Carta aos estudantes de Psicologia

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Caras e caros colegas, amigos/as, professores/as e público aqui presente,

O objetivo dessa mesa é que a gente responda perguntas cujo eixo temático é: “formei, e agora?”. Além disso, a comissão organizadora pontua que o objetivo da mesa também é compartilhar “as barreiras e anseios de um recém formado em psicologia na UFMT”. Parece amável, mas é quase uma cilada tal objetivo, pois para estar aqui hoje eu tive que me colocar a pensar sobre, no mínimo, esses nove meses pós a conclusão da minha graduação. E, acreditem, nos haver com nossa própria história exige de algum modo, mas acaba por ser gratificante.

Vamos lá! Vocês estão diante de cinco pessoas que passaram pela graduação aqui na UFMT, em momentos distintos e singulares do curso. Parece que estamos vivos e bem, dentro daquilo que nos foi possível depois que nos graduamos. Acredito, então, que vocês também estarão vivos e minimamente bem quando o fim e o depois chegar, resguardando a singularidade de cada processo.

A meu ver, as barreiras e anseios de um recém formado, ou ao menos as minhas barreiras e anseios, foram atravessadas pelo simples fato de ter que lidar com o fim. Eu fui convocada a encerrar um ciclo que eu sabia que tinha seus cinco anos para acontecerem, mas que eu os vivi sem preparo para esse momento. Mas, me digam, quando é que a gente vai estar completamente preparado? Hoje, pensando que a minha colação de grau se deu no dia 1º de novembro de 2016 e que no dia seguinte foi dia de finados, achei bem simbólico. Afinal, tinha sim um luto para lidar diante daquilo que se acabou.

Foi barreira lidar com o fato de descobrir outro local ao qual pertencer, afinal, não era mais estudante de psicologia da UFMT. Foi barreira lidar com os adeus aos amigos e amigas que retornaram a sua cidade natal, que foram para outro estado viver sonhos, ou melhor, realidades. Foi barreira e anseio pensar: como é que mantenho os laços? Como é que desfaço os nós? Bom, e vocês? Quais são as relações e laços que estão constituindo ao longo do seu percurso acadêmico? Como elas são dadas? Há abertura, disposição e disponibilidade? Há, prestem atenção, escuta? Escuta de si, do outro, dos desejos de vocês, da conjuntura política, histórica, social e cultural que estamos inseridos? Porque esses elementos me parecem fazer parte do “ser psicóloga”. Muita coisa? Ao menos para mim, no meu fim, foi.

Acredito que a graduação e a formação de maneira geral é constante e insuficiente. Então, no meu fim, tive que lidar com a angústia de pensar algo simples e intenso: o que eu quero? O que eu dou conta de fazer? O que aprendi durante 5 anos que me ajuda a dar os próximos passos? Durante a graduação eu nunca passei pelo hospital Júlio Müller em nenhum dos estágios. Quando fui fazer minha matrícula, me perdi. No entanto, nos últimos dias de fevereiro quando efetivar minha matrícula, saí de lá com a certeza de que aquele era o local que me sentiria desconfortavelmente a vontade em estar. Dessas coisas que a gente não sabe dizer e só sentir.

Eu não sei muito bem como eu escolhi fazer residência. Minha trajetória acadêmica sempre me levou a vida acadêmica, a ser uma mestranda, doutoranda e quem sabe professora. A pesquisa me apetece, não a toa grupos de pesquisa e extensão estão presentes no meu currículo Lattes. Mas, o Lattes não mostra a singularidade do que foi vivido em cada trabalho, em cada grupo. Não mostra como eu fui feliz, mesmo em meio a conflitos, em cada coisa registrada na plataforma. Meus olhos brilhavam a cada coisa que fazia. Frente a minha trajetória acadêmica, posso dizer que o Hospital seria – e é – o local que me dá certa estabilidade financeira e, principalmente, me desafia. E, mesmo assim, me faz feliz.

Espero que vocês conheçam Frida Khalo, pois é dela a frase que diz algo como “onde não houver amor, não te demores”. Bom, ainda almejo voltar de fato para a carreira acadêmica. Mas, é fundamental para esse momento da minha vida profissional lidar com várias áreas do conhecimento da Saúde e ter que afirmar todo o dia qual é o meu lugar enquanto profissional de psicologia. Pois, é frente a esses questionamentos que a minha identidade profissional é constituída e, principalmente, transmitida. Eu queria, lá no meu fim, aguaçar a minha escuta. E, minhas caras e meus caros, o Hospital é campo fértil para isso. Quando me perguntam: como está a residência? Além de responder que está incrível, eu respondo que aprendo a ser humilde frente as escutas que realizo. Porque muitas vezes ser psicóloga é só escutar e, pasmem, isso é suficiente.

Então, retomando a Frida, eu preciso frente ao meu modo de ser e também de sofrer estar em meio a coisas que me arrepiem o corpo, que me fazem brilhar os olhos, que fazem meu coração pulsar, assim eu consigo demorar, ao menos até 2019, quando a residência chegará ao fim. Veja só, daqui um tempo terei que me haver com meus desejos de novo. Por hora, consigo demorar e entender que ser residente de psicologia é me posicionar, é responder por mim mesma e andar com as minhas próprias pernas. É a cada dia crescer e acreditar, junto com as demais psicólogas residentes, que sei a minha função profissional vinculada a ética que nos resguarda. Psicólogas/os geralmente escutam, mas não se esqueçam: é fundamental que a nossa boca se abra para falar daquilo que somos, ao menos, profissionalmente.

Isso é um pouco das minhas barreiras e anseios. Mas, e vocês, quais são as barreiras e anseios? Mas, e vocês, onde querem demorar? Mas, e vocês, o que querem e do que dão conta? Mas, então, o que querem os estudantes de psicologia da UFMT? Mas e vocês, conseguem se colocar a escutar a si, primeiramente, e assim os outros?

Enfim, bom percurso a vocês, dentro daquilo que lhe é possível.
Grata pela escuta e convite.
Com carinho e disponível a conversar em outros momentos com vocês,
Vanessa, psicóloga residente do HUJM, mas não só.


Esta carta foi apresentada durante a VI Semana da Psicologia da UFMT (campus Cuiabá), cujo tema foi “Psicologias em debate: interfaces e atuação”. Participaram da mesa “Egressos da UFMT” junto comigo as psicólogas Luana Peralta, Ruzia Chaouchar e Taysa Castrillon e o psicólogo Victor Hugo de Souza.