Estria-vida

Quando me olho no espelho vejo algumas marcas: cicatriz na sobrancelha, marcas de peraltice na infância; algumas manchas pelo rosto, braço e barriga, apesar de morar em uma cidade que tem sol 364 dias do ano só me exponho a ele em horários inadequados; e por fim, as marcas que eu aprendi a gostar, de certa forma, as estrias.Elas surgem assim, pelo crescimento rápido, pelo efeito sanfona,  pela falta de colágeno e elastina. Podem ser grossas ou de uma sutil delicadeza, com uma finura impecável. Podem ser profundas ou superficiais. Estão pelos braços, pernas, peitos. Claras ou escuras. Mas, o que tem de tão incrível para gostar delas?

Penso que estrias são como a vida, que por uma razão ou outra nos arranham, nos marcam, de forma sutil ou grosseira. Elas não se enquadram, não são sinônimo de beleza, dessas que cultuamos. Mas vejam, elas estão em todo e qualquer corpo. Em homens, mulheres e crianças, sem perguntar qual a cor, raça ou orientação sexual. A vida, essa coisa ordinária que tanto reclamamos ou agradecemos, ah, ela também é sem preconceito.

Estria-vida. Não adianta cremes super tecnológicos ou intervenções clínicas. Não adianta esfoliar a pele. Elas não somem. São marcas que nos constituem. São o nosso melhor e pior. Nosso veneno e remédio e ouso dizer que são marcas de vida-morte. São nossos rastros, ranhuras e marcas que podemos lutar contra. Mas, tenho pouca dúvida que seremos perdedores. Que no final temos que admirar nossas estria-vida e lembrar que são essas impressões que nos constituem e impressionam. Que nos levam do caos a calmaria. Do gozo ao desgosto. Do que nunca se foi ao que se é.

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Que a semana acabe

Quando as coisas começam a acumular a dificuldade que eu tenho de sair da cama é ainda maior. Eu acho que ficar ali, aproveitando aqueles momentos de paz é sagrado. Eu tento buscar o silêncio, mas os meus pensamentos gritam e me inquietam. Não dá mais para fugir, é preciso levantar.

Cresci com o discurso de que devo priorizar, sempre, os meus estudos. Aqueles que o disseram queriam e ainda querem o meu bem. Aquela coisa que crescer na vida significa estudar muito, passar em um Concurso Público e ter estabilidade financeira. Os efeitos disso eu sinto, só não sei nomeá-los muito bem. E aquilo que é para ser de todo o bem, acaba tendo seus efeitos ruins. Afinal, o que nessa vida não é feita do (des)equilíbrio entre remédio e veneno, não é?

É segunda-feira e eu não consigo me focar. É segunda-feira e me parece que essa semana não acabará. É a semana-pesadelo do semestre. É mil coisas para serem lidas em pouco tempo. É a exposição na frente da sala de aula cansada com o fim do semestre que terá que ocorrer. É o contínuo movimento das coisas que não é possível parar. Elas devem acontecer.

Falta organização? Tempo? Acredito que está para além disso. Falta encontrar prazer em todas essas coisas. Falta encontrar brilhos nos olhos. Falta… Falta a vida mesma nessas coisas que nos exigem de tal maneira, que parece não ter fim. Acho que é por isso um dos motivos que o saudosismo da infância venha. As obrigações mínimas. As brigas por doce. Quando imersos na vida adulta é difícil encontrar um doce preferido, uma brincadeira de gente grande diária.

Tenho medo do mundo que eu abraço transbordar. Tenho aflição de não dar conta de uma vírgula que tenho que fazer. Tenho medo de encarar essa semana-caos. E daí é fácil burlar. Você escreve um tweet aqui, compartilha um evento ali, olha um blog acolá. Nisso de desfocar a atenção para o que deve ser feito, vem uma dose de inspiração para a semana:

Porque – disse ela – quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem. — Coraline, Neil Gaiman.

Se alguma coisa escapar, cair, sair do rumo eu vou ter que dizer algo que me liberte: foda-se. Mas, só vou poder dizer isso se eu tentar, se eu encarar o medo. Pois, não posso acreditar que tudo e todos que me rodeiam tem o mesmo conforto da minha cama pela manhã.

Enfim, que a semana tenha fim e que alguma coisa faça os meus olhos brilharem.

Esfolie-se

Como em “Brilho eterno de uma mente sem lembrança“, gostaria de algo que arrancasse pessoas e situações da minha vida. Aquelas coisas que ficam guardadas em caixas e que se não existissem mais, seria ótimo. Em poucas palavras: gostaria de ter o controle de tudo e de todos. Sim, sou tola a esse ponto.

Na sétima arte, Joel e Clementine notam que, por alguma razão, suas memórias não podem, simplesmente, serem apagadas. Aliás, até podem. Mas em uma hora ou outra elas vem à toda. Eles deixam gravado o porquê da exclusão, um da vida do outro. Não, acredito que não seja apenas uma exclusão. Acho que a intenção é que seja um assassinato.

Sabe, por mais que eu queira que isso aconteça, é impossível. Eu não posso ser uma assassina das minhas memórias, das pessoas que não quero mais na minha vida. Por mais que por alguns instantes eu ache que seja algo viável, tenho que dizer não. Minhas memórias, sendo elas boas e ruins, me constituem.

Para as pessoas mais próximas, sempre digo para consumirem a vida com tudo que ela fornece, pois é isso que as constituem. Critico as pessoas que são contraditórias, mas eu sou a própria contradição. Gosto muito de apontar o dedo e acho que apagando as minhas memórias as coisas se resolvem, mas não. Eu rumino, tudo. Mas a digestão às vezes é impossível.

Por mais que as memórias sejam recalcadas, elas vem sempre, por alguma razão, em algum momento, de alguma forma. Por não digeri-las corretamente, quando voltam elas batem na minha cara, de mãos abertas.  O rosto fica vermelho e latejante, de maneira que me lembre, o tempo todo, que é de dores e alívio que a vida se constitui. É como se me desse mais uma chance para digerir. E olha que absurdo: nem me pergunta se eu quero, essa vida bandida!

Ok! Já entendi que algumas coisas precisamos ruminar e, principalmente, fazer com que o processo de digestão seja completo. Aquilo de absorver os nutrientes e expelir pela via anal o que não serve ao organismo. Essa via eu não acho muito fácil. Dói. Ruminar é, para mim, um processo de pensamento do qual precisamos de algum apoio, tipo uma análise. Ajuda a elaborar melhor as coisas, aliás, uma boa parte delas.

Porém, acho que sempre é possível passarmos pelo processo de esfoliar a vida, nossas memórias. Aquilo que tá morto em nós serve apenas para dar mais peso às nossas costas que podem ser frágeis ou sedentas por cargas novas e intensas. Não sejam tolos de pensar que esfoliar só ajuda no processo de tirar aquilo que é ruim, meus caros. Sonhos são bons, estar vivo, para mim pelo menos, é bom. Porém, alguns sonhos e alguns momentos da vida estão mortos, pois eu não as regenero, pois as camadas mortas impedem que as novas de surgirem.

Preciso esfoliar o meu rosto, a minha vida, os meus sonhos. Preciso de pele nova para ser hidratada, cuidada… pele essa que também morrerá, mas antes será vivida, tornará memória e irá me constituir mais um pouco. Esfoliar me tira da zona do conforto e eu tenho que falar foda-se para o meu medo e sair mesmo e deixar a minha cara livre para tapas e carícias. E que seja não só hoje, ou só amanhã, mas sempre!

Ah, sim. Se você está lendo isso: Esfolie-se também!

Mas, se tiver mais coragem do que eu: faça uma boa digestão, pode valer mais a pena.

Intensidade

Quando você faz determinada escolha, você não sabe as consequências dela. Você sabe, às vezes, que algo foi deixado de lado, para trás, para um “agora não dá”. Mas as consequências, elas nunca são previsíveis e essa é a coisa mais deliciosa do universo: o desconhecido, as borboletas em constante movimento no estômago.
Em uma semana em que milcoisas  acontecem, que a concentração e o foco estão perdidos e difuso em meio à vida, as intensidades são percebidas. Não tomo essa palavra como um conceito de algum reconhecido autor. Basta o Houaiss e a explicação para o verbete de que intensidade é uma característica do que é intenso. Ok. Intenso, é aquilo que transborda. Os momentos da vida são feitos de excessos que não cabem mais em si. É aquilo que prende na garganta. É aquilo que te da vontade de sair correndo e gritar para aliviar, deitar e chorar para se sustentar.
Relações são excessos. Novas vontades também. Querer sair do ninho, não tem como discutir. Talvez eu esteja muito cansada e imersa de corpo e alma nessa contemporaneidade que exige mais e mais e mais. Respirações para se organizar são momentos de exceção a serem buscados, cada vez mais.  Mas mesmo assim, esse jogo do prazer e desprazer me encanta. Faz com que os olhos brilhem. Faz com que eu tenha a absoluta certeza de que algumas escolhas foram as melhores que eu fiz na vida.
Quando o fim da semana chega há aquela respiração profunda que suga todo o ar do qual você é capaz. Depois de segundos no qual você pensa “acabou”, mais milcoisas intensas estão ali, te seduzindo. O medo, a ansiedade, a precaução, o novo, inusitado e intenso estão aí, olhando e te chamando, a todo momento. Como caminho, escolha, como aquilo que continua sendo e você está ali, imerso nele. Eu prefiro todos essas coisas juntas. Tenho sede de vida. Há coisa melhor para matar a sede de vida, do que uma batida recheada das coisas que a vida tem? Acredito, fielmente, que não.
Por favor, garçom?! Aqui, eu! Então, me vê um copo que transborde intensidade para matar a minha sede de vida? Obrigada.

A bateria acabou!

A bateria do celular acabou.

Quarenta minutos em pé. Cabeça olhando, repetidas vezes, para o teto, isso melhora a respiração.

Durante todos esses minutos é permitido ficar ansiosa, querendo chegar em casa para recarregar a bateria do celular e ver as últimas notificações. Mas antes, é preciso olhar para o lado. E perceber o real: as pessoas que não olham mais para o lado. Ou simplesmente não olham, veem, percebem.

Distrações: músicas ecoadas em seus próprios ouvidos e que, de tão alto, todos os outros ouvem. Jogos banais que fazem (ou não) o tempo passar mais rápido até chegar o destino. Ruídos que parecem conversas e um susto: algumas pessoas ainda conversam. Um olhar vago, de uma mãe e seus três filhos, sendo dois de colo e um dormindo ao seu lado.

Naquele cenário ainda é permitido passar em ruas lotadas de carros; por bares que só tocam músicas sertanejas universitárias recheadas de universitários que sentem prazer em cabular aula. Alguns metros depois, o famoso posto próximo a Universidade, e adivinha? O happy hour de sexta se passa ali mesmo.

Quando a bateria acabou, me desesperei. Mas, as vezes é preciso desligar da sua própria caverna, parar de ver as sombras e perceber quem está ao redor. Seja a mãe, o universitário, o trabalhador que dorme no ônibus, o ar que não circula, o calor que emana, as vozes que se misturam, o estresse no ápice a ponto do estouro. Tudo é interessante de se perceber. Quando a bateria acaba dois desesperos vem: a incomunicação com algumas pessoas e quão incomunicável estou com todo o resto do mundo e dos sentidos.

Quando a vida dá um sacode

 Poderia ser um feriado monótono. Onde mais uma vez as expectativas não foram concretizadas. Da cama para o computador, do computador para o sofá, do sofá para a cozinha, da cozinha para a cama. Uma ida ou outra ao banheiro. Pronto, passaram-se 4 dias de feriado. Mas não. Quando a vida quer, meus caros, ela te pega e sacode. Os olhos arregalam-se! A bagunça? Fica e é você quem tem que arrumar.

Você não pede, mas um milhão de informações lhe é dada em um curto espaço de tempo. Você não pede, mas tarefas lhe são atribuídas. Você não percebe, mas está rodeada de pessoas que perto ou longe querem seu bem e cuidam de você, independente de como. E você, na ilusão de ser detentor de todo o controle se vê perdido e sem um centro. Entenda: quando a vida dá um sacode, não há ponto de apoio.

A poeira abaixa. Você consegue elaborar todas as coisas que ficaram fora do lugar ou pelo menos organiza, deixa guardado em algum canto. Alerta: a monotonia não é eterna, uma hora ou outra o sacode vem e não vem sozinho. Talvez a vida seja constituída de sacudidas e aprender a lidar com elas seja um dos segredos disso que se chama vida (cheia de sacudidas).