Sobre o novo, de novo.

Esse ano teve tantos inícios e fins. Tantos idas ao meio, ao fundo do oceano. Teve calmaria e ressaca. Teve retorno à margem  (mesmo ela não sendo a mesma coisa, pois havia mudanças ali, lá, aqui).

Aconteceu tanta coisa que eu tive – mais uma vez – a doce ilusão de que estava acostumada com o sabor agridoce da mudança. Com o sabor que faz fechar os olhos de tão azedo, mesmo sendo esse sabor ingrato morada de prazer. Que pararia, de uma vez por todas, de escrever palavras tolas sobre sair da zona de conforto e ir para o confronto.

Não é assim. Não é previsível. Será que algum dia eu vou aprender?

Daí o tempo passa, e tudo mudou de novo. E a fragilidade berra. É inevitável querer voltar a posição fetal. Ser feto. Não lidar. Será que fugir sempre será a primeira alternativa?

E vem tombos. A insegurança está do seu lado. O medo instaurado. E novas marcas sendo feitas nesse corpo cansado, de ombros pesados, de pulmão que suporta respiros profundos.

Tem dias, desses novos dias, que se tudo fosse jogado no chão, destruído. Se um furacão passasse no meu quarto-mundo e trouxesse a bagunça interna para um cenário onde pudesse ser visto tudo, seria mais fácil de organizar. Seria mais fácil juntar os cacos. Seria mais fácil criar outros laços. Seria? Queria!

Há dias, desses novos dias, que parece que estou no mar calmo. O único movimento é aquele do próprio mar. Fico ali por horas, e quando resolvo sair sinto meu corpo com dois movimentos: o de ir para frente e o de se mover da esquerda para a direita ou o contrário, tanto faz. Eu só estou indo.

Mas tem dia, desses novos dias, que sinto tudo, tanto. Sinto coisas inomináveis. Encontro com fantasmas. O sono não me encontra, não nos encontramos. Há cortes, literais. Há sangue que jorra e parece que não vai estancar. Há lágrimas engolidas, mas tem dias que elas beijam bochechas, boca e pescoço, até o seu fim. Há dias que o berro é silêncio. Em outros dias, não tem berro, não tem silêncio, tem eu em frente ao espelho. Daí tem fuga, tem palavras bestas, tem um alívio mínimo.

Esses novos dias tem sido ímpar, tem sido vida, de outra forma vivida. Espera um pouco, não finda ainda, tá querida?

Our time is ever on the road

The ride is in what we make

I walked a year to hear a howl in this give and take

But hear it this way- hear it this way

Alright!

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Das linhas que não escrevi…

…. e que me sufocam.

…. e que torturam.

…. e que ficam movimentando pensamentos tortos e tolos.

…. e que tornam trágico cada vivido, que os tornam dramáticos, intensos, densos e imensos.

…. e que me fazem querer fugir e escrever.

…. e que me fazem encarar a página dos diários virtuais, reais e querer fugir.

…. e que me fazem, ao encarar a folha em branco, não encarar absolutamente nada.

…. e que fazem lágrimas caírem e algo aqui dentro ser torcido e elaborado de alguma forma, mesmo torta.

…. e que me fazem, enfim, escrever algumas linhas sobre aquilo que senti (ainda sinto). Sobre aquilo que vivi (e ainda vivo).

Linhas escritas, enfim. Fim (?)

Vulnerabilidade, diga-me do que se alimenta?

O meu último texto aqui, nesse espaço público que se relaciona diretamente com o meu mundo privado, eu contei sobre o livro “A arte de pedir” da Amanda Palmer. Eu gostaria de escrito várias coisas sobre o livro, e acredito que escrevi algumas coisas interessantes sim. No entanto, o que mais me assustou foi como eu coloquei a questão da vulnerabilidade. Desde então, só consigo pensar e questionar sobre o que é vulnerabilidade. E, provavelmente, esse vai ser mais um monólogo, porém, compartilhado.

vulnerável
vul.ne.rá.vel
adj m+f (lat vulnerabile) 1 Que se pode vulnerar. 2 Diz-se do lado fraco de um assunto ou questão, e do ponto por onde alguém pode ser atacado ou ofendido. 3 Que dá presa à censura, à crítica. | Fonte: Dicionário Michaelis Online

Aprendi em uma das aulas de Psicologia que, muitas vezes, há pacientes/clientes que chegam aos consultórios sem nomear o que sentem, pois não sabe que nome tem aquilo que sentem. Percebi, com o post anterior, que eu não sabia de fato o que é vulnerável ou o que é vulnerabilidade e, se o que eu sentia diante de algumas situações é de fato isso. Enfim, o nome e o sentimento são compatíveis.

Vulnerável vem do latim vulnerabile-, com idêntico sentido de «que, ou por onde, pode ser ferido». Quanto a vulnerabilidade, é a qualidade de vulnerável e provém do mesmo étimo, com o sufixo -idade. Os seus contextos, como é evidente, têm de se relacionar com os significados destes dois termos, por exemplo: «Fulano é muito vulnerável», isto é, pode facilmente ser ferido, tanto física como moralmente. | Fonte: Ciberdúvidas

De fato eu acho que posso ser facilmente ferida. Tenho medo ser o lado “fraco”, de ser ofendida e receber críticas pesadas. Tenho medos que me paralisam. Tenho medo da vulnerabilidade e é esse medo que me torna vulnerável. Talvez seja engraçado, mas isso faz com que eu erga mil e uma barreiras. Isso faz com que eu não tome nenhuma atitude e assim ame a minha zona de conforto (para depois reclamar da monotonia). Acredito que as coisas não são piores, por em alguma medida eu enfrentar os meus medos e, assim, não aparentar ser fraca demais.

Esses medos existem, e vou caminhando com eles. Talvez, hoje eu pense mais sobre a vulnerabilidade, mas ela está comigo – não se assusta não, mas com você também – desde que nascemos. Em grau mais ou menos intenso. Quando nascemos, estamos vulneráveis ao mundo e as construções que já existem nele. Não sabemos qual será o nosso lugar na cadeia alimentar e de medo em medo, de erro em erro, de felicidade em felicidade, vamos nos constituindo.

Acredito (hoje, amanhã não se sabe) que ser/estar vulnerável tem ligação com o reconhecimento de tal sentimento (conceito, palavra, qualidade ou qual o nome que você queira dar a isso). Ao reconhecer os pontos vulneráveis que temos é como um desabar, quase sem fim. Quando há esse reconhecimento, é um sinônimo de reconhecer também a sua pequenez e que por mais que haja construções suas para se proteger disso, chega um momento que não dá. Até aqui, tudo bem! Mas, parece que cada vez mais vivemos em uma sociedade que ser triste, fraco e, até mesmo vulnerável, não pode não! Temos que ser felizes vinte e quatro horas por dia e, caso não consiga, há vários recursos fornecidos pela indústria capitalista para a sua felicidade artificial.

Já escrevi isso algumas vezes: acredito que os conflitos pessoais muitas vezes se resumem em uma luta de você contra você mesmo. E, quando há um casamento seu, com você [1] , as coisas podem ser melhores, embora isso não signifique sem dor. Até aqui, falei sobre a vulnerabilidade no plano individual. Óbvio, esse é um blog pessoal e eu sou um tanto narcísica. Sorry, I can’t be perfect! 

No entanto, também durante as minhas aulas na Psicologia ouvi muito falar sobre “grupos vulneráveis”. E, quando eu fui pesquisar sobre o significado da palavra vulnerável, me encontrei com essa definição abaixo e ouvi uma voz falando: queridinha, seje menas e preste atenção que tal questão está além do seu próprio umbigo.

A vulnerabilidade é a qualidade de vulnerável (que é susceptível de ser exposto a danos físicos ou morais devido à sua fragilidade). O conceito pode ser aplicado a uma pessoa ou a um grupo social conforme a sua capacidade de prevenir, de resistir e de contornar potenciais impactos. | Fonte: Conceito.de

Então, eu, você, e diversos grupos sociais vivemos situações de vulnerabilidade. Eu não tenho fôlego ainda para escrever sobre a vulnerabilidade social, ou como eu lido com todas essas coisas incomodas no mundo. No entanto, a cada instante acontecem coisas para as quais não nos sentimos preparados, algo que nos atravessa, que nos mostra nosso melhor e pior. E sim, temos que encontrar nossas formas de lidar com isso. E não é sem questionamentos que isso vai ocorrer, sem nos olharmos no espelho e percebermos nossas imperfeições e feições belas.

Mas, será que queremos nos olhar no espelho? Temos força para isso? Você, aí do outro lado que me lê, tem coragem de aceitar que, às vezes, não tem problema nenhum se jogar em algo que pode te ferir? (será que eu sei?) Você sabia que é só se jogando que vai saber o que pode ferir ou não? Olha só, tem remedinhos para a ferida, seja um band-aid, uma conversa ou simplesmente o tempo.

O problema, acredito eu, não é ser vulnerável, mas sim fugir e não querer encarar as suas próprias fraquezas. E, no final das contas, não é a vulnerabilidade que deve responder como se alimenta, e sim nós, respondermos como alimentamos nossa vulnerabilidade.

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[1] Obrigada, Victor, por compartilhar aquilo que você ouviu. Fez sentido para você, e para mim também 🙂
* Tay, isso aqui tem muito de mim, mas acredito que tenha um pouco de nós, das nossas conversas. Obrigada.

Livro | A arte de pedir – Amanda Palmer

Sou dessas pessoas que se apaixona por capas de livros. Sou dessas pessoas mesquinhas, que julga pela capa. É pela capa que a minha curiosidade é despertada e é na capa que me encantou que eu fixo os meus pensamentos. Questiono: o que é que esse livro tem?

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Ora, ele tem o que todos os livros tem: diagramação, algumas letras, talvez imagens. Contém histórias, boas, ruins, intensas ou não. Há coisas que um livro tem que escapa a qualquer resposta então, que cada um tenha sua experiência com esse livro. Eu venho contar da minha.

Amanda Who?

Você sabem quem é a Amanda Palmer? Não? Eu também não sabia. Me encantei por essa capa e, apesar de achar escrita na parte inferior com um quê de auto-ajuda, me joguei na leitura. Mas, antes fiquei um tempo querendo saber sobre esse lançamento, que li depois de um longo tempo, após o primeiro encontro. Fiz umas buscas no senhor google e ele me contou umas coisinhas, mas lendo o livro percebi que ela não era só a esposa do Neil Gaiman.

Ela foi uma estátua viva, em uma das esquinas de Boston. Foi assim que ela aprendeu sobre o pedir, sobre os olhos nos olhos, sobre a troca humana, sobre o dar e doar-se e sobre receber isso de volta, de alguma forma.

Amanda é compositora. É performer, pianista, cantora. Ela teve uma banda, chamada The Dresden Doll. Eles assinaram com uma produtora, venderam 25 mil cópias de um álbum e isso era muito pouco, mas para Amanda e seu amigos de banda não.

Amanda cansou dessa vida de gravadora e produtora: não havia conectividade entre eles. No entanto, ela tinha (e sim, ainda têm) uma imensa rede espalhada pelo mundo de fãs. E foi a eles que ela recorreu, via seu blog e outras redes sociais, para que eles ajudassem ela e sua banda a gravar um álbum independente. Para essa empreitada ela precisaria de 100 mil dólares. E, bom… 25 mil pessoas contribuíram e ela conseguiu mais de 1 MILHÃO DE DÓLARES.

É a partir dessa arrecadação colaborativa – a maior que o site Kickstarter teve –  que ela fica ainda mais conhecida. O TED a chamou para falar em seu palco e dessa fala surge o livro. Sim, Amanda também escreve. Amanda é muitas coisas. Quer saber mais? Leia o livro, aqui só o que fisgou minha atenção, sabe lá o que fisgará a sua, não é mesmo? 🙂

Conectividade, conexão, contato: olhos nos olhos, sentir. 

A arte de pedir trata de encontro. Contato. Olhos nos olhos. Uma arte, de fato. Eu sei, e você que me lê também sabe, que um contato de verdade com outra pessoa é difícil. É espinhento. É vulnerável. Olhar nos olhos exige coragem: quantas coisas um olhar pode dizer? Fazer sentir?

Bauman até diz da liquidez da nossa sociedade, mas será que somos miseráveis demais para nos reduzirmos a liquidez da coisa toda? O filme Her também diz de certa liquidez, ou dessa conectividade que, aparentemente, mais afasta do que aproxima. Será? Será que não há sentimentos? Afetos? Histórias a serem contadas, trocadas, vividas?

Ao meu ver, a sacada que Amanda teve foi a sua relação com o outro. Seja como estátua ou como cantora. Durante horas paradas sob o sol ou se jogando (literalmente) na multidão: ela sempre buscou se conectar de alguma forma com as pessoas que a cercavam. É preciso entrega, cultivo, trocas, conversas, bebedeiras, 140 caracteres trocados ou parágrafos e mais parágrafos contando sobre a sua vida (e lendo sobre a vida do outro também)

Atualmente, a conectividade é reduzida a um gadget. As redes sociais são palcos de debates e compartilhamentos que expõe o que é podre em cada um de nós, e nem percebemos. Sou só eu ou vocês imaginam que um botão de curtir e compartilhar é bem mais do que uma ferramenta de uma rede social? Além disso, sou só eu que olho para os meus contatos no Facebook e sei que de alguma forma eu tenho relação com qualquer uma delas? Que elas não são apenas números? Obviamente, tem pessoas que eu discordo, que eu nem me importo se está de fato bem ou não. Mas, com cada uma delas eu tive contato real ou virtual. Então, até que ponto essa conectividade trata só de números e até que ponto se trata de relações, de fato?

Conseguir um financiamento coletivo com o valor que Amanda conseguiu foi inédito. Quão inédita são nossas relações, hein?

Meu encontro com Amanda

Não, não encontrei ela olhos nos olhos. Só olhos nos escritos.

Não sei se pela fase em que vivo, de uma sensibilidade tal que tudo me emociona ou me enraivece (juro, não é TPM), vários momentos do livro me sugaram, sabe? Me colocaram a pensar sobre como somos uma fraude com nós mesmos, ao não nos arriscarmos em coisas que estão aí, na nossa cara. Como somos ingênuos em não tentarmos t(r)ocar o outro, com o outro, sabe?

As coisas, aqui no meu mundo e como leio ele, não andam bem. É maldade, desespero… são relações tão desumanas que nem sei porque esse mundo existe. Talvez lá em Marte ou Plutão a vida seja mais interessante. Veja só o que acabo de escrever: é só mais uma forma de fugir, de não me relacionar, de não me lançar.

A coisa que mais tenho medo, pasmem, não é de morrer ou que as pessoas próximas a mim morram, mas sim me sentir vulnerável e exposta. Mas, olha que contradição, escrevo em um blog, coisas bem pessoais até, e tenho medo justamente disso.. vá entender. Quem dera eu fosse artista….

É o seguinte: todo mundo parte de alguma carência. Queremos que nos vejam, nos entendam, nos aceitem, se conectem com a gente. Todos nós queremos que acreditem na gente. A única coisa é que os artistas costumam ser mais… veementes a respeito disso. (Trecho do livro)

Amanda diz que não é fácil sermos nós mesmos. Que construir relações não é uma coisa muito fácil não, mas é possível e essencial. Ela diz que pedir não é sinônimo de mendigar e as possibilidades são duas: receber um sim ou um não. E bom, a vida segue, não tem escapatória.

Vulnerável talvez seja deixar seu corpo nú correndo o risco das pessoas enfiarem a mão no seu cú! Isso que vamos vivendo, é fragilmente forte e vamos nos incomodando com esse movimento. Mas veja bem: só é tão vulnerável quem confia. Há confiança?

Muitas vezes me perguntam: Como você pode confiar tanto nos outros?
Confio porque é a única maneira que funciona.
Quando aceita a ajuda de alguém, seja em forma de comida, acomodação, dinheiro, ou amor, você tem que confiar na ajuda que é oferecida. Não dá para aceitar as coisas pela metade e entrar na casa com a guarda levantada.
Quando você confia aberta e radicalmente nas pessoas, elas não só cuidam de você, como também tornam suas aliadas, família.
Às vezes as pessoas se mostram inconfiáveis.
Quando isso acontece, a reação correta não é: Porra! Eu sabia que não podia confiar em ninguém!.
A reação correta é: Tem uns que são uns bostas.
E segue-se em frente.
” (Trecho do livro)

Seguimos: pedindo, vivendo, aprendendo, errando, sendo..

O Acompanhamento Terapêutico é assim…

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Marcado por encontros, com algo e/ou alguém que não se conhece. É como se colocar em uma viagem, onde você pode até saber o destino, mas o mapa que você tanto viu por algum aplicativo ou uma tela do computador vai ganhar um olhar-lupa e mostrar detalhes possíveis somente com os encontro.

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Um fazer com. Se você fosse uma espécie de brinquedo, em meio a uma roda com pessoas desconhecidas e, além disso, fosse lançado/a de mão em mão, de olhos fechados, haveria confiança? A resistência do seu corpo e “alma” seriam leves e entregues o suficiente para seguir o ritmo de um/a outro/a? Se seus olhos fossem vendados e tivesse que andar por aí, com outra pessoa, você iria? E o seu território comum, a cidade que você habita e pode ser desconhecida: consegue andar por ela e talvez com ela? O fazer com não diz respeito só ao saber que encontramos nas nossas grandes referências bibliográficas, o fazer com é conosco, com o outro que acompanhamos e que, de certa forma, nos acompanha também.

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Marcado por respeito antes, durante e depois de entrar no palco. Aprendemos nessa caminhada, com o palhaço. Seu nariz não é colocado à toa. Ele não é tocado a todo o momento, há distanciamento. Quando confronta o seu público, as reações são ímpares. Ou melhor, pares: com os outros gque estão a sua frente. Lança-se ao desconhecido. Pode até ter uma caixa cheia de objetos para compor a cena, para entretê-la e entende-la, mas, às vezes, há a surpresa.  Parece-me que ela, a surpresa, é como aquela primeira mordida de churros: extremamente gostosa, um profusão de sabores, e só ao longo da degustação, com certa calma, cada sabor encontra o seu lugar. Alguns outros são perdidos, mas não há a pretensão de dar conta de tudo. Para tentar isso, sempre há outro churros, outra cena, outro território e assim o caminhar continua.  Por mais que pareça, não é solitário.

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Permitir que o outro entre: na sua casa, no seu cotidiano, naquilo que te compõe e muitas vezes ficam guardadinhas como algo precioso ou muito dolorido. As janelas e portas são abertas e muitas vezes, por mais difícil que seja aceitar, fechadas inesperadamente. É um trabalho sempre entre: entre a casa e o serviço de saúde; entre o esconderijo e a imensidão da cidade; entre a margem e o centro. Entre acompanhante e acompanhado e, de entre em entre um desterritorializar, intenso, constante e, com pouca dúvida, de trabalho paciente.

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Uma maneira de ocupação política dos espaços pela e com a loucura. A margem tem a sua beleza, não tenho dúvidas. Mas, os direitos ditos para todos, sabemos bem que não chegam lá. Quando os sujeitos ocupam outros espaços do/no centro, sejam eles mais próximos ou distantes de suas margens, vozes silenciadas até então aumentam e estranham. É como se algo despertasse instituições, população e cidade e dissesse “Hum, tem sujeito de direito na margem também”. E, mesmo que difícil essa ocupação, mesmo que atravessado por vozes, mesmo que muitas vezes em sua mão haja uma espada ou que ao andar de ônibus o seu comportamento não acompanhe a norma. Há espaço sim para esses sujeitos. Sendo assim, o AT é um dispositivo potente para construir e propiciar vias de funcionamento da rede de assistência pública, para aqueles que ouvem vozes ou para aqueles que não querem ouvir as vozes desses sujeitos tidos como marginais.

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Um tecer intenso e constante. É preciso um fim. Não cabe aqui eu alimentar meu ego e ficar horas a fio dizendo o que eu penso sobre o AT, até porque as afirmações tidas até aqui só me fizeram gerar outras questões. Eu, estranha que sou nessa cidade que tem inverno de verdade. Eu, que nunca tinha pensado outras formas de atuar na saúde pública, vi durante essa caminhada uma nova maneira de poder ser profissional psi. Os encontros ao longo desse semestre mostraram que é difícil esse abrir e se entregar ao outro. Que para isso é preciso que nossas fragilidades também sejam tensionadas. O nosso olhar, nunca vai ser para uma pessoa só, mas para os elementos que compõe a cena do acompanhamento como um todo. O tecer e na caminhada entre os vários entres que irão surgir. E é preciso ir, mesmo escuro ou claro demais, mesmo que a vista esteja embaçada. No horror e no humor sempre há beleza. Porém, fica o desejo de que a lente sempre tenha um sujeirinha que gere incomodo, para ser limpa e novas formas de ver o mesmo sejam possíveis de serem vistas e construídas.


Texto escrito como parte da disciplina “Introdução ao Acompanhamento Terapêutico” na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Lecionada pela profa. Analice Palombini, acompanhada pela profa. Rita Passini e pela estagiária docente Rita Barboza.

Quando a Teoria Queer vai ao supermercado

Sobre a cena

Qual cena do cotidiano poderia ser estranha e, além disso, por a pensar sobre “(Des) Construções identitárias”? Qual espaço poderia causar estranhamento, onde identidades sólidas, construídas socialmente estavam em movimento de desconstrução por meio de ações e pensamentos da Teoria Queer?

Alguma palestra? Algum grupo de estudos? Algum espaço fora da Universidade onde tal temática fosse tratada? Poderia ser, mas não foi. Escolhemos[1] o lugar no qual vamos ao menos uma vez por semana: o supermercado Zaffari, localizado na rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre – RS.

Chegamos por volta das 9 horas da manhã de uma segunda-feira e lá percebemos uma movimentação tranquila. Havia homens e mulheres, obviamente. Foi possível observar (ou seria dar mais atenção?) a algumas situações: a função de caixa era exercida somente por mulheres, e o carregamento de caixas ou empacotamento dos produtos por homens. Sim, encontramos sessões onde o binarismo é claramente marcado por cores, por imagens, por slogans. Homens acompanhados de listas de compras; mulheres que já conheciam o caminho para corredores específicos de cór. Idosos e idosas, adolescentes, jovens e adultos: aparentemente um local de convívio democrático.

Sendo assim, nossa cena não é estranha, é corriqueira. Porém, com o auxilio das discussões tida na disciplina de Gênero e Sexualidade, conduzida pela profa. Paula Sandrine e suas estagiárias docentes Daniela Dell’Aglio e Marilía Saldanha questões foram colocadas em jogo. Questionar o cotidiano, a partir de algumas teóricas Queer foi um movimento interessante. Afinal, não é disso que se trata? Olhar para o mais do mesmo e fazer uma releitura de tal cena sob a ótica de uma teoria? Me parece que sim. Isso não significa que encontramos ou pretendíamos encontrar respostas diante de ene problemáticas. Significa colocar o pensamento em movimento. Pensar, rascunhar críticas, exercitar de certa forma a empatia com o outro e questionar, sempre. As questões incitam movimento – de pensar e agir –, acredito eu, e sem elas a observação não faria tanto sentido.

É difícil, depois das discussões, da observação e da disciplina como um todo, olhar para propagandas de produtos vendidos em estabelecimentos como o observado e não imaginar que a mídia tem influência sim, e tem uma força discursiva impar na marcação (ou seria segregação?) binária dos sexos. É impossível olhar propagandas que mostram casais gays e lésbicos que realizam gestos de afetos e não questionar até que ponto isso é à favor de uma causa ou é só (mais um) jogo midiático e capitalista. Talvez, o questionar venha com esse cunho crítico. Mas, para fazer algumas afirmações ao longo desse escrito, a partir da observação do cotidiano descrito brevemente acima, é preciso demarcar o meu lugar de fala.

Quem fala e de onde fala

 Por muito tempo não me sentia implicada em discussões sobre gênero e sexualidade. Questões políticas então? Jamais! Acreditava que quanto mais quieta e longe de discussões desse cunho, melhor. Até começar a entender que o silêncio também marca um posicionamento, um lugar de onde o seu pensamento e ações são produzidos e com esse território não estava mais contente.

Foi durante algumas disciplinas realizadas no semestre de 2015/1 no curso de Psicologia da UFRGS que discussões com essas temáticas me atravessaram e, com a absoluta certeza, continuará como um sussurro ou um berro por muito tempo em meus pensamentos e ações.

Eu, mulher heterossexual, cisgênero de classe média me ponho a escrever aqui sobre questões de gênero e sexualidade. Principalmente, como a observação do cotidiano pode auxiliar a pensar sobre as (des) construções identitárias. De antemão, deixo registrado a minha dificuldade em conseguir escrever de maneira tal que todas as pessoas sintam-se contempladas e respeitadas. A escrita padrão do nosso “Brasil brasileiro” diz da nossa história como colônia, das marcas – arrisco a dizer – do binarismo de gênero construído há décadas e, infelizmente não consigo me livrar delas, ainda.

Em uma escrita tateante, buscando compreender e por em movimento o meu pensar sobre grupos tidos como minoritários a partir de uma cena comum e potente. Passarei brevemente pela teoria queer, cuja qual pouco sei, e que é o suficiente para dar continuidade as próximas linhas. Atenção: isso é um exercício, uma aposta. Possivelmente terá escorregadas, mas tentarei ter alguns pontos definitivos também, afinal, algumas certezas são necessárias (mesmo que depois outras relações sejam construídas e elas mudem).

Queer?! Talvez, cu!

Nesses quase quatro anos de graduação já ouvi falar sobre a teoria queer. Não sabia sua origem, de onde vinha e do que se alimentava. Ainda não sei com propriedade, mas algumas afirmações já podem ser feitas.

Primeiramente, queer é um termo que significa “um xingamento, é um palavrão em inglês” (MISKOLCI, 2012, p. 25). Quando falado em português parece uma palavra intelectual, que diz de pessoas que devem ser respeitada. Mas não podemos perder de vista o contexto em que ela surge.

Sabe-se que a AIDS em sua origem foi dramática. Médicos e a população mundial ficaram assustados com essa epidemia sem solução. Como era (e ainda é) vinculada a relação sexual gay, principalmente, tal epidemia contribui para a caracterização de gays e lésbicas como disseminadores de tal doença. Não é a toa que Miskolci (2012) afirma que a aids é sim um fato biológico, mas também uma construção social, onde “na primeira oportunidade, os valores conservadores e os grupos sociais interessados em manter tradições se voltaram contra as vanguardas sociais” (p.23). Foi nesse cenário, que na segunda metade da década de 1980 nos Estados Unidos, o movimento gay e lésbico se torna mais radical que o anterior contra uma força conservadora que ganha holofotes novamente.

A aids, portanto, foi um catalizador biopolítico que gerou formas de resistência mais astutas e radicais, materializadas no ACT UP, uma coalizão ligada à questão da aids pra atacar o poder e no Queer Nation, de onde vem a palavra queer, a nação anormal, a nação esquisita, a nação bicha. […] É assim que surge o queer, como reação e resistência a um novo momento biopolítico instaurado pela aids. (MISKOLCI, 2012, p. 23-24).

 Com esse breve contexto histórico é impossível afirmar que o efeito da palavra queer nos Estados Unidos é o mesmo que aqui no Brasil. Queer é uma palavra que nada diz ao senso comum, como afirma Pelúcio (2014), e também não fere os ouvidos de ninguém quando dito em ambiente acadêmico,

“ao contrário, soa suave (cuier), quase um afago, nunca uma ofensa. Não há rubores nas faces nem vozes embargadas quando em um congresso científico lemos, escrevemos ou pronunciamos queer. Assim, o desconforto que o termo causa em países de língua inglesa se dissolve aqui na maciez das vogais que nós brasileiros insistimos em colocar por toda parte. De maneira que a intenção inaugural desta vertente teórica norte-americana, de se apropriar de um termo desqualificador para politizá-lo, perdeu-se no Brasil” (PELÚCIO, 2014, p. 4).

Para pensar sobre qual palavra traria o mesmo efeito que o queer no Brasil, ou nos países latinos de maneira geral, Pelúcio apresenta toda uma argumentação sobre falarmos em uma teoria cu, baseado em Paul Beatriz Preciado, mas não só. Quando falamos em cu por aqui, há certo constrangimento e rubor como apontado no trecho acima. Assim, concordo com argumentos apontados por Pelúcio em seu texto Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil?, sobre falarmos de uma teoria cu,  pois só assim poderíamos nos aproximar do significado da palavra em inglês em nosso país.

Sobre a teoria queer, ainda é preciso salientar sobre o conceito de abjeção apontado por Miskolci (2012), vejamos:

Alguém atento percebe como a problemática queer não é exatamente a da homossexualidade, mas a da abjeção. Esse termo, “abjeção”, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política. […] A abjeção, em termos sociais, constitui a experiência de ser temido e recusado com repugnância, pois sua própria existência ameaça uma visão homogênea e estável do que é a comunidade. O “aidético”, identidade do doente de aids na década de 1980, encarnava esse fantasma ameaçador contra o qual a coletividade expunha seu código moral” (MISKOLCI, 2012, p. 23).

A partir dessa afirmação podemos pensar que não há espaço para algumas pessoas nos supermercados, pois elas podem ser vistas como fantasmas, como ameaça a “família tradicional brasileira”. Mas seria tais pessoas somente a comunidade gay?  Ou melhor, seriam somente os gays aqueles defendidos pela teoria queer? Não, como afirma Miskolci (2012, p. 25):

O queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, é a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados à humilhação e ao desprezo coletivo.

Todos aqueles que fogem a uma norma socialmente construída pode cair na fronteira da abjeção. Como os supermercados ficariam fora, não é mesmo? Quando escolhemos esse local, ingênuas queríamos ver a Teoria Queer ali, naquele espaço. Queríamos pegar na mão de uma teoria e levar ela para passear, fazer compras e ao se deparar com um produto X ou Y ter opções que a contemplasse.

Na verdade, com essa observação pudemos apenas entender que a Teoria Queer não chega a pessoas, por exemplo, que gerenciam o marketing de cada produto. No entanto, ela diz de grupos que costumamos a chamar de minoria, – e que cada vez mais tenho certeza que se trata de uma maioria – que gritam e clama por direitos, mas o lugar de fronteira não deixa que elas sejam ouvidas. Aliás, queremos ouvi-las? Quão aberto os ouvidos estão para essas várias vozes?

Em aula foi possível discutir um pouco sobre a diversidade e a diferença. Quando supermercados abrirem suas portas para as questões de Gênero e Sexualidade, tenho pouca dúvida que irá se tratar de “aceitar a diversidade”. Em outras palavras, quando se fala em diversidade estamos (ou podemos) falar de uma tolerância com pessoas de determinada cor, raça, gênero, entre outros. Precisamos de supermercados e demais espaços que abram suas portas para a diferença, pois aí sim, aquilo que é da identidade de cada um, da singularidade, daquilo que cada um é constituído ganharia holofotes.

Dessa forma, acredito eu, a teoria queer encontraria seu espaço no supermercado e em várias instituições e instâncias da nossa sociedade. E mais, a fronteira da abjeção seria desconstruída, mesmo que para isso seja necessária várias marretadas.

Porque é preciso de um fim…

Mas um fim cheio de lacunas, já que não acredito ser possível dar conta de tudo. Pelo menos não agora.

Diante do que aqui foi exposto me sinto a vontade para afirmar que a Teoria Queer ainda tem uma característica muito academicista. Ao menos a partir do pouco contato que com ela tenho. Então, como lacuna fica o convite para pensar sobre o agir: quais as formas estão sendo criadas para que espaços não acadêmicos conheçam essa forma de pensar? Quais ações populares, dessas que chega a comunidades e até mesmo a patrões, pautados nessa teoria (e também política, que aqui não foi abordada) queer? Como, estudantes, professores, pesquisadores e demais comunidade acadêmica está se engajando em ações que contemplem pautas daqueles que são barrados pela fronteira da abjeção e assim permanecem na margem? Como eu estou me implicando nisso ou procurando me implicar?

Acredito que as discussões de gênero e sexualidade podem ser lidas de diversas formas. Acredito que com algumas eu concorde mais do que outras, e todas elas tem a sua legitimidade. Entro em contato com esse tipo de discussão na Universidade e durante toda a minha formação na Educação Básica de Nível Fundamental e Médio tais discussões não eram tratadas, isso não significa que não existiam e que nos dias de hoje não existam. Usamos outra palavra em inglês para algumas ações discriminatórias, popularizada nas escolas e em outros espaços também, conhecida e reconhecida como o bullying. Isso não seria suficiente para que a dita “ideologia de gênero” fosse aprovada nos estados brasileiros? Diante da recusa em institucionalizar essas discussões nas salas de aulas do país, haverá o silêncio? Os currículos são tão rígidos assim? E as frestas que ele deixa? O trabalho de formiguinha não é considerado? Mais uma vez, como e quanto cada um de nós estamos implicado em questões como essas?

Quem discute? Quem escreve? Quem milita nessa/com/por essas causas marginais? Quanto quer? Quanto pode? Quais os caminhos? Como e onde é compartilhado o conhecimento, a discussão? Há mãos estendidas? Há ouvidos para os sussurros e os berros? Há busca para ruminar as questões que coloca em voga questões de gênero, sexualidade e demais demandas sociais? Construções há muito tempo enrijecidas tem seu ponto de ruptura, vamos romper? Queremos romper? Podemos romper? Lutaremos? É, como diz várias vozes em passeatas de alguns ou de quase todos movimentos sociais: a nossa luta é todo dia e, a cada dia mais tenho a certeza que as micro ações são tão potentes quanto as macros. Uma última questão: vamos lutar, pensar, agir e legitimar as questões marginais?

[1] O Grupo foi formado por Irene Bermúdez, Katherine Rebolledo e Vanessa Proença.

Referências

MISKOLCI, Richard. Cap I e II. In: MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autèntica Editora: UFOP, 2012, p. 21-53.

PELÚCIO. Larissa. Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil? Periódicus, 2014, v.01, pp.15-39.


Texto escrito, originalmente, para a disciplina “Gênero e Sexualidade” do Curso de Psicologia da UFRGS,  ofertada pela Profa. Dra. Paula Sandrine e acompanhada por suas estagiárias docentes Daniela Dell’Aglio e Marilía Saldanha. Tal texto é oriundo de uma observação do cotidiano, onde era necessário tratar sobre “(Des) Construções Identitárias” a partir da Teoria Queer. É um texto experimental, baseado nas referências citadas e nas discussões ao longo do semestre.

O sufoco de olhar para trás

É estranho pensar que os dois primeiros meses do ano foram super corridos. Que no começo do ano eu voltada de um local desconhecido e, que em breve, iria para um local a ser desbravado. Metade desse 2015 já passou. E nesses últimos dias toda a felicidade que sinto pela escolha que fiz é engolida pelo sufoco de olhar para trás. É engolida pelo frio na barriga que há pelo voltar.

Sufoco desses sofridos. Desses que quero ficar no meu cantinho, contida. De ficar emburrada. De não querer papo. De ficar intragável.

Martha Graham- Lamentation | Por: Arien McOmber (Pinterest)

Martha Graham- Lamentation | Por: Arien McOmber (Pinterest)

Ao olhar para trás vejo uma Vanessa que não reconheço mais. Vejo um local que eu quero chegar e mudar tudo. Um local que eu quero só chegar e em breve deixar.  Mas, no fundo, a questão retorna para mim, a mudança literal e visceral está me fazendo pensar demais. Há vozes rondando meus pensamentos que não sei decifrar. Vontades que não sei como começar a realizar. Coisas para terminar. Mudei, talvez tenha amadurecido um pouco mais, mas eu sei lidar com esse novo?  O que é esse muito, tanto, pranto que sinto?

Olho para trás e vejo as oportunidades nunca vistas, e assim perdidas. Vejo que há oportunidades que posso criar, que devo investir, agarrar e ver o que dá e que antes eu também não via. Espero não perdê-las. Vejo que eu mereço mais em alguns pontos da vida e em outros, o quanto a minha arrogância e essa mania de querer dar conta do mundo me prejudicaram (e ainda prejudicam). Nessa brincadeira de esfoliar a pele e a vida, acho que a pele está exposta demais. Há resistência para os 40º diretamente na pele? À flor da pele?

Martha Graham - Lamentation | Por: Vadim Stein

Martha Graham – Lamentation | Por: Vadim Stein

O que fazer para respirar melhor e sair do sufoco? Tenho calma para essa lógica do grão em grão? Tenho coragem para tirar as minhas máscaras, meus medos e guardá-los um pouco para dar a cara a tapa de fato? Dar a cara a tapa para as feridas mais bem cuidadas e que eu nunca chego perto? Consigo vomitar todas as coisas que me afligem? E mais, consigo lidar com o pós vômito? A sensação de fraqueza já que tudo foi expurgado? Há força para se alimentar de coisas mais leves, até chegar a mais pesada sem que isso se torne um ciclo vicioso? Há Vanessa suficiente para isso?

Não sei, só sei que há sufoco em olhar para trás. Quando e como isso vai passar? Com o clichê: respira e vai. Com medo, com ansiedade, com dúvidas, com sofrimento e com sorrisos também. Mas, principalmente com questões. Aos poucos nos tornaremos grandes amigas – eu e as questões – e acharemos nosso caminho para vivermos mais leve uma com a outra, assim espero.

Martha Graham - Lamentation

Martha Graham – Lamentation

Até o nosso encontro, sufoco. Veremos se eu morro ou se eu te mato.