Diário de Estágio – Dias Finais | Parte final, mesmo.

Quando você olha para algum momento do passado, é engraçado. Quando penso como eu era no meu primeiro semestre da faculdade é no mínimo cômico, talvez até trágico. Dos discursos tolos que eu carregava inclui-se “não gosto de falar sobre política” ou, o clichê-mor, “político nenhum presta”. Quando havia (e sinto que em breve terá) greve dos professores, obviamente eu só via o lado ruim da coisa e não os direitos pelos quais eles lutam. Inclusive, ficava (e fico) na minha zona de conforto, sem ajudar, efetivamente em nada. Tola, eu sei. Agora sou um pouco menos. Uma das últimas coisas que aprendi nesse estágio foi a importância de saber, mesmo que minimamente, sobre política. Como se posicionar diante dos gestores e como cobrá-los.

Os funcionários da Unidade I do Adauto Botelho – Ala Feminina, protocolaram em várias instâncias um documento com “cunho de denúncia, moção de repúdio ao Governo do Estado e de posicionamento dos servidores que se viram na  responsabilidade de encaminhá-lo a diversas instâncias diante da situação de desesperança e abandono”. Tal documento possui 19 itens que reivindicam melhores condições de trabalho e direitos mínimos para os seus usuários.

O documento teve adesão dos funcionários públicos da referida unidade, aqueles que eu injustamente julguei, de maneira generalizada, que não gostam de trabalhar. Além disso, essas mesmas pessoas perceberam que era preciso ir além. Que esse documento não podia se perder, mais uma vez, em meio aos processos burocráticos. Sim, foi preciso ir às ruas. E foi lindo. Teve calorzão, teve não só os funcionários da Unidade I, mas como de todas as Unidades que compõem o CIAPS. Ah, teve eu e os meus colegas de curso e outros estudantes também. Saímos de uma praça e fomos parar na Secretaria do Estado de Saúde. Chamamos o Secretário e ele não estava. Porém, houve a conquista de uma reunião para que as Unidades fossem lá, falar sobre os documentos e exigir os direitos mínimos.

Não sei muito bem os desdobramentos disso. Porém, saí da zona de conforto por um momento. No final, aprendi que a vida também é feita disso: rompimentos. Aprendi, que se eu me iludir que em qualquer campo de trabalho que eu me inserir eu irei precisar só  dos conteúdos tido em cinco anos de curso, é pelo fato de eu ser uma completa idiota. Aliás, é sinônimo de que eu não aprendi absolutamente nada.

Fica aqui o meu muito obrigada, mais uma vez, aos funcionários da Ala Feminina. Em especial a Profa. Veline que arregala os olhos por causas justas e os fecha ao sorrir. Com vocês me inspirei, aprendi um pouco mais e ganhei vontade de insistir um pouco mais em questões que permeiam a saúde mental, principalmente em nosso município.

Para quem leu, até aqui, obrigada também. Espero de alguma forma ajudar e fazer com que percebam que cada passo dado não é em vão. Principalmente que lembrem-se de mergulhar nas coisas ou em algumas delas, e voltar para superfície só quando o oxigênio realmente está no final.


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dias finais | Parte 1

A proposta inicial era escrever sobre todos os 13 dias de estágio. Sobre os dias do sol e chuva. Sobre o dia em que a paciente surtou e como é sútil essa situação. Sobre os dias em que chamar os servidores de “tia” e/ou “tio” gera discussão e certo incômodo. Sobre o uniforme institucional que anula de certa forma a identidade de cada uma. Sobre a relação com as estagiárias de outra área do conhecimento e sobre os dias de luta, na rua, chamando o Sr. Secretário para uma prosa, tida somente alguns dias depois. Sobre as particularidades de uma das minhas melhores experiências e vivências em um espaço um tanto quanto cruel e doce. Enfim, percebam que não consegui. Mas, veja, não abandonei. A cada dia de escrita não realizada era uma dor, com a qual me acostumei. Sobrevivi ao semestre-cão e cá estou, com mais alguns post sobre isso. Algumas palavras sobre o que, infelizmente, não pode ser transcrito de maneira literal.

Lembro que no século passado, quando escrevi pela última vez sobre isso, relatei um pouco da história da instituição.  Reli esse texto e queria ressuscitá-lo, há erros por ali e uma escrita meio pobre, a meu ver. Enfim, deixei o texto morto mesmo resolvi falar sobre outro ponto interessante desse estágio: como se dá o trabalho em uma equipe multidisciplinar (apesar de achar que outras questões irão aparecer a partir disso)

A Universidade é meio estranha. Faz você pensar que não é possível uma relação minimamente horizontal entre um psicólogo e um médico, por exemplo. Mas,  é possível encontrar uma linguagem comum para ambos, sabia? Eu não! Quando cheguei no primeiro dia de estágio era reunião da equipe, várias áreas do conhecimento analisando e opinando sobre o paciente a partir de sua área. Algumas resistências, talvez, mas nada que deixasse o espaço mudo e o caso sem um direcionamento.

A política do SUS impõe, de certa forma, que o serviço funcione com essa horizontalidade profissional, já que só uma área do conhecimento não dá conta de um sujeito e em conjunto pode potencializar sua melhora, por exemplo. Não sei como isso ocorre nas outras Unidades do CIAPS (mentira, sei um pouco, mas não cabe nesse espaço falar), porém devido aos anos de convivência da equipe da Ala Feminina é possível perceber olhares que falam mais do que aquilo que se verbaliza. O cuidado com que tratam suas pacientes e a preocupação com elas foi absurdamente incrível de se observar.

Perdi nesses 13 dias o discurso ordinário de que servidor publico não gosta de trabalhar. Você já imaginou trabalhar em um local com esgoto passando em determinado caminho do espaço de trabalho? Em um local onde apenas uma linha de telefone funciona, sendo que para um bom atendimento é preciso de mais? Onde as pessoas que dependem do seu serviço ficam em um local que nem toalha para secar o seu corpo tem? Em um local onde materiais mínimos para realizar um curativo ou uma oficina terapêutica não existem? Aonde o medicamento chega somente no fantástico mundo das autoridades, enquanto no mundo real, aquele que te deixa cortes e te sangra, nada disso existe? Pois é, pode parar de imaginar e aceitar o fato de que não só nessa, mais em várias instituições públicas de saúde isso existe. E mesmo assim aqueles funcionários estão lá, sem desistir. Aprendi, meus caros, que há pessoas que só se preocupam se o seu salário estará depositado mensalmente em sua conta ou não. Aprendi, principalmente, que o dinheiro é uma consequência. Aprendi que há silêncio, mas que há pessoas que ainda gritam por direitos mínimos e que belos gritos  são esses, que arrepiam e sim, sem exagero, emocionam.

Uma equipe multidisciplinar não deve, em hipótese alguma, estar fechada em seus conhecimentos. É preciso nunca parar de estudar, não só sobre a sua área de conhecimento, mas sobre a vida mesma. É preciso saber do humano, da política, do corriqueiro. É preciso saber falar nas mais variadas instâncias. É preciso vestir a camisa de servidor público. É preciso ir para rua. É preciso lutar por melhores condições de trabalho que lhe são negadas.  E, enfim, é preciso tentar nunca perder para o cansaço que a institucionalização impõe.

Em meio a uma instituição como esta  você fica a mercê e pode ser atingido de várias formas, sejam elas emocionais e/ou físicas. É preciso ouvidos, corpo, mente para digerir esses conteúdos. A ruminação pode engasgar. Mas, acho que o que engasga mesmo é o descaso de anos onde o fim parece inatingível. Quantos tetos precisam cair para que penetrações efetivas ocorram? Sistema que não goza e nem propicia o gozo, daqueles acompanhado de prazer e não de desprazer, me parece mórbido. Na real, acho que é morbidez a palavra para as coisas que julgo errada depois desses 13 dias. Pelo menos até o momento me serve bem. Vai ver, faz algum sentido (ou não).


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dia 4 | 12.7.2014

 Acredito que precisou quatro dias de estágio para eu começar a entender o real objetivo dele. Não estou no meu campo de estágio como uma psicóloga clínica. Estou lá para observar a instituição como um todo. Sendo assim, hoje eu prefiro falar sobre o CIAPS.

Um pouco de história sempre vai bem

Sempre que há uma demanda de saúde, há necessidade de ações para atender tal demanda (vamos acreditar que isso ocorre de maneira 100% eficiente). Sendo assim,  em 1816 (sim, o Brasil ainda era colônia de Portugal) foi fundada a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, como uma das medidas da preocupação que ocorria no século XIX, não só em Cuiabá, como em outros locais do Brasil. E sim, a Santa Casa foi a primeira instituição médica de Mato Grosso.

É claro que ela seria a primeira residência para os alienados, usuários de drogas, leprosos entre outros que perambulavam as ruas da capital, ou as residências de quem não os desejavam.  Enquanto em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já executavam projetos que visavam a modernidade nacional, somente em 1908 foi inaugurada a Enfermaria de Alienados na Santa Casa de Misericórdia  em Cuiabá.  Ali, eles seriam tratados, mas poderiam fugir. Por isso, já naquele ano era necessária uma enfermaria prisão para evitar que eles fugissem.

Lá na década de 30 foi criado o Ministério de Educação e Saúde (Quem diria! Educação e Saúde já estiveram juntas em algum momento da história desse país!) que investiram em campanhas sanitaristas. Nessa mesma década, a Enfermaria de Alienados era insuficiente para atender a demanda dos loucos e alienados que a cidade tinha. Então, ali às margens do rio Coxipó da Ponte, uma chácara começou a ser utilizada para abrigo e reclusão de tal demanda. Tal chácara ficou conhecida como a “Chácara dos loucos”.

Foi neste mesmo local, que em 1957 foi inaugurado o Hospital Adauto Botelho. No ano de 1975, o Relatório da Secretaria do Estado da Saúde de Mato Grosso disse que o Serviço de Saúde Mental no Estado teve início em 7 de outubro desse mesmo ano.

Muitas ações foram realizadas durante vários anos em relação à saúde mental, que visavam à melhoria dos serviços públicos prestavam. Em meio a todos esses acontecimentos, o estado e a capital cresceram, os fluxos migratórios aumentaram e a necessidade de modernização não era mais indício e sim berros. Infelizmente, não é de hoje que os serviços de saúde se encontram em uma posição marginalizada aos olhos públicos. Com as exigências para essa tal de modernização, o Hospital Adauto Botelho atendia as demandas de Cuiabá e do Estado como um todo. Sua estrutura antiga e sucateada (não pensem que isso acabou, por favor!) não dava conta de sua responsabilidade com os serviços de saúde, já que era o único responsável pela assistência psiquiátrica. Sendo assim, em 16 de março de 1991 o Hospital foi fechado para reforma. Vale ressaltar que em 19 de setembro de 1990 a Lei 8.080 regularizou o funcionamento do Sistema Único de Saúde.

Continuando, a galera da politicagem utilizou os internos e as condições precárias na qual se encontravam “como instrumento no confronto político com o governo anterior” (OLIVEIRA, 2003, p. 97). A demanda de saúde mental que antes era atendida no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, passa a ser atendido por um único hospital privado. Foram dois anos e meio que o Adauto ficou fechado e nesse tempo “alternativas” públicas foram “ajeitadas”, mas não funcionaram muito bem. Passando por alguns detalhes, como o grande “investimento” que o Instituto de Neuropsiquiatria recebeu, podemos falar da reabertura do Adauto Botelho.

A reinauguração ocorreu em 1993, agora sobre a denominação de Centro Integrado de Atendimento Psicossocial (CIAPS) Adauto Botelho. Ele retornou a cena desvalorizado, já que as vagas que dispunha era menor em relação ao hospital privado, “acolhendo” a maioria das demandas. Alice Oliveira (2003, p. 99) chama atenção para

“o fato de que, nesse período, quando o município já se estruturava no processo de municipalização da saúde, inclusive já tendo sido aprovada em 1990 a Lei Orgânica da Saúde de Cuiabá (Cuiabá, 1999a), que tinha como um de seus princípios a coordenação única, o CIAPS Adauto Botelho foi reinaugurado mantendo a sua vinculação à SES, assim permanecendo até hoje”.

Teve o movimento de Reforma Psiquiátrica sim! E teve a promulgação da Lei 10.216 também! O CIAPS hoje tem compromisso com a Reforma Psiquiátrica e com a Luta Antimanicomial no Brasil, respaldados nas premissas da lei mencionada, nas Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e na Organização Pan-americana de Saúde (OPAS).

O CIAPS é um complexo de 6 unidades de saúde mental. E sobre elas falamos no próximo post! 

Se você chegou até aqui, obrigada. Tenho a sensação que isso está enorme! Mas, presta atenção no próximo tópico.

 Algumas considerações

Nos primeiros posts da série “Diário de Estágio” eu disse que gostaria de contribuir de alguma maneira com a Instituição. Essa é a minha maneira: fazer com que a informação sobre o meu campo de estágio chegue as mais variadas pessoas (sim, eu acredito que isso aqui tenha bastante visualização). Por isso o post hoje é mais teórico.

Sério, não faz sentido eu ir lá e ficar admirando o local e as surpresas que as minhas idas até lá me provocam. Preciso saber qual é esse território, suas histórias e lutas. O descaso, as necessidades e as delícias que há lá.

Olha, por favor, não achem que eu contei muita coisa aqui não. Isso é a redução da redução sobre o histórico do CIAPS. Por isso, vou sugerir algumas leituras para aqueles que têm o mínimo de curiosidade sobre o assunto aqui tratado.

 Se informe, vai! 

Está bom, né? Clica nos links aqui em cima e no decorrer do texto para abrir os arquivos/sites.

Bjs,
Van 🙂


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dia 3 | 7.7.2014

Julho e Agosto são meses secos aqui nesse espaço do Brasil. Os lábios ficam “ratchado” e a garganta seca. Fora as temperaturas mais baixas, em relação à sensação térmica diária de 40º.

Terceiro dia de estágio. Aquela preguicinha marota para sair da cama, principalmente com o cheiro delicioso de chuva (um dos meus cheiros preferidos, juro!). Levantei no susto, com medo de me atrasar. Entendam: não tenho um relacionamento sério com algum cara maravilhoso para chamar de namorado. Mas, tenho um relacionamento sério com a minha cama e se fosse possível a dedicação seria integral.

No espaço de dois dias eu tive que retornar ao local. As nossas idas até lá funcionam pela forma de escala, já que são quatro pessoas e precisamos ir em duplas. Além disso, precisamos cumprir 30h de estágio. Então, a coisa tem que ser organizada.

Ao chegar lá, eu e a minha colega de estágio ficamos na sala de Arte Terapia, pois naquele momento a sala da equipe estava sendo limpa. Olhamos um documento importante que os funcionários da Unidade I fizeram. Não sei bem qual do caráter do documento. Porém, havia 19 reivindicações de melhorias na estrutura física e na distribuição de medicamentos e equipamentos para a instituição. Ele foi enviado para os conselhos das profissões que compõe a equipe multidisciplinar, além do Ministério Público.

Questionei à minha supervisora se teria algum prazo para o Ministério responder, falar que sim, iria ajudar. Ou que não, que não se importava com aquelas questões. Bom, eles não têm um prazo. É necessário esperar.

Foi interessante notar que muitas vezes, nós na nossa zona de conforto, acusamos os servidores públicos como preguiçosos. Que fazer ou não o seu serviço corretamente não importa, já que o seu dinheiro estará na conta de qualquer forma. Felizmente generalizações caem por terra quando ações dessa forma podem ser acompanhadas. Há claro, quem não se importa. Mas os que se importam estão ali, batendo na mesma tecla, incomodando e não aceitando o pão e o circo tão comum até hoje.

Essa instituição faz parte da rede SUS que nós, pacatos cidadãos, sabemos quão precária está. Sendo assim, seus funcionários muitas vezes tem que tirar leite de pedra. E olha, isso faz sim uma sútil diferença não só para eles, como também para os internos.

Eles não têm, por exemplo, carros disponíveis para auxiliar no transporte dos funcionários para as demais instituições necessárias. Não há transporte para os internos, seja para eles serem levados para o seu lar, seja para eles serem levados para algum lugar em que eles se sintam o que eles realmente são: humanos.

A localização do CIAPS é próximo ao Parque Zé Bolo Flor, onde os internos são levados para realizar caminhada. Não é preciso de um grande investimento público, mas sim do cuidado e boa vontade dos funcionários que ajudam nessa sensação de liberdade, mesmo que por alguns minutos.

Foi interessante acompanhar as internas na caminhada. Foram poucas, afinal é preciso atenção, cuidado. Não dá para levar todas e não são todas que querem ir. Tinha uma que estava super agitada nesse dia, então ela foi na frente, na companhia da minha supervisora de estágio. Outras acompanhavam elas duas, interagindo com o ambiente, com os carros e pessoas que passavam. Teve uma que ficou o tempo inteiro caminhando de braços dados comigo. E mais atrás, minha colega e outra interna.

Parece-me que as pessoas já estão familiarizadas com os passeios. Sorriem. Acenam. Há bom dia e sorriso. E sim, são respondidos da mesma maneira. Tem alguns pássaros e macaquinhos que roubam completamente a atenção delas. Algumas precisam tocar as árvores ou as flores. Precisam desse sentir. Outras reclamam que estão cansadas, mas não desistem. Pedem para sentar um pouco e está tudo ok. Questionam porque não podem ser levadas ao Zoológico. Expliquei sobre a falta de transporte, mas não sei se fui bem compreendida. Talvez essa seja uma resposta com a qual elas já estão acostumadas.

Retornam ao pátio, bebem água, descansam e tornam a conversar com seus colegas, sejam eles internos ou funcionários. Sentei-me embaixo de uma das poucas árvores do pátio. Aproximou-se um senhor e ficamos conversando. Cheguei a conclusão que medicamentos mesmo que necessários tornam, muitas vezes, a pessoa sem brilho. Particularmente, acho que esse mal é necessário, porém triste. Conclui também que preciso de uma inserção terapêutica, tenho os meus conteúdos, acrescidos dos meus futuros pacientes pode ser muita coisa. Não consigo esfoliar tudo. O movimento de ruminar precisa começar.

Concluí, principalmente, que a instituição precisa de atenção. Que não só ali, mas como toda a rede de saúde pública precisa melhorar. Imagino as pessoas que não tem a menor condição de serem levadas até lá ou a qualquer outro posto de atendimento. Imagino quantos funcionários mal formados estão prestando serviço de maneira precária. Imagino quantas famílias estão ali, na periferia de si mesmo, sem saber que rumo tomar. Imagino os abandonos e os maus tratos. Sim, só consigo imaginar coisas ruins.

Ok! Eu imagino que em algum momento as solicitações sejam descentemente atendidas. Que as coisas funcionem de uma maneira bem melhor. Que os profissionais não desistam, que se informem, estude, melhorem sempre. Eu imagino um mundo bonito e imagino que isso é possível, sim.

Será que funciona distribuir cotonetes e óculos? Quem sabe assim há mais ouvidos e olhares. Ah! É preciso estímulos, pois ouvir e olhar não significam comportamentos efetivos. Que a imaginação vire ação. E que não demore uns cem anos. Que a nação seja nação sempre, e não só a cada quatro anos quando há Copa do Mundo. Sim, que haja esporte, educação, saúde e que as diferenças tenham redução.

Que a vida seja mais repleta de vida, de votos conscientes e não de derrotas, vergonha, insatisfação e descaso.

Ah, uma questão: como a imaginação pode virar ação? Mesmo que mínimas.


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dia 2 | 5.7.2014

Sábado é o dia que mais amo.

Motivo: acordo ao meio-dia. Torná-lo meu day-off. Faço apenas aquilo que eu quero: ler um livro, assistir filmes ou seriados, ficar na cama enrolando e morrendo de preguiça gostosa. Enfim, faço qualquer coisa que não esteja ligada à minha rotina.

A rotina me incomoda um pouco. E nem tinha percebido quão rotineiro estavam meus sábados. Esse dia da semana já foi destinado ao trabalho voluntário e ao inglês. Para reuniões de última hora com o grupo de pesquisa também. É o dia escolhido para sair com os meus amigos ou ir para a chácara da minha tia. Em nenhum momento pensei que esse seria um dia em que eu me dedicaria à algum estágio do meu curso.

Sendo assim, 6h30 acordei. Acredito que só despertei às 8h. Foi quando descobri que o segundo ônibus que eu deveria pegar para chegar até o local de estágio tinha fluxo reduzido. Ou seja, eu ficaria algumas horas no ponto de ônibus e chegaria atrasada.  Questionei ao motorista de um ônibus aleatório:

     – O ônibus 604 passa hoje?

     Ele respondeu:

     – Não sei informar.

Ok. Era o que eu precisava! (só que não). Se você também tem ansiedade pode imaginar como eu estava. Acredito que a preocupação em chegar atrasada chamou atenção de uma jovem que desceu do ônibus aleatório. Gentilmente perguntou para onde eu queria ir e a partir da minha resposta me falou que poderia pegar qualquer ônibus que passasse por ali, só teria que andar um pouco até o CIAPS. Além disso, pediu para o motorista que me falasse onde era o ponto no qual deveria descer. Nesse segundo dia de estágio aprendi que a gentileza é simples de ser praticada. E não sei se “os bons são a maioria“, de fato. É muita gente no mundo para ter essa noção. Mas sim, ela existe e além de receber, acho que posso passar a fornecer mais gentileza para conhecidos ou não. Primeiro aprendizado do dia.

Só para constar, cheguei apenas 5 minutos atrasada!

Enfim, quais as atividades são realizadas pela ala feminina nesse dia?

Bom, todos os dias pela manhã, elas realizam a higiene pessoal e tomam a medicação recomendada. Ah, claro, tomam o café da manhã. Após isso, passam a manhã no pátio, ouvindo música, conversando com os funcionários.

O horário do pátio não é exclusivo para a ala feminina. Na Unidade I funcionam tanto a Ala Feminina quanto a Masculina. Então, os internos de ambas as alas se encontram lá. E sim, agora eles me encontrarão por lá também, durante alguns dias da semana.

Confesso que ainda fico um pouco assustada. Quando converso com eles me dá a sensação que eu os infantilizo. Mas eles? Bom, eles me surpreendem. Chamam-me pelo nome, enquanto não consigo lembrar o nome da maioria que conversou comigo hoje. Acho isso tão chato. Mas acho que com o tempo conseguirei. Distribuem abraços gratuitos. Olham nos seus olhos. Prestam atenção no que você fala. E por alguns instantes penso quão imersa estou naquilo que é ordinário, já que vez ou outra pensei que eles não fossem capaz de tais relações.

Quero ficar longe dos diagnósticos deles, por alguns instantes. Isso não significa que eles sejam inexistentes. É óbvio que não. Porém, devo considerar que internação não é sinônimo de incapacidade. Eles podem sim, dona Vanessa, observar. Eles têm sensibilidade, conseguem manter contato visual, tranquilamente. Óbvio que isso tem algumas restrições, eles possuem algum tipo de diagnóstico. Porém, tem beleza nisso, a meu ver. Pelo simples fato de eles serem quem são, mesmo que a noção de tempo esteja perdida. Mesmo que não lembrem sua origem. Mesmo que familiares os recusem de volta em seus lares. Eles têm uma vida e por mais cruel que ela possa ser, sério, acredito ter beleza aí! Acredito poder aprender, sempre, com eles. Eis aqui a segunda aprendizagem do dia.

Não sei o que pode vir na próxima palavra, no próximo movimento. Mas posso retirar a armadura que eu carrego fielmente comigo. Penso que ela seja blindada (vocês perceberão com os diários quão ingênua eu posso ser). Mas não, ela não é blindada, pode e deve ser despida. Sendo assim, visto novas roupas que possibilitem o inusitado. Estarei prepara para todas as coisas que eu ver lá? Não! Mas, eu preciso ver e viver dessas coisas para as quais não sou preparada. Se a minha vida estagnasse eu simplesmente preferiria não vivê-la!

Enquanto estou aprendendo a ser uma profissional o melhor que eu posso fazer é despir a minha proteção e começar a treinar o ouvir, o olhar, o sentir. Hoje conheci alguém que poderia ter sido economista, caso não fosse internado no mesmo ano em que ingressaria na faculdade. Virei filha, que se não tivesse bom comportamento ou falasse alguma besteira, o pai viria buscar. Sobre a minha idade?  Falaram que eu era novinha ainda. Pediram presente, falaram que me enviaram carta. Qual o próximo dia em que você virá? Questionou uma das internas. Sim, fui informada que sou filha adotada. E meus pais biológicos? Bom, talvez estivessem por lá.

Cedi meu braço para ser apoio de uma delas e guiar até a sala de arte terapia! Ajudei na confecção de anel e de pulseira. Percebi que para algumas coisas não tenho a menor habilidade. Mas, foi um dos primeiros momentos em que percebi não precisar de um consultório para fazer atendimento.

Começou na sala de arte terapia a terceira aprendizagem do dia: sobre a atuação profissional. Sabe aquilo de horário marcado? Divã? Psicólogo que só balança a cabeça e pouco fala? Isso não resume a Psicologia. É só ler um pouco mais para saber que esse ideário  é reducionista. Reduzido a que? Ao modelo psicanalítico (que sim, eu tenho um flerte e sei, aos poucos, as suas limitações). Você sabia que um psicólogo pode intervir no pátio da instituição? Ou, quando os internos são levados para caminhar, ali também pode ocorrer escuta? Dependendo da estrutura clínica (sim, conceito psicanalítico! sem preconceitos, vai!) é possível que a intervenção seja  realizada nesse setting. E eu, tola, achava que tudo se resumia a quatro paredes (isso, nos primeiros semestres da graduação). Foi libertador saber disso. Mais libertador ainda observar as possibilidades disso acontecer.

Os estágios até aqui foram isso: onde o profissional de psicologia pode atuar? Descobrir a dor e a delícia de alguns desses campos é uma das melhores coisas que a  graduação pode proporcionar, acreditem. Acho uma pena não ter registrado dessa maneira os demais. Talvez, fosse preciso que eu acreditasse, de fato, que poderia aprender bem mais do que o comum com esses estágios e a maturidade só veio agora para isso.

Não sei como meus pais lidavam com os outros estágios. Acho que nunca falei muito sobre eles. Porém, hoje é o segundo dia que eles me perguntam como foi. Acredito que há  certa preocupação sobre o local. Ele é “lugar de doido”, que estão “presos” e isso pode ser “perigoso”.  E sei que não são só eles que tem essa visão. Nos próximos dias vocês saberão mais sobre o CIAPS e a rede CAPS, prometo posts sobre isso.

Com essa vontade, continuo.

E você? Vai despir da sua armadura quando?


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.

Diário de Estágio – Dia 1 | 30.6.2014

Segunda-feira atípica em Cuiabá. Amanheceu frio. Mas logo o sol deu seu jeito de ficar radiando, mesmo com intensidade menor do que normalmente. Último dia desse mês que perdeu todo o glamour dos dias dos namorados e das festas juninas para trazer à cena a Copa do Mundo.  No último dia, foi o meu primeiro em um novo campo de estágio: CIAPS Adauto Botelho – Unidade I.

Eu não sabia que ônibus pegar. Não sabia onde parar. Só me lembrava de que na infância tinha ido naqueles arredores. Parece-me que pelas redondezas tinha um local onde se criavam cobras para fazer antídotos com os venenos delas. Quando foi chegando próximo, o motorista muito gentil me informou onde era a instituição e me deixou na porta.

Cheguei a um portão estreito e tinha um senhor lá na porta, querendo entrar. Porém, a guarda que se encontrava ali, naquele momento, disse:

– Não liga para ele não, venha aqui, o que você quer?

– Sou estudante de Psicologia e minha professora disse que eu viria.

Enfim, ela me ensinou como chegar até lá. Logo para mim, a pessoa mais sem senso de direção da história, mesmo que o caminho seja óbvio. E sim, errei. Passei pelo pátio grande, porém sem cobertura, e entrei em um corredor. De uma janela com grade tinha uma mulher a me olhar. Seu nome eu não sei, ainda, porém não consegui encarar e me direcionei a uma moça de jaleco. Questionei onde seria a reunião de equipe, para a qual eu tinha ido, e ela disse que me levaria até lá. Depois descobri que ela era uma das mais novas na equipe e é enfermeira.

Corredores escuros. Portões. Grades. Olhos arregalados. Imprecisão no que viria a próxima curva. O cheiro é indescritível. Algo como nada e coisa nenhuma. Algo como vazio e descaso.

Cheguei à sala, avistei minha orientadora. E me sentei. Sem saber o que fazer, fiquei quieta, mas acho que não tinha nada o que ser feito mesmo. O clima era mais tranquilo. Algumas risadas. Conversas cotidianas sobre como baixar uma música. Aos poucos a equipe foi chegando e a reunião se iniciou. O ambiente me lembra ao posto de saúde do bairro onde eu morava quando era mais nova. Minha vó e minha mãe me levavam lá, às vezes, para tomar uma vacina ou conhecer o Zé Gotinha.  Além disso, algumas mesas distribuídas. Um ventilador e um quadro. Cadeiras de plásticos azuis. Galões de água. Geladeira. Armário. Coisas comuns de salas de instituições de saúde (ou não).

A reunião começa pelos assuntos administrativos. Lembram que eu disse da Copa do Mundo no começo? Então, isso é bom, de verdade. Mas é um véu sobre tantas outras coisas gritantes, é tão política de pão e circo que às vezes me dá embrulho no estômago. Educação e saúde são coisas precárias no país onde vivo. Não seria diferente no município que eu não resido, mas passo a maior parte dos meus dias. Enfim, verba tem. O repasse é para buracos outros que não os corretos.

Há problemas relacionados ao fornecimento de energia. Não há telefone na Instituição há um bom tempo. Medicamentos e equipamentos: em falta. Mas não faltam sensibilidade e vontade de cuidar do lugar e das 17 internas (essa informação tem no quadro) que se encontram lá, hoje. E isso me parece um ponto muito forte e favorável. Gente com sede me encanta. Uma pena que a fonte de saciação é distante e adoram um descaso.

Desistir parece ser uma palavra riscada do vocabulário dessa Instituição em específico. Sendo assim, há documentos protocolados no Ministério Público, para ver se alguém acorda (Oi, administradores públicos! Acordem, por favor?). O local não se sustenta sozinho, e não é possível acordar alguéns na solidão. É preciso da comunidade: moradores da região, parentes, estudantes, população de uma maneira geral. Por isso, a expectativa é que no dia 23 de julho deste ano (ainda não está decidido, oficialmente, a data) ocorra o Ato de Repúdio do CIAPS Adauto Botelho, em frente ao local onde antigamente funcionava o Pronto Atendimento do CIAPS. O ano passado, algumas pessoas da comunidade administrativa da saúde cuiabana, gostaria de acabar com a Instituição, como se a rede de saúde pública do munícipio tivesse suporte para atender às pessoas que lá residem hoje (lembrando que há mais demandas além das atendidas no CIAPS). O “Abraço ao Adauto” teve voz e força para manter o funcionamento deste local. Sendo assim, o clichê “a união faz a força” não é tão clichê se de alguma maneira traz resultados. Então, será interessante acompanhar esse movimento de mobilização das pessoas até o dia do Ato e, principalmente, depois.

Algumas falas me fisgaram durante a reunião de equipe como, por exemplo, entender que o fato das internas (o local onde eu faço estágio é a Ala Feminina) estarem lá, não significa que elas estão fora do mundo. Devido a isso, os funcionários buscam realizar eventos como festa junina. Os resultados são sempre positivos. As internas se libertam de alguma maneira, se liberam. Se sentem mais vivas, por assim dizer. Não só de doses de remédios se vive uma vida. É preciso doses de vitalidade também, acredito que essas festas trazem isso.

E, uma das melhores falas, á meu ver, relacionado à institucionalização dos funcionários. Quando em um ambiente de trabalho ou em qualquer outro ambiente, podemos ficar tão viciados com tal local que os dias passam a ser mais do mesmo. Isso faz com que, muitas vezes, os defeitos sejam camuflados ou não merecem ser questionados. As pessoas não são tocadas para sair da situação precária, muitas vezes, de nenhuma maneira.

Com essa equipe eu não sei se acontece isso, ou com que frequência acontece. Porém, acredito que essa tenha sido a primeira reunião de equipe após a festa junina deste ano. Eles reuniram em um DVD as fotos. A fala sobre a institucionalização veio pelo fato das fotos terem sido, cuidadosamente, olhadas. Por meio delas foi possível ver o quão intrigante é trabalhar em um local como o que se encontra o CIAPS Adauto Botelho. Quão intrigante é este local tratar de pessoas que necessitam, verdadeiramente, desse serviço. Óbvio que eles não estavam calados, a lógica institucional ali operada faz com que seja uma máquina em movimento, ao que me pareceu. E isso me deixou muito feliz. Porém, eles dependem de órgãos públicos que tampam o sol com a peneira.

A Luta Antimanicomial está aí, há anos, e situações assim ainda existirem é triste. Li Machado de Assis, como seu “O Alienista”. Li também “Holocausto Brasileiro – Vida, genocídio e 60 mil mortos”, belamente escrito pela jornalista Daniela Arbex. E só consigo pensar que a tendência de higienização e o total descaso, que essas obras apresentam muito bem, ainda têm pernas torneadas e bem treinadas para andar. Quando elas serão amputadas?

Aprendi durante a graduação que muitas vezes a mudança não vem de giros de 180º, assim, de uma só vez. Então, podemos continuar amputando essas pernas, aos poucos, mais com uma frequência e efetividade maior, não? A Luta Antimanicomial dá seus passos há anos, para conseguir pequenos e reconhecidos resultados. A minha expectativa nos próximos dois meses é dar pequenos passos junto a esse movimento para que mudanças mais efetivas aconteçam.

Que no próximo encontro eu receba mais abraços de pessoas que nunca vi na vida e que são carentes de alguma maneira. Acredito que o abraço me acolheu e me mobilizou de alguma forma. Acredito que foi o gole que eu precisava para me dar força e me mover em busca de alguma mudança, em busca de olhos verdadeiros e dignos que ajudem aquele espaço, aquelas pessoas, aqueles profissionais. Foi o gole para buscar vozes que berrem e incomodem. O gole para que o silêncio e a escuridão maquiada tenha seu fim.


Esse relato é referente ao Estágio Básico em Contextos Clínicos e de Saúde, realizado durante o 6º semestre do curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá. O local de estágio é o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Unidade I – Ala Feminina. A orientação e supervisão de estágio é dada pela Profa. Ms. Veline Simioni Silva.