Turn Off

Quem nunca pensou que fosse uma loucura certa decisão tomada? Penso isso, às vezes, quando olho para trás e vejo que os meses já passaram, e falta mais um pouco para terminar os dias em Porto Alegre. Esse olhar para trás me faz dizer frases típicas de nós, adultos como, por exemplo,  “não tenho tempo para nada” ou “o tempo passou muito rápido”. Passo a questionar se é isso mesmo, ou se como sempre quero abraçar o mundo e ir por todos os caminhos que aparecem na minha frente.

Por um tempo demorei para desligar, apertar o Turn Off da minha vida lá, onde o sol aquece e é meu inferno e paraíso. Desligar sim, porque não poderia me responsabilizar por várias coisas, em uma vida que deixei e em uma nova que começava a construir. Demorei para perceber, por mais que já soubesse, que eu precisava dizer não. Que eu precisava aceitar que não daria conta de cumprir com coisas de lá, aqui, milhas e milhas distantes. Mais uma vez, expectativa e realidade sendo incompatíveis. Mais uma vez, nessa minha ansiedade de beber o mundo, de engolir a vida sem digestão, me fez pisar em falso. E é só pisando em falso que consigo perceber minhas próprias promessas falsas.

Hoje, consegui desligar um pouco. Consigo me relacionar com o tempo de outra forma, eu acho. É tempo de falta, muita falta. É tempo de perceber a dureza comigo, a dureza de estar realmente só, eu e o mundo e o frio. É tempo que passa desenfreado por mim, me atravessa e talvez demore um tempo para elaborar o que aqui se passa. Tempo de intensidade. Tempo de perceber que é possível estar só, sim e que é agradável poder compartilhar essa solidão. Tempo de construir outros laços, por mais difícil que seja. Tempo de passar rápido, tempo de Turn Off.

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Relógio | Catarina Sobral

Talvez, aperto Turn Off para coisas que não quero pensar, encarar. Pois, sempre há uma coisa ou outra que nos dói. Tempo de viver aqui e não só, há alguns laços que jamais serão desligados e você gostaria que eles estivessem próximos a você. Tempo de ser criticada, questionada e sentir-se nada. Tempo de perceber quais laços permanecerão, como permanecerão e aceitá-los. Tempo de aceitar o adeus e entender que as coisas jamais voltarão a ser o que eram, serão diferentes, nem melhores e nem piores: é tempo de aprender a não polarizar as coisas e sim acrescentar coisas, mesmo ponderando.

É tempo de desligar os preconceitos, esses que berram e que te doem. É tempo de reconhecer que nem sempre é possível acabar com todos eles. É tempo de aceitar, de uma vez  por todas, que não se pode tudo, infelizmente e parar de sofrer com isso, por isso. É tempo de deixar a arrogância de lado, assumir erros, agarrar os acertos e ser quem se é. Meio torta, meio fora do padrão, seja lá o que for isso. Aceitar-se e se alguma coisa ainda incomodar, respirar fundo, procurar formas de mudar. Lembra do que sempre se diz? no final, é só você contra você mesmo, não há culpados ou escapatórias. As escolhas são suas e as consequências também.

Se você desliga, e o que desliga, é só você quem sabe os efeitos disso… suas palavras, inclusive, talvez não deem conta disso. Mas, ajuda a aliviar. Assim como o abraço, o afago, o afeto que tanto te perturba não ter. Entende que desligar talvez não resolva mas, que vez ou outra, é preciso para não ser engolida. É preciso ruminar um pouco para sair palavras embaraçadas de um tempo acelerado, que você vive e diz não ter. Mas, se você não tem tempo para nada, o que é tudo isso que você vive?

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Como é que você está?

Como é que você está?
Como é que eu estou? Mas, desde quando você quer de fato saber? Desde quando a minha mãe descobriu e superou um câncer? Desde quando me apaixonei e a bolha desse romance estourou, deixando destroços por aqui? Desde quando eu resolvi ser cabeça dura e sair de casa por um tempo? Desde quando eu fiz escolhas certas, tive oportunidade de ir para outro país? Desde quando eu tive um final de ano péssimo, que me deslocou completamente e me fez amadurecer? Afinal, desde quando?

Penso que questões assim são iguais a  “eu te amo” nos finais da ligação. É um protocolo a ser cumprido. Mesmo que sejam as pessoas mais queridas ao seu redor que perguntam isso, fico meio assim ao responder, sabe?  E tudo bem, talvez eu não queira saber de fato como elas estão também, sou um tanto egoísta caso não tenham percebido ainda.

Talvez eu deva parar aqui. Cada linha dessa pode atingir as pessoas e magoá-las. “Poxa Van, eu quero sim saber como você está. Como está sua vida nova e te dizer que desejo que dê tudo certo por aí”. Parei. Na verdade, ainda tenho comigo essa história de dizer “que o inferno são os outros”.  Mas, ando lendo um livro onde há o seguinte:

O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e  perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer | Valter Hugo Mãe – A desumanização – CosacNaify, 2014

Diante disso, mais uma vez a hipótese de que no final das contas somos nosso próprio paraíso e inferno, fica cristalino. A cada pessoa que me pergunta como é que estou, principalmente nessa última semana, é como se um vazio ficasse exposto. Na verdade, é exatamente isso: um vazio. Respondo de maneira superficial, mais superficial do que a pergunta. Não sei as respostas e não saber algo me enfurece, ainda. É difícil sabe? As pessoas que me rodeiam, por meio dessas perguntas, mostram-me a humanidade, as questões que eu tenho.. me ajudam a pensar de fato sobre este momento… esses meses que virão….

Eu estou em um momento de olhar ao redor e me sentir deslocada. Sentir falta de rostos  familiares, da fungada da minha cadela todo dia de manhã. Sinto falta do riso matinal dos meus pais. Sinto falta daquilo que não faz parte mais da minha rotina. Como eu estou? Estou aprendendo a lidar com essa falta, mas o mais maravilhoso disso é que não tem sofrimento. Eu estou tão feliz com essa mudança . Não tenho recordação de felicidade igual, é tão diferente de tudo que senti que é deliciosamente assusta-dor. Eu estou construindo e aprendendo mais um pouco sobre quem eu sou. Eu estou aberta para o novo, para o que possa me surpreender, para os pequenos empecilhos da vida…. Eu estou vivendo, linda e intensamente, pois isso é tudo que eu posso fazer com ou sem medo: viver a vida que tenho e aproveitar suas nuances.

Enfim, estou bem. E quando não estiver, vou ser feliz também.