Para sair e sentir, sempre.

Mesmo com desconfiança saiu de casa. Afinal, não tinha o que se perder, apenas o contrário disso. Foi, viu flores e frutos. Sentiu cheiros e gostos. Sentiu frio. Medo também. Viu pessoas na rua que não tinham uma casa para voltar. Passou no meio de uma turbulência de pessoas falando ao mesmo tempo e ouviu o ecoar de um “ooooolhaaa o limão, o mamão e o melão! vai querer?”

Sentiu os próprios passos. Era como se a textura do chão ficasse impresso nos seus pés calçados. Sentiu o vento, que arrepiou o pelo e terminou em um esfregar de braços, um quase auto-abraço. Parou. Olhou de um lado para o outro e viu se poderia atravessar. Ao invés de olhar para frente, olhava para cima: gosta de ficar admirando o céu azul e as combinações que os prédios, árvores, pássaros, gente, suor e pele faziam com ele.

Ofegou. Subidas podem ser (e são) drásticas. Bebeu, às vezes o gozo pode estar em um gole. Comeu, o pouco e singelo foi intenso. Misturas de sabores provocam isso. Observou, quase voou para o seu outro eu. Percebeu que não tinha outro eu, e que bastava-se. Sentiu falta sim, como não sentir? Mas, perceber o prazer da própria companhia foi inigualável a qualquer outra sensação.

Retornou, descansou e chorou. Chorou porque tinha que chorar, isso não foi sinal de alguma coisa ruim, foi sinal de um puro sentir. Foi sinal de que estava viva e sentindo as emoções em erupção no seu corpo, do mindinho do pé ao último fio de cabelo.

Com desconfiança e medo, tenta a cada instante entregar-se ao desconhecido. Aos poucos tenta lidar com a ansiedade e a expectativa e a única coisa que resta, no fim de cada dia, é a esperança, não de que as coisas melhorem repentinamente, mas que as coisas melhorem para si e fim.

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Como é que você está?

Como é que você está?
Como é que eu estou? Mas, desde quando você quer de fato saber? Desde quando a minha mãe descobriu e superou um câncer? Desde quando me apaixonei e a bolha desse romance estourou, deixando destroços por aqui? Desde quando eu resolvi ser cabeça dura e sair de casa por um tempo? Desde quando eu fiz escolhas certas, tive oportunidade de ir para outro país? Desde quando eu tive um final de ano péssimo, que me deslocou completamente e me fez amadurecer? Afinal, desde quando?

Penso que questões assim são iguais a  “eu te amo” nos finais da ligação. É um protocolo a ser cumprido. Mesmo que sejam as pessoas mais queridas ao seu redor que perguntam isso, fico meio assim ao responder, sabe?  E tudo bem, talvez eu não queira saber de fato como elas estão também, sou um tanto egoísta caso não tenham percebido ainda.

Talvez eu deva parar aqui. Cada linha dessa pode atingir as pessoas e magoá-las. “Poxa Van, eu quero sim saber como você está. Como está sua vida nova e te dizer que desejo que dê tudo certo por aí”. Parei. Na verdade, ainda tenho comigo essa história de dizer “que o inferno são os outros”.  Mas, ando lendo um livro onde há o seguinte:

O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e  perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer | Valter Hugo Mãe – A desumanização – CosacNaify, 2014

Diante disso, mais uma vez a hipótese de que no final das contas somos nosso próprio paraíso e inferno, fica cristalino. A cada pessoa que me pergunta como é que estou, principalmente nessa última semana, é como se um vazio ficasse exposto. Na verdade, é exatamente isso: um vazio. Respondo de maneira superficial, mais superficial do que a pergunta. Não sei as respostas e não saber algo me enfurece, ainda. É difícil sabe? As pessoas que me rodeiam, por meio dessas perguntas, mostram-me a humanidade, as questões que eu tenho.. me ajudam a pensar de fato sobre este momento… esses meses que virão….

Eu estou em um momento de olhar ao redor e me sentir deslocada. Sentir falta de rostos  familiares, da fungada da minha cadela todo dia de manhã. Sinto falta do riso matinal dos meus pais. Sinto falta daquilo que não faz parte mais da minha rotina. Como eu estou? Estou aprendendo a lidar com essa falta, mas o mais maravilhoso disso é que não tem sofrimento. Eu estou tão feliz com essa mudança . Não tenho recordação de felicidade igual, é tão diferente de tudo que senti que é deliciosamente assusta-dor. Eu estou construindo e aprendendo mais um pouco sobre quem eu sou. Eu estou aberta para o novo, para o que possa me surpreender, para os pequenos empecilhos da vida…. Eu estou vivendo, linda e intensamente, pois isso é tudo que eu posso fazer com ou sem medo: viver a vida que tenho e aproveitar suas nuances.

Enfim, estou bem. E quando não estiver, vou ser feliz também.