Livro | A arte de pedir – Amanda Palmer

Sou dessas pessoas que se apaixona por capas de livros. Sou dessas pessoas mesquinhas, que julga pela capa. É pela capa que a minha curiosidade é despertada e é na capa que me encantou que eu fixo os meus pensamentos. Questiono: o que é que esse livro tem?

CAPA_AArteDePedir_WEB (1)

Ora, ele tem o que todos os livros tem: diagramação, algumas letras, talvez imagens. Contém histórias, boas, ruins, intensas ou não. Há coisas que um livro tem que escapa a qualquer resposta então, que cada um tenha sua experiência com esse livro. Eu venho contar da minha.

Amanda Who?

Você sabem quem é a Amanda Palmer? Não? Eu também não sabia. Me encantei por essa capa e, apesar de achar escrita na parte inferior com um quê de auto-ajuda, me joguei na leitura. Mas, antes fiquei um tempo querendo saber sobre esse lançamento, que li depois de um longo tempo, após o primeiro encontro. Fiz umas buscas no senhor google e ele me contou umas coisinhas, mas lendo o livro percebi que ela não era só a esposa do Neil Gaiman.

Ela foi uma estátua viva, em uma das esquinas de Boston. Foi assim que ela aprendeu sobre o pedir, sobre os olhos nos olhos, sobre a troca humana, sobre o dar e doar-se e sobre receber isso de volta, de alguma forma.

Amanda é compositora. É performer, pianista, cantora. Ela teve uma banda, chamada The Dresden Doll. Eles assinaram com uma produtora, venderam 25 mil cópias de um álbum e isso era muito pouco, mas para Amanda e seu amigos de banda não.

Amanda cansou dessa vida de gravadora e produtora: não havia conectividade entre eles. No entanto, ela tinha (e sim, ainda têm) uma imensa rede espalhada pelo mundo de fãs. E foi a eles que ela recorreu, via seu blog e outras redes sociais, para que eles ajudassem ela e sua banda a gravar um álbum independente. Para essa empreitada ela precisaria de 100 mil dólares. E, bom… 25 mil pessoas contribuíram e ela conseguiu mais de 1 MILHÃO DE DÓLARES.

É a partir dessa arrecadação colaborativa – a maior que o site Kickstarter teve –  que ela fica ainda mais conhecida. O TED a chamou para falar em seu palco e dessa fala surge o livro. Sim, Amanda também escreve. Amanda é muitas coisas. Quer saber mais? Leia o livro, aqui só o que fisgou minha atenção, sabe lá o que fisgará a sua, não é mesmo? 🙂

Conectividade, conexão, contato: olhos nos olhos, sentir. 

A arte de pedir trata de encontro. Contato. Olhos nos olhos. Uma arte, de fato. Eu sei, e você que me lê também sabe, que um contato de verdade com outra pessoa é difícil. É espinhento. É vulnerável. Olhar nos olhos exige coragem: quantas coisas um olhar pode dizer? Fazer sentir?

Bauman até diz da liquidez da nossa sociedade, mas será que somos miseráveis demais para nos reduzirmos a liquidez da coisa toda? O filme Her também diz de certa liquidez, ou dessa conectividade que, aparentemente, mais afasta do que aproxima. Será? Será que não há sentimentos? Afetos? Histórias a serem contadas, trocadas, vividas?

Ao meu ver, a sacada que Amanda teve foi a sua relação com o outro. Seja como estátua ou como cantora. Durante horas paradas sob o sol ou se jogando (literalmente) na multidão: ela sempre buscou se conectar de alguma forma com as pessoas que a cercavam. É preciso entrega, cultivo, trocas, conversas, bebedeiras, 140 caracteres trocados ou parágrafos e mais parágrafos contando sobre a sua vida (e lendo sobre a vida do outro também)

Atualmente, a conectividade é reduzida a um gadget. As redes sociais são palcos de debates e compartilhamentos que expõe o que é podre em cada um de nós, e nem percebemos. Sou só eu ou vocês imaginam que um botão de curtir e compartilhar é bem mais do que uma ferramenta de uma rede social? Além disso, sou só eu que olho para os meus contatos no Facebook e sei que de alguma forma eu tenho relação com qualquer uma delas? Que elas não são apenas números? Obviamente, tem pessoas que eu discordo, que eu nem me importo se está de fato bem ou não. Mas, com cada uma delas eu tive contato real ou virtual. Então, até que ponto essa conectividade trata só de números e até que ponto se trata de relações, de fato?

Conseguir um financiamento coletivo com o valor que Amanda conseguiu foi inédito. Quão inédita são nossas relações, hein?

Meu encontro com Amanda

Não, não encontrei ela olhos nos olhos. Só olhos nos escritos.

Não sei se pela fase em que vivo, de uma sensibilidade tal que tudo me emociona ou me enraivece (juro, não é TPM), vários momentos do livro me sugaram, sabe? Me colocaram a pensar sobre como somos uma fraude com nós mesmos, ao não nos arriscarmos em coisas que estão aí, na nossa cara. Como somos ingênuos em não tentarmos t(r)ocar o outro, com o outro, sabe?

As coisas, aqui no meu mundo e como leio ele, não andam bem. É maldade, desespero… são relações tão desumanas que nem sei porque esse mundo existe. Talvez lá em Marte ou Plutão a vida seja mais interessante. Veja só o que acabo de escrever: é só mais uma forma de fugir, de não me relacionar, de não me lançar.

A coisa que mais tenho medo, pasmem, não é de morrer ou que as pessoas próximas a mim morram, mas sim me sentir vulnerável e exposta. Mas, olha que contradição, escrevo em um blog, coisas bem pessoais até, e tenho medo justamente disso.. vá entender. Quem dera eu fosse artista….

É o seguinte: todo mundo parte de alguma carência. Queremos que nos vejam, nos entendam, nos aceitem, se conectem com a gente. Todos nós queremos que acreditem na gente. A única coisa é que os artistas costumam ser mais… veementes a respeito disso. (Trecho do livro)

Amanda diz que não é fácil sermos nós mesmos. Que construir relações não é uma coisa muito fácil não, mas é possível e essencial. Ela diz que pedir não é sinônimo de mendigar e as possibilidades são duas: receber um sim ou um não. E bom, a vida segue, não tem escapatória.

Vulnerável talvez seja deixar seu corpo nú correndo o risco das pessoas enfiarem a mão no seu cú! Isso que vamos vivendo, é fragilmente forte e vamos nos incomodando com esse movimento. Mas veja bem: só é tão vulnerável quem confia. Há confiança?

Muitas vezes me perguntam: Como você pode confiar tanto nos outros?
Confio porque é a única maneira que funciona.
Quando aceita a ajuda de alguém, seja em forma de comida, acomodação, dinheiro, ou amor, você tem que confiar na ajuda que é oferecida. Não dá para aceitar as coisas pela metade e entrar na casa com a guarda levantada.
Quando você confia aberta e radicalmente nas pessoas, elas não só cuidam de você, como também tornam suas aliadas, família.
Às vezes as pessoas se mostram inconfiáveis.
Quando isso acontece, a reação correta não é: Porra! Eu sabia que não podia confiar em ninguém!.
A reação correta é: Tem uns que são uns bostas.
E segue-se em frente.
” (Trecho do livro)

Seguimos: pedindo, vivendo, aprendendo, errando, sendo..

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18 de Maio: comemoração ou luta?

Sim, fui dessas que começou a fazer Psicologia por “sempre ouvir os amigos”, por “não ter nada de matemática”, “porque eu posso entender melhor os outros e a mim mesma”. Cheguei a responder, no início das aulas onde os professores vez ou outra nos questionavam “Por que você escolheu fazer Psicologia?” que não sabia a razão disso.

A verdade é que fui tola em todas as minhas conclusões, exceto a de não saber a razão da minha escolha pelo curso. Não sabia nomear, mas ela existia de alguma forma e me movimentou a fazer essa escolha, da qual não me arrependo. Percebi, então, que aprendemos também na graduação várias coisas das quais caímos na velha questão: “onde eu vou usar isso na minha vida?”. No entanto, outras temáticas me fisgaram de tal forma que me fazem hoje dizer: é isso que eu quero, que eu gosto e que eu vou investir.

Quando descobri que Psicologia não se reduz a duas pessoas dentro de uma sala e que havia outras formas de atuação, meus olhos brilharam. Até eu ter a experiência clínica, vou achar ela muito assustadora (e desafiadora também). Há, infelizmente, a visão de que os psicólogos cuidam dos loucos. Tenho algumas questões com o termo “cuidar” e, principalmente “loucos”. Ao decorrer do texto provavelmente será possível perceber a minha posição sobre esses dois termos.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

É preciso aceitarmos o fato de que a loucura é uma construção social, com implicações sociais, culturais, políticas e econômicas. Por muito tempo construímos diversas formas de lidar com ela, de aceitá-la e o mais comum: de excluí-la. Não consigo escrever sem citar “História da Loucura” de Michel Foucault, acredito que ele foi um autor muito importante para compreendermos os movimentos tomados em nossa sociedade, seja ela a brasileira, a francesa ou a italiana, em relação a loucura. Como afirma João Paulo Macedo, em uma resenha sobre a obra, é um livro-ferramenta para as discussões sobre saúde mental, posição essa que concordo.

Confesso, não li a obra por completo. Mas, sempre que penso sobre o pouco que li e as experiências de discussões que venho tendo sobre Saúde Mental, loucura, atuação profissional e Políticas Públicas, uma questão reina: Quem é o louco? Como as pessoas os veem? Como eu os vejo?

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Os loucos me encantam. Veja bem, não acredito que são esses pessoas perfeitas para ficarem reclusas em instituições afastadas, garantindo a higienização dos espaços públicos. Os loucos são pessoas com as quais devo aprender e construir saber sobre eles, com eles.  Obviamente, isso não é um pensamento original. Fazer com que a massa olhem e ouçam é um movimento de muitos, ainda bem.

Hoje, 18 de maio, comemora-se o dia da Luta Antimanicomial ou dia do Movimento Antimanicomial. O que temos para comemorar? A Reforma Psiquiátrica é um ponto a ser comemorado, iniciada nos anos 70 contra as instituições manicomiais, sustentadas por profissionais da saúde, usuários do serviço e seus familiares. Essa luta ganha âmbito legislativo com a Lei 10.216, promulgada em 2011, proposta pelo Deputado Paulo Salgado em 1989, instigando assim a luta pela Reforma Psiquiátrica.

A Reforma Psiquiátrica não se reduz a desinstitucionalização. É preciso mudanças na formação profissional, por exemplo. É preciso entender que Hospitais Psiquiátricos são instituições prescindíveis. Pode parecer que sim, mas medicalização não é a única saída, então a Reforma Psiquiátrica exige a criação de outras práticas com os sujeitos ditos loucos. Exige uma implicação não só do campo da Saúde, mas também da Educação, do Direito, da Cultura e todo e qualquer aspecto social, econômico e cultural no qual esses sujeitos estão implicados, assim como eu e você. É uma mudança buscada há anos, e obviamente encontra seus pontos de conflitos, divergências e aniquilamento, de certa forma.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Às vezes, ou na maioria das vezes, tenho a sensação que a nossa sociedade vem sofrendo retrocessos. A luta de todos os dias na questão antimanicomial é para que cenários como o do Holocausto Brasileiro, não se repitam. A luta de todos os dias é para que não existam mais Cidades dos Loucos. A luta de todos os dias é para que toda uma rede de assistência à saúde funcione, que as instituições de saúde mental não fiquem à margem social, bem como seus usuários e profissionais. Há avanços, mesmo que difíceis de serem alcançados e percebidos em meio a todo descaso sofrido. Porém, em meio a luta para romper com paradigmas domesticadores de corpos, percebemos que a população não pode participar de discussões “na casa do povo” sobre a política de Saúde Mental do Estado. Além disso, vemos coordenador de Saúde Mental do Estado falando que “os dependentes químicos são cidadãos infratores e devem estar nos hospícios ou cadeias” e que “prioridade é combater o crack e outras drogas com as melhores armas do governo”.

Como uma das medidas tomadas para a desinstitucionalização dos usuários, há o serviço das Residências Terapêuticas, que são fechadas por falta de recurso, mas será só isso? Apesar dos links fazerem referência ao Rio Grande Sul, penso eu que seja uma realidade nacional. Alguns políticos colocam em cena a discussão sobre a Reforma Psiquiátrica, porém o que deve ser discutido é como ela será cumprida, e não vias de retroceder a ela. Reforma Psiquiátrica não é desculpa para formas de atuação que a contradizem por completo e me parece que é isso que vemos, infelizmente.

Diante do exposto, acredito que o dia de hoje não é só de comemoração pelas conquistas e por ações efetivas de cumprimento da Reforma Psiquiátrica. Mas, também é dia de incomodo, é dia de luta, é dia de não abaixar a cabeça diante da desumanização vista, dos discursos totalmente retrocedentes e divergentes do que a Política de Saúde Mental vigente exige.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini

Meus passos nesse movimento são lentos e curiosos. Não acredito que a única forma de ajudar a pensar e enfrentar essas questões e contradições é indo para as ruas, mas é a forma que mais chama à atenção de quem tem poder para mudar esse cenário, ou pelo menos deveria. Os espaços precisam ser ocupados, sejam eles as ruas ou as redes sociais. Sejam eles no bar, na praça, ou em casa.

Hoje é dia de pensar nas lutas de todos os dias, e de tanto pensar foi preciso escrever para ver se acalma um pouco todas essas barbaridades vistas em relação aos loucos. Os loucos sabem que seus espaço não é atrás de grades, presos em quatro paredes, e nós, pacatos cidadãos, também deveríamos de uma vez por todas entender isso.

Como futura profissional, meu esforço será para que eu não esqueça a minha responsabilidade em relação a esses sujeitos. Não esquecer que apesar do cuidado que é necessário se ter, isso não significa tutela, ou seja, mesmo em espaços institucionais o esforço deve ser de caminhar com eles e não por eles. Ganhar espaços para eles, com eles e não de forma que sua subjetividade seja esquecida. Assim como eu, eles também devem ter a oportunidade e o direito de ser quem se é, por mais difícil que isso seja. Por mais que sua constituição não seja a mesma que a minha. Por essas e outras razões, a luta é todo dia para que haja, de fato, motivos para se comemorar.

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski - SP | Daniel Perini

Ensaio realizado no antigo Hospício abandonado de Brodowski – SP | Daniel Perini


As fotos do post são de autoria do fotógrafo Daniel Perini e o ensaio completo pode ser visto aqui

Links da semana

links da semana

A mais furona do universo voltou. Semana passada gostaria de bombardear isso aqui com links sobre o “impitima”, mas não consegui por motivo de: não estava tão afim assim. Porém, essa semana tem coisas legais para mostrar, vamos lá?

1.  Oliver Sacks – Minha Própria Vida
Costumo (re) conhecer pessoas importantes depois que elas morrem, tipo Eduardo Coutinho ou Gabriel Garcia Marquez. Com Oliver Sacks bateu na trave. Já vi frases dele circulando pelas redes sociais e o seu nome não me é estranho, mas nunca entrei em contato com nada feito por ele ou a partir dele. Porém, curto a página do Pablo Villaça do Cinema em Cena no Facebook e todo (ou quase todo) domingo ele indica uma série de filmes que tem no Netflix. Em uma dessas listas tinha “Tempo de despertar”,  me chamou atenção, assisti. Li um texto que Pablo escreveu sobre o filme e a influência dele e de Sacks em sua vida. Descobri por ali que Sacks está com um câncer terminal e escreveu esse texto maravilho, sereno e sensível. Acredito que vale muito a pena.

Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.

2. Praticar um olhar generoso | Exercícios de Empatia, 1
Morar sozinha, mesmo que por um período, foi uma escolha. Dentre elas envolve uma certa esperança em mudar, amadurecer e me conhecer, reconhecer… Gosto  muito das matérias do Papo de Homem, e essa me chamou à atenção (assim como várias outras). Alex Castro propõe uma série de exercícios para ajudar nesse autoconhecer, ser mais empático e generoso. Ele não se posiciona como senhor detentor de todo o saber, afirma inclusive que “O único dedo que aponto é para o meu próprio reflexo no espelho. Sempre.”. Gostei da leitura e dos incômodos provocados, porém parei no primeiro exercício, ainda. E você, quer praticar um olhar generoso?

3. Não brinquem com nossos corpos
Quando o corpo e sua relação com ele passa a ser uma questão é mais tranquilizador ler opiniões verdadeiramente sérias sobre o assunto, como aborda Mariana Zappa no blog Modices.

4. Sobre protestos, mudanças e respeito
E se eu tivesse escrito algo sobre os protestos do dia 15 de março, gostaria que fosse semelhante a opinião da Paula, do Não Provoque: leve, simples e sério.

5. O fazer com o dinheiro #empreendedorismo
Sei que o Felipe Neto não é o cara mais amado deste Brasil. Tenho algumas opiniões que divergem da dele, porém adorei esse vídeo que ele fez sobre empreendedorismo. É uma linguagem simples e muito ilustrativa do que fazer com o seu dinheiro, seja ele cem ou mil reais, entende?

6. Dicas para fazer sua grana render até o final do mês
Quem mora sozinha tem que fazer a grana render. Eu sou totalmente descontrolada com isso e estou me policiando e me educando financeiramente. Toda ajuda é válida. Assim como esse post da Fran.

Boa semana para vocês.
Beijos, Van.

Filme: Wild

Não sou dessas que sei falar sobre filmes, sobre seus enquadres e quão foda é o diretor ou não. Enfim,  não sou uma crítica de cinema e nem quero ser. Porém, é tão bom escrever sobre aqueles filmes que te tocam de alguma forma não é? Estou muito numa faze de pensar que “se faz sentir, faz sentido”, então…

Vi sobre esse filme na minha timeline do Facebook, alguém dizendo que precisava assistir. Li a resenha e desencanei. Eis que conheci o Popcorn Time e ele estava lá, lindo e belo para eu assistir.

Se você ainda não conseguiu desligar a imagem de Reese Witherspoon da sua personagem em Legalmente Loira, chegou a hora. Resse interpreta  Cheryl,  uma mulher que resolve deixar para trás seus fantasmas e dramas para buscar se conhecer, saber quem de fato era.  Em meio a trama, o drama e os 1.770 quilômetros da trilha que atravessa, na costa oeste dos Estados Unidos, Cheryl conhece pessoas diferentes, se assusta e vai lembrando de algumas situações que a impulsionaram a sair por aí.

Impossível assistir o filme e não se lembrar de A natureza selvagem. A solidão, as descobertas, as sutilezas da natureza e suas armadilhas: acredito que isso faz parte da composição dos dois filmes. Quando assisti A natureza selvagem foi legal, sabe? Era início da faculdade e como era para algum trabalho, prestei atenção em partes específicas. Foi diferente a experiência com Wild.

Ambas as histórias são baseadas em fatos reais. Mas, o mais real disso, é que o questionamento trazido por Wild me atravessa. Quis ficar só por um período de tempo. Estava de saco cheio das coisas da vida, tinha que colocar uma mochila nas costas, lidar com os meus medos e arrancar a minha própria unha depois de usar por dias um sapato desconfortável. Tinha que me virar no avesso e ver qual lado seria o certo, se é que há lado certo. Quando os filmes, mesmo que mornos, me deixam com questões, me fazem sentir alguma coisa, eles já merecem algum tipo de atenção.

Quer um filme para um sábado a noite sem nada para fazer? Curte um filme dramático e lento? Gosta de frases de impacto e belas paisagens? Bom, se joga então. 🙂


Título original e brasileiro: Wild | Livre
Ano: 2014
Diretor: Jean-Marc Vallée
Gênero: Biografia e Drama
País de Origem: Estados Unidos
Avaliação: ★★★☆☆

Links da semana

Não, fazer postagem com links da semana não é novidade alguma. Porém, há algumas coisas que chamam a atenção em meio ao turbilhão de informações jogadas em nossas caras todos os dias, não é? Então, todo domingo vai ter essa sessão aqui. Eu gosto e espero que vocês também 😉

  • Quando Charlie Brown conhece Snoopy e leva pra casa
    Sim, eu adoro o Charlie Brown. E no início dessa semana o Vicente Carvalho do site Razões Para Acreditar fez esse post lindo do Charlie e do Snoopy.  O vídeo mostra quando e como os dois fofos se conhecem. São dois minutos e quinze segundos de muita fofura. Vi que alguns sites vincularam esse post com a adoção de animais abandonados. Legal, não?
  • O que vem depois do eu te amo
    Vocês não conhecem o Chata de Galocha? Então, depois que terminar de ler esse post dá uma passadinha por lá.  A Lu (sim, íntima) é uma mineira super alto astral, com conteúdos interessantes e vídeos que merecem mil likes. O blog dela possui alguns colaboradores e uma delas é a Marcella Brafman que tem uma coluna quinzenal lá no Chata, com textos tão incríveis como esse. Para alguém que tem dificuldade em dizer “eu te amo” o texto é meio que encaixe perfeito.

Já consegui dizer “eu te amo” de N formas. Até mesmo quando disse “não quero te ver mais”.

  • Queria me costurar no mundo
    A Chez Stephanie Noelle é jornalista e quando não está postando matérias sensacionais no Petiscos, está no seu blog pessoal. Quando leio os textos dela dá vontade de falar: vamos sentar e conversar por hooooooras? Quando eu li esse texto eu pensei: é ok ficar perdida mesmo, achar que as escolhas  talvez não seja sinônimo de conquistas e me fez ficar pensando o que eu entendo por conquista e coisas assim. O sentimento de às vezes ser uma fraude também rola por aqui, viu Chez? Ah,  e o que são essa ilustrações no meio do post? Amor ❤
  • Vídeo: pessoas beijam-se em praça pública
    Estava eu, numa boa pela minha timeline, quando várias pessoas começaram a compartilhar esse link com frases positivas e romantizadas sobre ele. Imagina você passar por uma praça e ver uma movimentação estranha, um palco armado e um telão gigante? Imagina então se nesse telão começam a ser projetados esqueletos trocando beijos e/ou abraços? Pois é, rolou isso e conforme as pessoas foram saindo a plateia foi surpreendendo-se.
  • 7 milhões de dúvidas
    Espero, de verdade, que vocês conheçam a Jana. Ela, junto com a Chez que mostrei ali em cima, poderiam marcar comigo um dia no bar. Sabe, acho que iria aprender muito com as duas, já que não tenho metade da experiência de vida delas. A Jana ficou um ano fora, viajando pelo mundo e agora a rotina bate a sua porta, assim como os compromissos. E, como eu em alguns vários momentos da minha vida, não sei o que fazer, ela também não. Entre o medo de publicar o não, tem essa dose de realidade. Acho que o texto dela e da Chez se complementam de alguma forma. Ambos incríveis, pelo menos para mim.
  • Feminismo para homens, um curso para homens
    Adoro os conteúdos do Papo de Homem. E logo agora pela manhã me deparo com esse post deles. Não o li todo, pois é um pouco extenso e tenho que focar em outras coisas agora. Mas, sem  a menor dúvida o público alvo são os homens, mas eu e você que não sabe praticamente nada sobre o Feminismo pode dar uma olhada e ficar instigado a saber mais sobre.

É isso.
Até domingo que vem!
Beijos, Van.

Sem medo de falar: Relato de uma vítima de pedofilia

gNa cidade onde eu moro não tem livrarias bacanas, sabe? Então, na primeira oportunidade que eu tenho gosto de ir em livrarias com mais coisas do que a que tenho a minha disposição. Apesar de ter sido uma passada rápida, no retorno de uma viagem, a Saraiva localizada no Aeroporto de Guarulhos foi a escolhida. Andei, andei e os livros da listinha não tinham lá.  O encanto ficou todo depositado na agenda da Mafalda, que é a melhor adesão do ano. Nos 45 do segundo tempo, já que iria ter algumas horas de voo, resolvi levar esse livro aí, que parecia ser água com sal, mas como gostei da capa (exceto por esse logo amarelo), acabei levando.

Quem nessa humilde vida não gosta de uma surpresa? Pois é! Fui surpreendida, aos poucos, com a história. Nesse relato auto biográfico Marcelo Ribeiro mostra quão profundos, intensos e vivos podem ser os rastros de um trauma.

Quando o seu relacionamento entra em crise ele percebe que chega a hora de perder o medo de falar.

DSC03830Quando decide perder o medo de falar, muita coisa aconteceu na vida desse empresário: participou desde a infância até certa idade do coral da Igreja de sua cidade, foi braço direito do seu maestro, saiu do coral, se apaixonou, teve problemas de relacionamento com amigos e namorada, família e qualquer outra pessoa. Seu jeito frio e muitas vezes preconceituoso causava incomodo, bem como sua falta de intensidade nas relações.

Sem medo de falar traz para cena a voz de alguém que foi abusado durante a infância. Apresenta também como funcionava,  social e pessoalmente, trazer a tona questões em torno da pedofilia. No livro é colocado em xeque, obviamente, a Igreja Católica e os casos de   abuso infantil que começaram a fervilhar a moral dessa instituição religiosa  nos últimos três, quatro anos.
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Não só o relato compõe o livro, mas também toda a sua estrutura. No final de cada capítulo Marcelo Ribeiro opta por colocar uma notícia sobre algum caso de abuso infantil relacionada a Igreja Católica e sua repercussão.

É interessante notar as demais referências trazidas como, por exemplo, o filme As vantagens de ser invisível com roteiro e direção de Sthephen Chbosky, entre outros, que giram em torno do tema do livro. Acredito que leituras devem te deixar com sede, e eu estou, de saber mais sobre o tema e de beber das referências indicadas pelo autor.

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Como estudante de Psicologia eu preciso de referências, inspirações que não sejam só Leminski e John Green. Livros devem nos causar um certo impacto, nos torturar, nos retirar da zona de conforto. Sendo assim, esse livro cumpriu sua função. Pensar nos prós e contras da posição que a Igreja Católica vem tomando em relação aos abusadores em meio a sua instituição, bem como a sociedade civil enxerga casos assim já é um começo. Além disso, é preciso acessar de algum modo esse tipo de vivência, e o livro ajuda, e muito, nisso.

O autor indica a leitura para “todos os pais e os que amam as crianças”. Sendo assim, todos devem aproximar das questões de abusos infantis, seja pela via da leitura de um livro, da legislação, da profissão sob a qual atua. O medo de falar deve ser perdido por todos. Há instituições que não são tão sólidas assim e precisam ser estremecidas e demolidas mais efetivamente, ao menos naquilo que é a sua falha, ou seja, muito.

De tudo no livro, gosta da ênfase que o autor dá para o abusado, principalmente nos momentos finais: para se perder o medo de falar é preciso de alguma forma ter segurança, apoio e ouvidos. Falar não é fácil. E ouvidos para isso, quem tem?


Livro | Sem medo de falar: relato de uma vítima de pedofilia.
Autor | Marcelo Ribeiro
Editora | Paralela
Nota | 4 (considerando de 0 a 5)

Camisa preta, escritos amarelos e o cinema

Fazer faculdade é estar imersa em um outro universo. Lá você encontra de tudo um pouco e aprende, aos poucos, que você não é nem um grão de areia para poder julgar o outro. Lá você aprende que a vida é de fato repleta de singularidades e tem que tomar cuidado para não cair na besteira de dizer que “o normal é ser diferente”.

 Lá você aprende que uma camiseta preta, com letras amarelas escritas Pedro Almodóvar desperta curiosidade, de início, só por achar a camiseta bonita. Esse espanhol, com a cara simpática é cineasta e eu não sabia. Aliás, sabia da existência de um filme chamado A pele que habito, porém, que ele é diretor são outros 500.

almodovarEnfim, nesse mundo de recesso acadêmico, devido ao fantástico mundo da copa, reservei um tempinho para assistir alguns filmes dele. Aliás, dois. O mencionado acima e Os amantes viajantes. Podia ter assistido mais? Sim. Porém, em mundo de Netflix, baixar filmes virou perda de tempo. Então, fiquei com esses dois.

Não sou nenhuma especialista em filmes, portanto aqui não há pretensão em analisa-los. Mas, os filmes me tiraram o folego. Deixaram-me com nó na garganta. Preciso respirar e desfazer os nós.

Os amantes viajantes

Viajar de avião me dá medo, às vezes. Qualquer tilt que o sistema de um aeronave tenha, pode deixar todos os passageiros com um certo desespero. E quando o trem de pouso não funciona, como lidar?

Passageiros-650x400Achei um filme intenso. Há vários dramas no filme que são tratados do começo ao fim, com emoção, sensibilidade, comédia. E gosto de filmes assim. O diretor não mede esforços em explorar o campo da sexualidade, que pelo que li, é constante em seus filmes.

É impossível não achar que há um tom autobiográfico nesse filme, já que Almodóvar é gay assumido. Mas não é isso que brilha os olhos. O que me fez gostar é o fato de que a vida é repleta de tramas e dramas. Que o cinema, quando em boas mãos e em bons olhares, consegue traduzir quão medíocre a vida é, porém que a possibilidade do riso ou do gozo existe. Acho a comédia uma das melhores formas de abordar as coisas da vida, e claro com esse filme não foi diferente.

Que virgens percam a sua virgindade. Que assassino de aluguel evite matar mulheres e que uma das suas vítimas se torne amante. Sim, que relacionamentos gays sejam consumados. Que amante e amado tenham vínculos. Que filha distante do pai falido, volte. Que sejamos dopados (ou não) quando a instabilidade da vida surgir.

Mais sobre o filme:

Site Oficial | http://www.losamantespasajeros.com/index.php

Crítica | http://omelete.uol.com.br/os-amantes-passageiros/cinema/os-amantes-passageiros-critica/#.U5zUmygbIpk

Netflix | http://www.netflix.com/WiMovie/70270748?sod=search-autocomplete

A pele que habito

030Se eu tivesse uma vida na qual eu tivesse assistido ao menos uns mil filmes, poderia dizer que esse está na lista dos: filmes que me tiram o fôlego ou filmes que me estremecem. A sensibilidade feminina é trazida nesse filme de maneira tal que é impossível piscar. É impossível não dizer: vejam, não é tão simples assim esse mundo.

Ao ouvir o Podcast do Cinema em Cena, sobre Almodóvar, eles abordam o filme. Em uma das falas dizem sobre rasteiras. E essa foi a melhor definição para o filme. Lembro-me de ter sentido assim ao assistir Ninfomaníaca I e II de Lars Von Trie. Achei que só com os filmes dele me sentiria assim. Felizmente não.

Sabe, algumas feridas quando cicatrizadas criam uma casca. Quando criança gostava de retirá-las, mesmo que doessem. Achava que a ferida tinha que ficar em aberto para respirar, mas acabo achando que é pelo prazer-desprazer causado. Esse filme me deixou assim: com um prazer por assisti-lo e por colocar em cheque comigo mesma vários assuntos: estupros, o feminino, o masculino, a estética, a ciência desenfreada.  Com um desprazer tremendo, pela angústia, pela dor, pelo sofrimento que a trama traz a tona.

Durante a graduação os professores indicam filmes. Esse era um deles. Porém, se não fosse a camiseta preta com escritos amarelos eu não teria assistido esse filme para calar minha curiosidade. Só basta dizer que vale a pena. Quanto futura psicóloga, cabe assistir mais vezes pelos assuntos clínicos abordados. Quanto ignorante em processo de designorização, para pegar as sutis referencias e para manter a sede do novo e de mais filmes.

Além do soco no estômago e do choque com o filme, que abalou minha pacata vida, só tenho uma coisa a dizer: assistam.

 Mais sobre o filme:

Site Oficial | http://www.lapielquehabito.com/

Crítica | http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/filme/ver.php?cdfilme=5727

Netflix | http://www.netflix.com/WiMovie/70189304?sod=search-autocomplete

Eu e a sétima arte

Algumas coisas acontecem em nossas vidas e não sabemos o início delas. Eu não me recordo, por exemplo, qual a primeira vez que eu fui ao cinema. Porém, me lembro que com o passar dos anos passei a assistir com mais frequência. Alias, as salas de cinema foi marco de um dos momentos mais constrangedor da minha vida e isso seria o suficiente para a minha relação de afeto com ela acontecer. Na verdade, acho que as salas de cinema passaram a ser um trauma, mais ou menos resolvido.

Um dos meus universos, ou seja, a faculdade, trouxe de novo essa relação para os cenários da minha vida. Foi nesse mesmo universo que passei a ter contato com um filósofo alemão chamado Friedrich Nietzsche que em uma de suas obras afirma que não temos acesso a todas as vivências e, sendo assim, nossos ouvidos são surdos para algumas delas ou provocam desvios naquilo que se escuta, de forma tal que uma vivência não é acessada com precisão.

Ora, se não posso vivenciar tudo, de todos os mundos, é possível acessá-las de outras maneiras. É preciso criar rotas no meu mapa cognitivo, enfim é possível e preciso sair da caverna platônica. Sair da sombra e deixar se sacolejar pela curiosidade, pelos causadores de sombra, pelos universos.  Acho então nos filmes, uma das formas de acessar esses mundos intensos e queridos.

Confesso que às vezes queria ser uma excelente critica de cinema. Como todas as coisas na vida quero tudo ao mesmo tempo, quero dar passos maiores que a minha perna. Porém, a cada filme, a cada crítica lida, a cada conversa ouvida sobre diretores, filmes, atores, atrizes, roteiros, fotografias, trilhas sonoras eu respiro profundamente e solto o ar. Como galinha, vou enchendo meu papo com pequenos grãos. Grãos que me emudecem, me engordam, que eu rumino e faço a digestão. Que é expelido, explodido sem direção exata, sem tentar atingir ninguém diretamente, mas que me atinja primeiro.

Nunca ouvir falar desse diretor, e olha, esse espanhol me deixou meio away. O alívio ou uma estabilidade maior só vem agora, ao finalizar esse texto. Que mais filmes venham, que o olhar se renove, que o ordinário seja estremecido e que não haja sempre um trem de pouco para me dar segurança.

Mais sobre o diretor:

Descrição no Filmow | http://filmow.com/pedro-almodovar-a75339/

Podcast no Cinema em Cena sobre alguns de seus filmes  | http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=50452  (Olhar aqui as sugestões literárias que o site sugere).