Sobre o novo, de novo.

Esse ano teve tantos inícios e fins. Tantos idas ao meio, ao fundo do oceano. Teve calmaria e ressaca. Teve retorno à margem  (mesmo ela não sendo a mesma coisa, pois havia mudanças ali, lá, aqui).

Aconteceu tanta coisa que eu tive – mais uma vez – a doce ilusão de que estava acostumada com o sabor agridoce da mudança. Com o sabor que faz fechar os olhos de tão azedo, mesmo sendo esse sabor ingrato morada de prazer. Que pararia, de uma vez por todas, de escrever palavras tolas sobre sair da zona de conforto e ir para o confronto.

Não é assim. Não é previsível. Será que algum dia eu vou aprender?

Daí o tempo passa, e tudo mudou de novo. E a fragilidade berra. É inevitável querer voltar a posição fetal. Ser feto. Não lidar. Será que fugir sempre será a primeira alternativa?

E vem tombos. A insegurança está do seu lado. O medo instaurado. E novas marcas sendo feitas nesse corpo cansado, de ombros pesados, de pulmão que suporta respiros profundos.

Tem dias, desses novos dias, que se tudo fosse jogado no chão, destruído. Se um furacão passasse no meu quarto-mundo e trouxesse a bagunça interna para um cenário onde pudesse ser visto tudo, seria mais fácil de organizar. Seria mais fácil juntar os cacos. Seria mais fácil criar outros laços. Seria? Queria!

Há dias, desses novos dias, que parece que estou no mar calmo. O único movimento é aquele do próprio mar. Fico ali por horas, e quando resolvo sair sinto meu corpo com dois movimentos: o de ir para frente e o de se mover da esquerda para a direita ou o contrário, tanto faz. Eu só estou indo.

Mas tem dia, desses novos dias, que sinto tudo, tanto. Sinto coisas inomináveis. Encontro com fantasmas. O sono não me encontra, não nos encontramos. Há cortes, literais. Há sangue que jorra e parece que não vai estancar. Há lágrimas engolidas, mas tem dias que elas beijam bochechas, boca e pescoço, até o seu fim. Há dias que o berro é silêncio. Em outros dias, não tem berro, não tem silêncio, tem eu em frente ao espelho. Daí tem fuga, tem palavras bestas, tem um alívio mínimo.

Esses novos dias tem sido ímpar, tem sido vida, de outra forma vivida. Espera um pouco, não finda ainda, tá querida?

Our time is ever on the road

The ride is in what we make

I walked a year to hear a howl in this give and take

But hear it this way- hear it this way

Alright!

Turn Off

Quem nunca pensou que fosse uma loucura certa decisão tomada? Penso isso, às vezes, quando olho para trás e vejo que os meses já passaram, e falta mais um pouco para terminar os dias em Porto Alegre. Esse olhar para trás me faz dizer frases típicas de nós, adultos como, por exemplo,  “não tenho tempo para nada” ou “o tempo passou muito rápido”. Passo a questionar se é isso mesmo, ou se como sempre quero abraçar o mundo e ir por todos os caminhos que aparecem na minha frente.

Por um tempo demorei para desligar, apertar o Turn Off da minha vida lá, onde o sol aquece e é meu inferno e paraíso. Desligar sim, porque não poderia me responsabilizar por várias coisas, em uma vida que deixei e em uma nova que começava a construir. Demorei para perceber, por mais que já soubesse, que eu precisava dizer não. Que eu precisava aceitar que não daria conta de cumprir com coisas de lá, aqui, milhas e milhas distantes. Mais uma vez, expectativa e realidade sendo incompatíveis. Mais uma vez, nessa minha ansiedade de beber o mundo, de engolir a vida sem digestão, me fez pisar em falso. E é só pisando em falso que consigo perceber minhas próprias promessas falsas.

Hoje, consegui desligar um pouco. Consigo me relacionar com o tempo de outra forma, eu acho. É tempo de falta, muita falta. É tempo de perceber a dureza comigo, a dureza de estar realmente só, eu e o mundo e o frio. É tempo que passa desenfreado por mim, me atravessa e talvez demore um tempo para elaborar o que aqui se passa. Tempo de intensidade. Tempo de perceber que é possível estar só, sim e que é agradável poder compartilhar essa solidão. Tempo de construir outros laços, por mais difícil que seja. Tempo de passar rápido, tempo de Turn Off.

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Relógio | Catarina Sobral

Talvez, aperto Turn Off para coisas que não quero pensar, encarar. Pois, sempre há uma coisa ou outra que nos dói. Tempo de viver aqui e não só, há alguns laços que jamais serão desligados e você gostaria que eles estivessem próximos a você. Tempo de ser criticada, questionada e sentir-se nada. Tempo de perceber quais laços permanecerão, como permanecerão e aceitá-los. Tempo de aceitar o adeus e entender que as coisas jamais voltarão a ser o que eram, serão diferentes, nem melhores e nem piores: é tempo de aprender a não polarizar as coisas e sim acrescentar coisas, mesmo ponderando.

É tempo de desligar os preconceitos, esses que berram e que te doem. É tempo de reconhecer que nem sempre é possível acabar com todos eles. É tempo de aceitar, de uma vez  por todas, que não se pode tudo, infelizmente e parar de sofrer com isso, por isso. É tempo de deixar a arrogância de lado, assumir erros, agarrar os acertos e ser quem se é. Meio torta, meio fora do padrão, seja lá o que for isso. Aceitar-se e se alguma coisa ainda incomodar, respirar fundo, procurar formas de mudar. Lembra do que sempre se diz? no final, é só você contra você mesmo, não há culpados ou escapatórias. As escolhas são suas e as consequências também.

Se você desliga, e o que desliga, é só você quem sabe os efeitos disso… suas palavras, inclusive, talvez não deem conta disso. Mas, ajuda a aliviar. Assim como o abraço, o afago, o afeto que tanto te perturba não ter. Entende que desligar talvez não resolva mas, que vez ou outra, é preciso para não ser engolida. É preciso ruminar um pouco para sair palavras embaraçadas de um tempo acelerado, que você vive e diz não ter. Mas, se você não tem tempo para nada, o que é tudo isso que você vive?

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Para sair e sentir, sempre.

Mesmo com desconfiança saiu de casa. Afinal, não tinha o que se perder, apenas o contrário disso. Foi, viu flores e frutos. Sentiu cheiros e gostos. Sentiu frio. Medo também. Viu pessoas na rua que não tinham uma casa para voltar. Passou no meio de uma turbulência de pessoas falando ao mesmo tempo e ouviu o ecoar de um “ooooolhaaa o limão, o mamão e o melão! vai querer?”

Sentiu os próprios passos. Era como se a textura do chão ficasse impresso nos seus pés calçados. Sentiu o vento, que arrepiou o pelo e terminou em um esfregar de braços, um quase auto-abraço. Parou. Olhou de um lado para o outro e viu se poderia atravessar. Ao invés de olhar para frente, olhava para cima: gosta de ficar admirando o céu azul e as combinações que os prédios, árvores, pássaros, gente, suor e pele faziam com ele.

Ofegou. Subidas podem ser (e são) drásticas. Bebeu, às vezes o gozo pode estar em um gole. Comeu, o pouco e singelo foi intenso. Misturas de sabores provocam isso. Observou, quase voou para o seu outro eu. Percebeu que não tinha outro eu, e que bastava-se. Sentiu falta sim, como não sentir? Mas, perceber o prazer da própria companhia foi inigualável a qualquer outra sensação.

Retornou, descansou e chorou. Chorou porque tinha que chorar, isso não foi sinal de alguma coisa ruim, foi sinal de um puro sentir. Foi sinal de que estava viva e sentindo as emoções em erupção no seu corpo, do mindinho do pé ao último fio de cabelo.

Com desconfiança e medo, tenta a cada instante entregar-se ao desconhecido. Aos poucos tenta lidar com a ansiedade e a expectativa e a única coisa que resta, no fim de cada dia, é a esperança, não de que as coisas melhorem repentinamente, mas que as coisas melhorem para si e fim.

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