore um tempo para elaborar o que aqui se passa. Tempo de intensidade. Tempo de perceber que é possível estar só, sim e que é agradável poder compartilhar essa solidão. Tempo de construir outros laços, por mais difícil que seja. Tempo de passar rápido, tempo de Turn Off.

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Relógio | Catarina Sobral

Talvez, aperto Turn Off para coisas que não quero pensar, encarar. Pois, sempre há uma coisa ou outra que nos dói. Tempo de viver aqui e não só, há alguns laços que jamais serão desligados e você gostaria que eles estivessem próximos a você. Tempo de ser criticada, questionada e sentir-se nada. Tempo de perceber quais laços permanecerão, como permanecerão e aceitá-los. Tempo de aceitar o adeus e entender que as coisas jamais voltarão a ser o que eram, serão diferentes, nem melhores e nem piores: é tempo de aprender a não polarizar as coisas e sim acrescentar coisas, mesmo ponderando.

É tempo de desligar os preconceitos, esses que berram e que te doem. É tempo de reconhecer que nem sempre é possível acabar com todos eles. É tempo de aceitar, de uma vez  por todas, que não se pode tudo, infelizmente e parar de sofrer com isso, por isso. É tempo de deixar a arrogância de lado, assumir erros, agarrar os acertos e ser quem se é. Meio torta, meio fora do padrão, seja lá o que for isso. Aceitar-se e se alguma coisa ainda incomodar, respirar fundo, procurar formas de mudar. Lembra do que sempre se diz? no final, é só você contra você mesmo, não há culpados ou escapatórias. As escolhas são suas e as consequências também.

Se você desliga, e o que desliga, é só você quem sabe os efeitos disso… suas palavras, inclusive, talvez não deem conta disso. Mas, ajuda a aliviar. Assim como o abraço, o afago, o afeto que tanto te perturba não ter. Entende que desligar talvez não resolva mas, que vez ou outra, é preciso para não ser engolida. É preciso ruminar um pouco para sair palavras embaraçadas de um tempo acelerado, que você vive e diz não ter. Mas, se você não tem tempo para nada, o que é tudo isso que você vive?

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